“A ESPERANÇA NÃO DECEPCIONA” (RM 5,5)

Hope does not disappoint (Rm 5,5)

DOI: https://doi.org/10.52451/sby56769

Recebido em: 16 de fevereiro de 2025.

Aprovado em: 08 de abril de 2025.

Ademir Rubini

Possui graduação em Ciências – Faculdades Reunidas de Admin. Ciências Contábeis e Econômicas de Palmas (1994), graduação em Filosofia B pela iversidade de Passo Fundo (2008), graduação em Teologia - B pelo Instituto de Teologia e Pastoral (1999),mestrado em Teologia pela Escola Superior de Teologia (2011) e doutorado em Teologia pela Escola Superior de Teologia (2015). É professor da Itepa Faculdades. Tem experiência na área de Teologia, com ênfase em Teologia Bíblica. Presbítero da Arquidiocese de Chapecó/SC. E-mail: ademir_rubini@yahoo.com.br, Orcid: 0000-0002-1996-2483

Resumo. O presente estudo analisa o tema do Mês da Bíblia 2025 — A esperança não decepciona (Rm 5,5) - em convergência com o lema do Ano Jubilar Ordinário. Partindo de uma apresentação do contexto histórico e teológico da Carta aos Romanos, investiga-se o conceito de esperança no pensamento paulino e sua relação com as virtudes teologais da fé e da caridade. A pesquisa, de caráter bibliográfico e exegético, evidencia que a esperança cristã, fundamentada na justificação pela fé e sustentada pelo amor de Deus derramado pelo Espírito Santo, transcende as adversidades e projeta-se para a plenitude escatológica. Conclui-se que, no contexto atual marcado por crises sociais e ambientais, a esperança evangélica se manifesta como força transformadora e compromisso profético de justiça, reconciliação e cuidado.

Palavras-chave: Esperança; Carta aos Romanos; Ano Jubilar; Justificação; Amor de Deus.

Abstract. This study examines the theme of the 2025 Bible Month — Hope does not disappoint (Rom 5:5) - in convergence with the motto of the Ordinary Jubilee Year. Starting from an overview of the historical and theological context of the Letter to the Romans, it investigates the concept of hope in Pauline thought and its relationship with the theological virtues of faith and charity. This bibliographical and exegetical research shows that Christian hope, grounded in justification by faith and sustained by the love of God poured out through the Holy Spirit, transcends adversity and is oriented toward eschatological fullness. It concludes that, in the current context marked by social and environmental crises, evangelical hope manifests itself as a transformative force and a prophetic commitment to justice, reconciliation, and care.

Keywords: Hope. Letter to the Romans. Jubilee Year. Justification. Love of God.

Introdução

Estamos vivendo no contexto do Jubileu, também chamado de Ano Santo. A Bula de Proclamação do Jubileu Ordinário do Ano 2025, do Papa Francisco, inicia citando o Apóstolo Paulo, com a afirmação “spes non confundit” – a esperança não decepciona (Rm 5,5). A esperança, uma das virtudes teologais, dá o tom de como a Igreja deseja celebrar o Jubileu Ordinário. O Santo Padre traz presente um sentimento que pode tomar conta da vida de muitas pessoas, dizendo que “muitas vezes encontramos pessoas desanimadas que olham, com ceticismo e pessimismo, para o futuro como se nada lhes pudesse proporcionar felicidade” (Francisco, 2024, n. 1).1 Vivemos tempos marcados por crises múltiplas: guerras, desigualdade, degradação ambiental, perda de sentido e solidão. Nesse cenário, a esperança cristã é farol, força revolucionária que sustenta e orienta os passos do povo de Deus.

Diante disso, o Papa convida todos a voltarem seu olhar à Palavra de Deus, reconhecendo em Jesus Cristo o fundamento sólido da esperança que não decepciona. Celebrar o Jubileu é, portanto, um chamado a recomeçar, a deixar-se tocar pela misericórdia de Deus e renovar-se na alegria da salvação.

