O MINISTÉRIO DO DIACONADO NA VIDA E MISSÃO DA IGREJA

The ministry of the diaconate in the life and mission of the Church

DOI: https://doi.org/10.52451/9n1g5636

Recebido em: 05 de março de 2025

Aprovado em: 17 de junho 2025

Clair Favreto

Professor da Itepa Faculdades nas disciplinas de Liturgia, Sacramentos de Iniciação à Vida Cristã, Arte Sacra e Acompanhamento Espiritual. Doutor em Liturgia pelo Instituto de Liturgia Pastoral – Pádua/Itália. Pároco da Catedral São José de Erechim. E-mail:clafavit@gmail.com; Orcid: 0009-0008-5477-8092

Paulo Henrique Fassina

Coordenador de Pastoral da Paróquia da Catedral São José - Erechim; Bacharel em Ciências Contábeis (URI - Erechim); Mestrado em Ciências Contábeis - Universidade Regional de Blumenau - FURB (2006); Pós-graduando em Espiritualidade e aluno da Escola Diaconal na Itepa Faculdades. E-mail: phf.fassina@gmail.com; Orcid: 0009-0005-2547-6747

Resumo: Instituído pelos próprios Apóstolos, a partir das necessidades da vida prática das primeiras comunidades cristãs, o diaconado é oficialmente estabelecido como o primeiro grau do Sacramento da Ordem. O presente artigo faz uma reflexão sobre o ministério do diaconado na vida e na missão da Igreja, resgatando alguns aspectos históricos e contemporâneos. Por meio de uma pesquisa bibliográfica, aborda-se temas sobre o ministério diaconal e o diácono a serviço do Povo de Deus, aspectos da sua espiritualidade, bem como a apresentação de alguns diáconos que fizeram a história da Igreja. O pensamento dos Papas Bento XVI e Francisco também é tocado, mesmo que de forma breve. Por fim, o estudo encerra-se com a exposição de uma síntese da linha do tempo do ministério diaconal na Igreja desde sua instituição até os nossos dias, apontando personagens, acontecimentos e documentos. Conclui-se afirmando que a diaconia é plenamente exercida quando configurada no exemplo do Cristo-Servo e bom samaritano.

Palavras-chave: Diaconado; Diácono; Igreja; Ministério; Serviço.

Abstract: Instituted by the Apostles themselves in response to the practical needs of the early Christian communities, the diaconate is officially recognized as the first degree of the Sacrament of Holy Orders. This article offers a reflection on the ministry of the diaconate in the life and mission of the Church, retrieving both historical and contemporary aspects. Based on bibliographical research, it addresses key themes such as the diaconal ministry and the deacon’s service to the People of God, elements of diaconal spirituality, and notable deacons throughout the Church’s history. The thoughts of Popes Benedict XVI and Francis are also briefly considered. Finally, the study concludes with a synthesis of the diaconate’s historical timeline in the Church, from its institution to the present day, highlighting key figures, events, and documents. The article concludes by affirming that the diaconate reaches its fullest expression when configured to Christ the Servant and the good samaritan.

Keywords: Diaconate; Deacon; Church; Ministry; Service.

INTRODUÇÃO

O diaconado é a primeira ordem que oficialmente estabeleceu-se na Igreja. Foi instituída pelos próprios Apóstolos de forma direta no início de sua ação. Cronologicamente, as outras duas ordens vieram depois: o episcopado, como sucessão dos Apóstolos e os presbíteros, como colaboradores dos bispos.

A instituição diaconal teve um caráter tanto precoce quanto canonicamente preciso conforme nos apresenta os Atos dos Apóstolos, livro que retrata a vida das primeiras comunidades cristãs.

Então os Doze apóstolos reuniram a multidão dos discípulos e disseram: ‘Não está certo que nós abandonemos a pregação da palavra de Deus para servirmos as mesas. Portanto, irmãos, escolhei entre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, para que lhes confiemos essa tarefa. Deste modo, nós poderemos dedicar-nos inteiramente à oração e ao serviço da Palavra’. A proposta agradou a multidão. Escolheram então Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo; e também Filipe, Prócoro, Nicanor, Tímon, Pármenas e Nicolau de Antioquia, um prosélito. Eles foram apresentados aos apóstolos, que oraram e impuseram as mãos sobre eles (At 6,2-6).

O diaconado surge, portanto, de uma necessidade da vida prática da comunidade ao reconhecer objetivamente um duplo serviço da Igreja: as obras de caridade, para sustentar os necessitados, e a necessidade da oração (pessoal e litúrgica) e da pregação da Palavra de Deus. Isto mostra a unidade de inspirações e a distinção de ações.

Outra questão interessante é que foram os fiéis que escolheram os diáconos. Na escolha, o povo (comunidade) declarava confiança que se refletia, para os eleitos, no dever de realizar os serviços com zelo e competência. A iniciativa, portanto, foi dos Apóstolos, mas com a colaboração (escolha e oração) dos fiéis. Era a consagração de uma práxis que se tornou definitiva na Igreja.

Neste ano jubilar em que todos os cristãos são chamados a serem “Peregrinos de Esperança” e, ancorados no lema “a esperança não decepciona” (Rm 5,5), o diácono pelo seu ministério e caráter sacramental tem um papel especial nessa peregrinação. Nesse tempo de reflexão, oração, renovação espiritual e esperança renovada que o Ano Santo proporciona, é seu papel por meio da Liturgia, da Palavra e da Caridade atuar como uma ponte de esperança e de serviço em favor da comunidade cristã que está inserido.

1. SENTIDO ETIMOLÓGICO

Nos livros do Novo Testamento podemos encontrar diversas palavras que tem na sua origem o termo diakon, originado do verbo diakoneo, que significa servir. É deste verbo que surgem os substantivos diakonía (no sentido abstrato = serviço) e diáconos (no sentido concreto = servidor) (CATTANEO, 2004, p. 41-46).

Nas Diretrizes para o Diaconado Permanente da Igreja no Brasil, o primeiro significado da palavra diakonía era o de “servir a mesa” e que foi evoluindo e assimilando outros sentidos até designar as funções internas da comunidade. “Este último significado indica dois elementos: o primeiro é a caracterização de todos os ‘ministérios’ que são apresentados como serviço à vida da comunidade. O outro elemento é a designação de um ‘ministério’ específico que se chamou ‘ministério diaconal’” (CNBB 96, p. 9).

2. O DIACONADO NO SACRAMENTO DA ORDEM

Os diáconos recebem o primeiro grau do Sacramento da Ordem (o segundo grau é o dos presbíteros, e o terceiro grau, o dos bispos). Mas de onde surgiu o seu sentido?

A maioria dos Sacramentos conserva o nome grego, posteriormente latinizado, ou são chamados pelo gesto ou pela ação central. O Sacramento da Ordem, conforme o Catecismo da Igreja Católica (CIgC, 1537-1538), deriva de um sentido que não é sacro (religioso), mas civil.

Na antiguidade romana, Ordem designava corpo ou grupo constituído, como por exemplo, o corpo dos que governavam o Império. Por isso, a Ordinatio designava a integração num Ordo. Daí que Ordo tem sempre um significado coletivo: não se trata de receber uma ordem ou mandato, mas de entrar, isto é, de ser recebido numa Ordem (Ordo). Essa noção coletiva foi esquecida pela maioria dos teólogos e canonistas ao longo dos séculos. Mas foi recuperada por Pio XII e, sobretudo, pelo Concílio Vaticano II.

Hoje a palavra Ordinatio está reservada ao ato sacramental que incorpora à ordem dos bispos, dos presbíteros e dos diáconos e que transcende uma simples eleição ou instituição ou mesmo a entrada num Ordo. A Ordinatio confere o dom do Espírito Santo que permite exercer um poder sagrado que só pode advir de Cristo e por meio de sua Igreja. Ele é um sinal eficaz do próprio Cristo para o serviço da comunidade, como encontramos em Lumen Gentium (LG) quando afirma que o serviço próprio dos ministros ordenados é “o de ser pastores da Igreja com a palavra e com a graça de Deus” (LG, 10).

A ordenação também é denominada Consecratio pois, pela imposição das mãos do bispo, há um “investir” realizado pelo próprio Cristo. A imposição das mãos e a oração consecratória constitui o sinal visível dessa consagração. O termo Ordinatio, portanto, designa o momento ritual, litúrgico e sacramental onde se realiza uma “investidura sacra” colocada a serviço do povo.