Na mesma direção aponta a Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB, quando propõe o Texto-Base para o Mês da Bíblia, iluminado pela Carta de Paulo aos Romanos, inclusive com o mesmo lema do Ano Jubilar. Esta confluência reforça, ainda mais, a importância de buscar as razões para a esperança do mundo (1Pd 3,15), numa perspectiva cristã, para dar sentido à vida, em meio às alegrias e tribulações.

Metodologicamente, o presente texto aborda duas questões: primeiro, uma descortinando aspectos gerais da Carta aos Romanos; segundo, uma reflexão sobre o tema da esperança, com base no pensamento de Paulo.

1 Aspectos gerais da Carta aos Romanos

Das sete cartas consideradas autênticas, ou seja, escritas ou ditadas pelo próprio Paulo, a Carta aos Romanos é o último escrito do Apóstolo. Com a participação especial do secretário Tércio, que era, provavelmente, o taquígrafo de Paulo (Rm 16,22), temos o escrito mais amadurecido do pensamento paulino. Febe, diaconisa da comunidade de Cencréia – um dos portos de Corinto-, foi a carteira, que teve como missão levar a Carta à Igreja de Roma (Rm 16,1-2).

O motivo imediato de Paulo era apresentar-se aos cristãos de Roma, talvez para servir de ponte para ir à Espanha (Rm 15,24). Não foi Paulo quem fundou esta comunidade. Por isso, a necessidade de fundamentar sua intenção. O local do escrito foi em Corinto, pelo ano 56, onde permaneceu por três meses, durante a terceira viagem missionária (At 20,2-3).

Não se sabe quem fundou a comunidade. Possivelmente foi na década de 40, por cristãos judeus. No início, a comunidade cristã de Roma tinha forte presença judaica. Com a perseguição aos judeus, em 49, pelo imperador Cláudio, todos os que fossem de origem judaica foram expulsos de Roma. Quando Cláudio morreu, no ano 54, os judeus, inclusive Priscila e Áquila, puderam retornar. Mas, nestas alturas, a maioria dos cristãos em Roma já era de origem pagã, resultando em alguns conflitos de convivência entre os cristãos judeus e cristãos gentios, especialmente, por causa da liberdade diante da Lei Mosaica.

A comunidade cristã na capital romana era composta por diversos núcleos. Paulo faz referência a cinco Igrejas domésticas na cidade de Roma (Rm 16,3-16): Na casa de Prisca e Áquila (v. 5); na casa de Aristóbulo (v.10); na casa de Narciso (v.11); os irmãos que estão com Hermas (v. 14) e todos os santos que estão com Olimpas (v.15).

Embora Romanos seja um escrito com caráter, predominantemente, pastoral, apresenta muitos aspectos teológicos. Depois de escrever aos gálatas, abordando sobre a justificação, Paulo retoma e aprofunda sua tese fundamental: a justificação vem pela fé e não pelas obras da lei. A salvação é expressão da gratuidade divina, através da morte e ressurreição de Cristo. Embora todos (judeus e gentios) sejam culpados diante de Deus, este não os condena, mas manifesta sua justiça, oferecendo gratuitamente a salvação, a todo o que crê, em virtude da redenção realizada por meio de Cristo Jesus (Rm 3,21-24).

Ninguém se salva por própria conta, a condição da salvação é a fé, independente da Lei Mosaica. A humanidade não conquista a justiça. Ela é dom de Deus. “A fé justificadora é por si mesma uma obra da graça divina em nós, bem como a fonte frutífera de todas as nossas boas obras” (Champlin, 2002, p. 622). Em Jesus Cristo, foi superada a ideia de um Deus nacionalista, revelando-se um Deus de toda a humanidade. A Lei atinge sua finalidade através da fé, que age pelo amor (Rm 3,31; Gl 5,6).