3. O MINISTÉRIO DIACONAL NOS PRIMEIROS SÉCULOS

Os tratados mais antigos sobre as ordenações da Igreja, e que indicavam hierarquias sobre as quais as comunidades eram constituídas, são a Didaqué (± 100 dC), a Tradição Apostólica (final do II século), a Didascalia Apostolorum (em torno da metade do século III) e as Constituições Apostólicas (375-400). Estas são fontes que constituem os fundamentos diretos de qualquer reconstrução do Sacramento da Ordem.

a) A Didaqué – documento que faz uma ligação entre o Novo Testamento e os Padres Apostólicos, conhecido também como estatuto que contém as regras da Igreja primitiva, relata dois tipos de ministérios: a) itinerantes: os apóstolos, os profetas e os mestres; b) estáveis: os bispos e os diáconos. A Didaqué, fazendo referência à primeira carta a Timóteo (3,2-13), traz as virtudes que devem ter os bispos e os diáconos para que sejam declarados aptos e dignos para que assumam o seu ministério: “devem ser homens mansos, desprendidos do dinheiro, verazes e provados, pois também exercem o ministério dos profetas e dos mestres” (Didaqué, 15,1).

b) A Tradição Apostólica, atribuída a Hipólito de Roma, é o primeiro documento que descreve o ritual de ordenação de bispos (2-6), de presbíteros (7) e de diáconos (8). Destes, era prevista a imposição das mãos do tipo litúrgico-sacramental. O documento também fala dos confessores (9), viúvas (10), leitores (11), virgens (12), subdiáconos (13), curandores (14). Já para estes era previsto somente um rito de reconhecimento. O documento também traz as atribuições serviçais do diácono: colocar-se a serviço do bispo, sobretudo para visitar os doentes, ajudar as viúvas, instruir àqueles que se encontravam na Igreja e cuidar das economias da comunidade (8).

c) Na Didascalia Apostolorum, documento que reflete mais sobre os bispos, os diáconos aparecem como os servidores deles. Na liturgia, os diáconos cuidavam da entrada da Igreja, mantinham a boa ordem entre os fieis e serviam o altar. Na celebração do Batismo, ungiam o corpo dos catecúmenos; todos os dias visitavam os doentes; levavam ao bispo as ofertas dos fieis que, por sua vez, os mesmos diáconos as levavam aos necessitados. Por isso, o diácono era visto como a “orelha do bispo, a sua boca, o seu coração e a sua alma”, eram “duas pessoas numa só vontade” (Dictionnaire de Théologie Catholique, DThC, IV,1).

d) Nas Constituições Apostólicas encontra-se um relato mais amplo sobre as ordenações realizadas pela Igreja porque recuperam amplamente tudo o que contém nas normativas precedentes. São oito livros. O segundo livro trata dos bispos, presbíteros e diáconos. Faz uma comparação vendo Abrão como aquele que transmite ao faraó as palavras de Moisés, seu irmão, como rei e profeta. Abrão era o mediador (29), isto é, o diácono, e Moisés o bispo (30); o diácono devia agir em nome do bispo (31) e socorrer os necessitados em seu nome (32); devia referir-se em tudo ao bispo, como Cristo ao Pai (44,3). No terceiro livro encontra-se que o diácono devia ser irrepreensível e cuidar amorosamente dos doentes (19,1).

Sobre a base destes “códigos constitucionais” desenvolveram-se incumbências específicas. Fundamental é a precisação do seu sentido sacramental. O diaconado é um Sacramento enquanto constitui grau do Sacramento da Ordem, mas ao mesmo tempo é distinto do presbiterado. Isidoro de Sevilha, no documento De Ecclesiasticis Officiis (Eccl. off. II, 8,4: CCL, 113) diferencia, com nitidez, que o presbítero (sacerdote) consagra, o diácono “administra” o sacramento; o presbítero santifica as oferendas, o diácono distribui o que foi santificado. Isto mostra que os diáconos, se não “fazem” os Sacramentos, ao menos participam de uma ação litúrgica ritual em sua profundidade.

Os primeiros séculos, portanto, são os que mais fizeram florescer o sentido e o valor do diaconado. A partir do sexto século, o diaconado foi perdendo seu significado original e já antes do final do primeiro milênio era visto somente como uma etapa de transição em relação à ordenação presbiteral. O seu significado, isto é, o “ministério do diaconado”, foi recuperado somente no século passado por meio do Concílio Vaticano II.

Um dos mais importantes documentos da CNBB sobre o diaconado, recuperando o sentido deste ministério dos primeiros séculos, assim se expressa: “O ministério diaconal, nos primeiros séculos, assume particularmente a dimensão da caridade. Em seguida, vem o serviço do culto e da pastoral. Nas primeiras comunidades cristãs, percebe-se a consciência de que a diaconia é a expressão concreta do amor” (CNBB 96, n. 3).

4. O MINISTÉRIO DIACONAL

Foi o Concílio Vaticano II que restaurou o diaconado como ministério ordenado permanente. No documento Lumen Gentium encontra-se:

Em grau inferior da hierarquia estão os diáconos, aos quais foram impostas as mãos não em ordem ao sacerdócio, mas ao ministério. Pois que, fortalecidos com a graça sacramental, servem o Povo de Deus em união com o Bispo e o seu presbitério, no ministério da Liturgia, da palavra e da caridade (LG, 29).

A Lumen Gentium afirma que estão em grau inferior, pois eles recebem somente o primeiro grau da ordem, mas o documento também recupera o sentido sacramental do ministério diaconal. E, ao mesmo tempo, atribui algumas funções que lhe são próprias: “celebrar o Batismo, cuidar e distribuir a Eucaristia, assistir e abençoar os Matrimônios, proclamar a Palavra de Deus e instruí-la ao povo, presidir Celebrações da Palavra, celebrar os sacramentais e os ritos funerais, tudo sempre com o consentimento e orientação do bispo diocesano (LG, 29).

O ministério diaconal recuperado pelo Concílio Vaticano II foi logo regulamentado pelo Papa Paulo VI ao publicar duas Cartas Apostólicas: Sacrum Diaconatus Ordinem em 1967 e Ad Pascendum em 1972. Numa delas o Papa afirma: “para apascentar e fazer crescer cada vez mais o povo de Deus, o Cristo Senhor instituiu na Igreja diversos ministérios, destinados ao bem de todo o seu corpo. Desde o tempo dos Apóstolos, salienta-se e aparece com particular relevo entre esses ministérios, o Diaconado, sempre tido em grande estima na Igreja” (Pontifical Romano, 2008, p.136).

No Brasil, depois de algumas publicações anteriores, o último documento que reflete e normatiza sobre o diaconado é o Documento 96 da CNBB. Neste, os bispos afirmam: “O Concílio Vaticano II (LG, 29) restaurou o diaconado como grau próprio e permanente da hierarquia e estabeleceu condições teológico-pastorais favoráveis para que esse ministério pudesse desenvolver-se plenamente. Entre tais condições ressaltam-se: a eclesiologia de comunhão e participação; a teologia da diversidade dos carismas e ministérios; o poder como serviço; além da própria necessidade pastoral” (CNBB 96, n. 4). Neste rico documento dos bispos brasileiros encontra-se três fundamentos teológicos importantes do diaconado:

a) A diaconia de Cristo - Ele é enviado pelo Pai para realizar uma missão, a de ser Profeta, Sacerdote e Rei. Desta forma, Jesus é enviado para exercer o seu diaconado: amar e salvar a humanidade. É desta missão e deste ministério, que é constituída a fonte dos ministérios e o modelo da ministerialidade da Igreja (CNBB 96, n. 19-21).

b) A diaconia da Igreja – Cristo exerceu sua missão e a confiou aos Apóstolos. Estes, impulsionados pelo Espírito Santo, testemunharam-na com suas vidas que, por sua vez, confiaram-na a seus colaboradores diretos transmitindo, sucessivamente ao longo da história, o ministério inaugurado por Cristo. Por isso a Igreja, através da ordenação, consagra e envia ministros servidores para continuar o mandato de Jesus (Mc 16,15) (CNBB 96, n. 22-27).

c) O ministério diaconal - o documento mencionado mostra que o diácono se define como “sacramento de Cristo Servo e como expressão da Igreja servidora” (CNBB 96, n. 28). A natureza do diaconado, portanto, é a participação na missão de Cristo; sua identidade, como ministério, é de natureza divina, isto é, instituída por Cristo, mas, marcado sacramentalmente pela graça divina, atua por meio da ministerialidade da Igreja; a missão do diácono não é a do sacerdócio, mas a do ministério, ou seja, é configurado ao Cristo-Servo. Sua razão de ser, portanto, é a de ser servidor (CNBB 96, n. 28-42).