2 A esperança da glória – Rm 5,1-11

O termo “esperança”, na carta aos Romanos, aparece 13 vezes (Rm 4,18.18; 5,2.4.5; 8,20.24.24.24; 12,12; 15,4,13.13) (CNBB, 2025, p. 10).2 Abraão entregou-se a Deus, confiando na promessa da terra e da descendência. Juntamente com Sara, partiu para uma terra que não conheciam, confiando na promessa de Deus, esperando contra toda esperança (Rm 4,18-21). A justificação pela fé em Cristo é apenas o início de uma nova caminhada, vivida na esperança e na perseverança diante das tribulações (Rm 5,2-3). A vocação da humanidade é ser a família de Deus, participando de sua glória (Rm 8,15-17). Enquanto isso não se realizar plenamente, viveremos em tensão: a criação em dores de parto (Rm 8,19-21), e com ela todos os cristãos que aguardam pela redenção do corpo, com uma esperança ativa (Rm 8,23-25) e gemidos inefáveis do Espírito – que age na comunidade (Rm 8,26-27). O hino ao amor de (Rm 8,31-19) mostra que nenhum obstáculo poderá nos separar do amor de Cristo. Possuir o Espírito e ser filho de Deus é expor-se a uma luta constante contra as forças que querem destruir o projeto de Deus. A vitória vem do amor de Deus, que venceu, em Cristo morto e ressuscitado, o poder do mal. Em Rm 12,12, a esperança é fonte de alegria, mesmo nas situações adversas da vida. A esperança vem da Palavra de Deus, que é fonte de consolação e mantém perseverantes aqueles que Nele esperam (Rm 15,4).

Paulo apresenta o Evangelho como força de Deus que conduz à salvação de todos os que têm fé (Rm 1,17-17). Fez perceber que esse dom vem de Deus, porque todos pecaram (judeus e gentios) e são incapazes de obter a justificação. Esta vem gratuitamente, em virtude da redenção realizada por Cristo (Rm 3,24). Abraão é colocado como exemplo quem depositou sua confiança inteiramente em Deus, “esperando contra toda a esperança” (Rm 4,18). Isto foi levado em conta de justiça (Rm 4,22). Da mesma forma, aquele que crê em Deus, que ressuscitou Jesus, encontra a justificação (Rm 4,24-25).

O capítulo 5 inicia apresentando as consequências da justificação. “Paulo, que em Gl 2s e Rm 3s se apresentou como apóstolo da justificação pela fé, retorna aqui ao antigo esquema: fé, esperança e caridade; justificados pela fé (v.1), temos uma esperança que não falha (vv.2b.4s), porque o amor nos foi dado pelo Espírito” (Sánchez Bosch, 2002, p. 271).

A justificação pela fé é penhor de salvação. O cristão justificado encontra no amor de Deus a garantia de ser salvo. “Na realidade, ao apóstolo interessa sublinhar que a fé, único caminho para a justificação, iguala e reúne circuncisos e incircuncisos numa mesma humanidade que o Pai de Jesus Cristo reconcilia consigo” (Barbaglio, 1991, p. 179). Isso faz o Apóstolo afirmar que tendo sido justificados pela fé, estamos em paz com Deus (Rm 5,1), que é fruto da reconciliação, proporcionada gratuitamente por meio de Jesus Cristo. “Uma vez que fomos justificados pela fé, estamos em paz com Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo. Por Ele tivemos acesso, na fé, a esta graça na qual nos encontramos firmemente e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus” (Francisco, 2024, n. 2). Esta paz não tem conotação psicológica, no sentido de viver na tranquilidade. “Indica, ao invés, uma situação objetiva de relação positiva com Deus, fonte de salvação” (Barbaglio, 1991, p. 196). Por isso, ela é muito mais fruto de uma vida nova, reconciliada com Deus.

Aquele que faz a experiência da justificação, no encontro com Cristo, caminha na esperança (Rm 5,2). A esperança é uma virtude característica de todo cristão. Lança o olhar para o horizonte, o futuro de todos os filhos e filhas de Deus, testemunhando o amor de Deus que nos chamou a participar de Sua glória. Esperar é viver na expectativa dos bens escatológicos, participando da ressurreição de Jesus. É suspirar pela redenção do nosso corpo (Rm 8,18-23; 1Ts 4,13s). “Pois nossa salvação é objeto de esperança; e ver o que se espera não é esperar. Acaso alguém espera o que vê? E se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos” (Rm 8,24-25). A esperança cristã vai além da vida terrena, ela remete à vida eterna. “Se temos esperança em Cristo tão-somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens.” (1Cor 15,19). A glória presente está ancorada na esperança da glória de Deus (Rm 5,2; 2Cor 3,7-12). Paulo retoma a experiência de Moisés e os israelitas no Horeb, onde a glória de Deus se manifestou, comparando com a glória manifestada em Cristo, que é muito superior. “Pois, se o que é passageiro foi assinado pela glória, com mais razão o que permanece de ser glorioso” (2Cor 3,11). Tudo isso, podemos sintetizar a partir do que Paulo exortou os tessalonicenses, usando a simbologia do soldado: “Nós, pelo contrário, que somos do dia, sejamos sóbrios, revestidos da couraça da fé e da caridade e do capacete da esperança da salvação” (1Ts 5,8).