Por fim o diácono, pela graça sacramental, assume o Sacramento da Ordem e o seu agir é exercido numa tríplice missão:

a) A diaconia da caridade (diakonia), tendo os pobres como campo privilegiado de sua ação evangelizadora;

b) A diaconia da Palavra (martyria), sendo primeiro discípulo e ouvinte da Palavra e, depois, anunciador dela;

c) A diaconia da liturgia (leitourghia), é o serviço do culto e dos sacramentos da fé, que não é somente a realização de uma função, mas tornar a liturgia o centro da sua vida e da sua missão (CNBB 96, n. 43-66).

Os ministérios, isto é, os serviços, tem sua origem, portanto, na missão confiada por Jesus e pertencem à estrutura fundamental da Igreja. Por meio deles, a Igreja toma consciência que não existe para si mesma, mas em função da graça do Espírito Santo que confere àqueles que assumem o ministério e coloca em prática os serviços da martyria-leitourgia-diakonia.

Ao longo da história, vários diáconos realmente colocaram sua vida a serviço da Igreja. Alguns, pela sua importância, é interessante recordá-los, como aparece no quadro a seguir:

Quadro 01: apresentação de diáconos que colocaram a vida a serviço da Igreja no contesto bíblico.

  • Santo Estêvão – foi um dos primeiros diáconos escolhidos pela comunidade (At 6,5) e o primeiro mártir cristão (At 6,8-7,60);
  • Santa Febe - diaconisa recomendada por Paulo a serviço da Igreja de Cencreia (Rm 16,1);
  • Filipe - é um dos sete diáconos (At 6,1-6); grande missionário cristão/evangelizador do primeiro século (At 8,4-13); é um dos setenta enviados e foi quem batizou o eunuco (At 8,26-40);
  • São Lourenço de Huesca - é um dos primeiros diáconos guardiões da Igreja em Roma; foi decapitado em 10.08.258 numa das perseguições no tempo do imperador Valeriano;
  • São Vicente de Saragoça - morreu mártir através das perseguições de Diocleciano no início do século IV;
  • Santo Efrém da Síria - morreu no final do século IV; foi grande compositor de hinos e autor de poemas, sermões de exegese bíblica e teólogo do IV século;
  • Santa Olímpia, a Diaconisa - filha do senador Anício Secundo e esposa do prefeito de Constantinopla; quando ficou viúva vendeu todos os bens para ajudar os pobres; estimada por São João Crisóstomo, seu diretor espiritual, foi exilada por defendê-lo; morreu em 25.07.408; seu nome é lembrado numa das 140 colunas que adornam a praça São Pedro em Roma;
  • Santa Teosébia, a Diaconisa, e Santa Macrina, a Jovem - irmãs de São Basílio Magno e São Gregório de Nissa;
  • Santo Alcuíno de Iorque - foi monge beneditino, professor de Iorque, criou uma das melhores bibliotecas da Europa transformando a escola num dos maiores centros do saber; foi instrutor e reformador da corte e do clero no reinado de Carlos Magno, foi conselheiro do imperador e teve grande contribuição para a renascença carolíngia; morreu em 19.05.804; é o patrono das universidades cristãs;
  • Leão, o Diácono - foi diácono bizantino no palácio imperial e historiador no final do século X;
  • São Francisco de Assis (1182-1226) - foi um frade católico italiano; viveu uma vida religiosa de completa pobreza e fundou a ordem mendicante dos Frades Menores, conhecida como Franciscanos; promoveu a pregação itinerante; defendeu todas as criaturas dedicando-se especialmente às pessoas mais pobres; é o santo patrono dos animais e do meio ambiente.

Fonte: elaborado pelos autores (2025).

5. O DIÁCONO A SERVIÇO DO POVO DE DEUS

Desde a sua recuperação pelo Concílio Vaticano II até os nossos dias, o ministério diaconal é a vocação que mais cresce na Igreja não só no Brasil, mas em todo o mundo. No Brasil, no ano de 2023, segundo dados da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB -, havia cerca de 6,2 mil diáconos permanentes (CND, 2023).

Chamados por Deus em função do bem do povo, o diácono é forjado no caminho do serviço, à imagem do Cristo que se fez servo de todos. Petrolino (2020) considera que a diaconia, mais do que um conjunto de conhecimentos e experiências, é um modo de viver. Esse modo de viver deve estar ancorado no modelo do projeto de vida do próprio Jesus Cristo, servo e bom samaritano. Lembremos do gesto da última ceia em que Jesus lavou os pés dos seus apóstolos (Jo 13,3-20). Esse gesto de Jesus, não compreendido por Simão Pedro, é emblemático, pois, no atual contexto em que muitos servos servem os “mestres”, Jesus deixa como lição uma atitude da mais pura humildade, colocando sua vida a serviço da humanidade, dando o mais belo exemplo da vocação cristã que é o serviço.

Luciano Rocha Pinto (2020) explica que esta cena expressa a Cristologia do serviço, em que o Senhor assumindo a forma de servo, se coloca na condição de “empobrecido” para “enriquecê-los”. Coloca todos numa mesma condição hierárquica. É interessante perceber que o evangelista não se preocupou em elencar a ordem dos que foram servidos, mas de deixar uma mensagem de que todos somos iguais, assim como é o dever de servir a todos, sem distinção.

O Apóstolo Paulo exortava: “pela caridade, colocai-vos a serviço uns dos outros” (Gl 5,13). No exemplo de Jesus e na exortação de Paulo manifesta-se o serviço humilde e a caridade, atributos que devem moldar a identidade do diácono para ser a verdadeira configuração do Cristo-Servo. Se bem compreendido e desempenhado, esses dons de modelo de vida do diácono, geram a convicção que “a diaconia faz o diácono”. Não é o título, a dalmática e a estola que fará o diácono, mas o exercício constante da diaconia, que modela seu ser e dá sentido à sua missão.

Neste sentido é importante refletir o exercício desse ministério ordenado na Igreja a serviço do Povo de Deus, onde o diácono é um sinal visível da diaconia de Jesus Cristo. Tendo presente que a origem do ministério diaconal está profundamente enraizada na vida das primeiras comunidades cristãs (At 6,2-6) a partir das necessidades da época, é importante entender a missão do diácono no século XXI, numa sociedade marcada por profundas transformações sociais, notada principalmente pelas relações fragmentadas e pelo individualismo. Essa realidade nos apresenta novos desafios e clamores, mas, também, oportunidades de sermos portadores de esperança.

Na esteira da esperança, o Papa Francisco, por ocasião da proclamação da Bula do Ano Santo de 2025, apresenta como mensagem central justamente a esperança. Aludia a sermos “Peregrinos de Esperança”, convidando todos os cristãos a redescobrirem a “esperança que não decepciona” (Rm 5,5) e a misericórdia de Deus em um momento de desafios globais extraordinários.

No documento Spes non Confundit, bula de proclamação do Jubileu 2025, o Papa Francisco exorta que os cristãos são chamados a serem sinais palpáveis de esperança para muitos irmãos e irmãs que vivem em condições de dificuldade (SNC, n.10). Os diáconos, por seu ministério e carisma, são convidados a serem portadores dessa “esperança que não decepciona” (Rm 5,5) que podem ser realizados pelas obras de misericórdia corporais: (dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; dar pousada aos peregrinos; visitar os enfermos; visitar os presos; enterrar os mortos); e pelas obras de misericórdia espirituais: (dar bons conselhos; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram; consolar os tristes; perdoar as injúrias; sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo; rezar a Deus pelos vivos e defuntos). Todas essas ações caridosas de auxílio ao próximo em suas necessidades, mostram que a diaconia vai agir naquilo que lhe é mais intrínseco: a caridade.