O peregrinar na esperança não isenta as dificuldades. A glória é vivida em meio às tribulações, através das quais aprendermos a perseverar na esperança (Rm 5,3). “A salvação é algo que está atualmente em andamento (estamos no processo de ser salvos, um processo que inclui o sofrimento). E a salvação é uma realidade ainda a ser realizada (seremos salvos na parousia) (Boring, 2015, p. 503). O Espírito Santo nos mantém no amor de Deus, derramado em nossos corações, garantindo-nos que a esperança não decepciona (Rm 5,5). Este Espírito Santo é o princípio interior de vida nova que Deus dá, caracterizando a nova aliança em oposição à antiga (Rm 7,6). Este Espírito, que é o Espírito de Cristo, torna o cristão filho de Deus (Rm 8,14-16; Gl 4,6s).

Com efeito, a esperança nasce do amor e funda-se no amor que brota do Coração de Jesus traspassado na cruz [...]. E a sua vida manifesta-se na nossa vida de fé, que começa com o Batismo, desenvolve-se na docilidade à graça de Deus e é por isso animada pela esperança, sempre renovada e tornada inabalável pela ação do Espírito Santo (Francisco, 2024, n. 3).

Este amor de Deus se manifestou em nós, mesmo na condição de pecadores, nos reconciliando com Ele, mediante a morte de seu Filho. A iniciativa vem de Deus, que nos amou primeiro (1Jo 4,19b). Este amor é pura gratuidade divina, que gera a salvação por sua graça (Rm 5,6-11).

Considerações finais

Após esta breve análise de Rm 5,1-11, a partir do lema “A esperança não decepciona” (Rm 5,5), fica a provocação deixada pelo Papa Francisco: “Que a força da esperança encha o nosso presente, aguardando com confiança o regresso do Senhor Jesus Cristo, a Quem é devido o louvor e a glória agora e nos séculos futuros” (Francisco, 2024, n. 25). Nossa esperança está em Cristo. Unidos a Ele somos chamados a caminhar numa vida nova, como nos diz a Escritura: “Se, pois, ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto [...] e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,1-3).

Neste sentido, somos chamados a viver e anunciar essa esperança hoje, especialmente em meio à desigualdade, violência e crise ecológica. No contexto brasileiro, marcado por tantas feridas sociais, anunciar que a “esperança não decepciona” é assumir uma postura corajosa e profética. A comunidade cristã é chamada a ser sinal de reconciliação, espaço de cuidado, e portadora de uma esperança que se traduz em práticas de justiça, solidariedade e misericórdia. O Mês da Bíblia de 2025 nos convoca a redescobrir, na escuta da Palavra, a força transformadora da esperança evangélica.

Referências

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COMISSÃO EPISCOPAL PARA A ANIMAÇÃO BÍBLICO-CATEQUÉTICA DA CNBB. Carta aos Romanos – Mês da Bíblia, Brasília: CNBB, 2025.

FRANCISCO. Spes non confundit: Bula de Proclamação do Jubileu Ordinário do ano 2025. (Documentos Pontifícios, 63. Brasília: Edições CNBB, 2024.

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1 FRANCISCO, Spes non confundit: Bula de Proclamação do Jubileu Ordinário do ano 2025 (Documentos Pontifícios, 63. Brasília: Edições CNBB, 2024, n. 1).

2 Comissão episcopal para a animação bíblico-catequética da CNBB. Carta aos Romanos – Mês da Bíblia, Brasília: CNBB, 2025, p. 10.