Muitos são os lugares e as mesas que o diácono é convidado a estar presente como agente da ação misericordiosa de Deus e da Igreja, semeando esperança e promovendo a vida: escolas, hospitais, condomínios, universidades, edifícios públicos, empresas, famílias, periferias, grupos de jovens, presídios. Estas e muitas outras realidades são espaços dessas novas fronteiras de missão. Nesse sentido, o Diretório do Ministério e da Vida dos Diáconos Permanentes da Congregação para o Clero (n.27) assegura que a dimensão do serviço diaconal deve estar conectada à dimensão missionária da Igreja, na qual o serviço da Palavra, da liturgia e da caridade devem atravessar o espaço paroquial e se prolongar na vida quotidiana, familiar e profissional.

No contexto do século XXI, onde a dor se apresenta sob novas formas e o individualismo se fortalece, o diácono é chamado a ser sinal profético de comunhão, partilha e cuidado, fazendo da sua vida um permanente serviço à mesa do Reino de Deus. Servir à mesa é, portanto, fazer-se próximo, como o bom samaritano (Lc 10,25-37); é ter a coragem de lavar os pés dos irmãos, como fez Jesus (Jo 13,3-20); é dar de beber, de comer, acolher e hospedar o estrangeiro (Mt 25,35); é viver na radicalidade do Evangelho, o mandato do Senhor (Mt 28,19; Mc 16,15) estando no mundo proclamando e anunciando o Evangelho a toda criatura.

6. ESPIRITUALIDADE DO DIÁCONO PERMANENTE

O Sacramento da Ordem confere aos diáconos uma nova consagração a Deus. Pela unção do Espírito são enviados por Cristo para o serviço do povo de Deus. É deste envio que nasce a espiritualidade diaconal (CNBB, DI 25, n.44). O Documento 96 da CNBB afirma: “o elemento que mais caracteriza a espiritualidade diaconal é a descoberta e a partilha do amor de Cristo-Servo” (n. 168).

Como indicado pela própria palavra, diaconia caracteriza o espírito de serviço. O serviço é a essência que molda a identidade do diácono. No Evangelho de Mateus Jesus ensina: “Quem quiser tornar-se grande entre vós, torne-se o vosso servo, da mesma forma como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos” (Mt 20,26-28). Em Lucas (22,27) Jesus interpela os seus discípulos dizendo: “Quem é maior, aquele que está à mesa ou aquele que serve? Pois eu estou no meio de vós como aquele que serve.” Esses versículos bíblicos revelam o centro da espiritualidade diaconal: o serviço como expressão mais autêntica da grandeza cristã.

Na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini, o Papa Bento XVI, escreveu:

Quero referir-me também ao lugar da Palavra de Deus na vida daqueles que são chamados ao diaconado, não só como grau prévio da Ordem do Presbiterado, mas também enquanto serviço permanente. O Diretório para o diaconado permanente afirma que «da identidade teológica do diácono derivam com clareza os traços da sua espiritualidade específica, que se apresenta essencialmente como espiritualidade de serviço. O modelo por excelência é Cristo-Servo, que viveu totalmente ao serviço de Deus, para o bem dos homens. Nesta perspectiva, compreende-se como, nas várias dimensões do ministério diaconal, um elemento caracterizador da espiritualidade diaconal seja a Palavra de Deus, que o diácono é chamado a anunciar com autoridade, acreditando naquilo que proclama, ensinando aquilo que acredita, vivendo aquilo que ensina. Por isso recomendo aos diáconos que incrementem uma leitura crente da Sagrada Escritura na própria vida com o estudo e a oração. Sejam iniciados na Sagrada Escritura e na sua reta interpretação, na mútua relação entre a Escritura e a Tradição, e particularmente na utilização da Escritura na pregação, na catequese e na atividade pastoral em geral (VD, 81).

Esse modelo de espiritualidade do exemplo de Jesus Cristo deve permear a vida do diácono. Essa espiritualidade exige uma vida de oração, humildade, simplicidade e compromisso com os mais necessitados. No caso dos diáconos casados, a espiritualidade também se alimenta da vida familiar e conjugal, sendo o Matrimônio parte constitutiva de sua vocação. Nesse sentido, na vivência dos Sacramentos do Matrimônio e da Ordem, o diácono construirá uma espiritualidade profunda, envolvendo a esposa e os filhos no serviço de Cristo, no anúncio e na construção do Reino (CNBB 96, n. 169).

A espiritualidade diaconal há de ser vivida na centralidade da Eucaristia; na vivência dos Sacramentos e de toda a liturgia; na leitura orante da Palavra de Deus; na recitação da Liturgia das Horas; na oração pessoal, familiar e contemplativa (CNBB 96, n. 172).

Adoração frequente ao Santíssimo Sacramento, participação regular no Sacramento da Reconciliação e apreciar a virtude da penitência, são formas que ajudam o diácono alimentar a sua espiritualidade para o encontro pessoal com Deus e fortalecer seu ministério. Participação ativa em retiros espirituais e venerar a Santíssima Virgem Maria, Mãe do Senhor, pela oração do rosário, também são formas indispensáveis do cultivo à espiritualidade diaconal. Jesus, homem de oração, ensinava: “Ficai atentos e orai a todo o momento, a fim de conseguirdes escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes de pé diante do Filho do Homem” (Lc 21,36; cf. Fl 4,6-7).

Por fim, é importante recordar as palavras de Bento XVI: “um elemento caracterizador da espiritualidade diaconal seja a Palavra de Deus, que o diácono é chamado a anunciar com autoridade, acreditando naquilo que proclama, ensinando aquilo que acredita, vivendo aquilo que ensina (VD, n. 81).

7. OS PONTIFICADOS DE BENTO XVI E FRANCISCO SOBRE O DIACONADO PERMANENTE

No ano de 2006, o Papa Bento XVI, em seu discurso aos diáconos de Roma, por ocasião do 25º aniversário do restabelecimento do diaconato permanente daquela Diocese, alertava para as novas formas de pobreza que surgiam na humanidade, aludindo efetivamente à perda do sentida da vida e à pobreza espiritual e cultural das pessoas.

Na ocasião, o Papa exortava para que os diáconos se voltassem para essa nova realidade a fim de transmitirem a Palavra por meio do anúncio do Evangelho e, assim, serem portadores da alegria que Deus deseja transmitir a cada ser humano. Salientava, ainda, que não é suficiente proclamar a fé em palavras, mas é necessário que o anúncio do Evangelho seja acompanhado do testemunho concreto da caridade.

Por meio da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini, Bento XVI também discorreu sobre a identidade e a espiritualidade do diácono permanente. Outras intervenções do Pontífice foram feitas no Catecismo da Igreja Católica e no Código de Direito Canônico “com o objetivo de oferecer novos elementos para esclarecer a natureza do Sacramento da Ordem e definir melhor a identidade do diaconato” (Hauke; Hoping, 2019, p.237).

Sobre o pontificado de Francisco, Hauke e Hoping, (2019, p.240) salientam “que o estilo do Papa é de um autêntico diácono da alegria, simplicidade e pobreza Evangélica”. Recorda o autor sobre o significativo gesto do lava-pés realizado no início do seu Pontificado, como já fazia em Buenos Aires, vestindo a estola diaconal. “Francisco, com seu ensinamento, apresenta a comunidade, mesmo que não se refira explicitamente ao ministério, uma visão clara de uma Igreja diaconal” (Hauke; Hoping, 2019, p. 241).

Outro gesto significativo de Francisco, segundo os mesmos autores, foi a carta enviada por ocasião da ordenação de alguns diáconos de Buenos Aires, na qual ele enfatiza:

(...) o serviço deve caracterizar a existência do ministério diaconal que expressa publicamente a vocação ao serviço (...) não só por um tempo, mas é para toda a vida: serviço por Jesus Cristo, serviço pela Igreja, serviço aos irmãos, especialmente os mais pobres e necessitados. Não sejam “diáconos em algumas horas” ou oficiais. A Igreja não é uma ONG. Que o serviço escave vossa vida. “Coloquem – como o diácono Lourenço – a carne na grelha” (grifo nosso).

Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, apresentada em 24 de novembro de 2013, Petrolino (2020) identifica alguns elementos de particular relevância ao ministério diaconal, citando: a) a alegria do anúncio do Evangelho como aquele que enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus; b) a prioridade do Evangelho como urgência da missão, tendo na imagem do diácono por ocasião da sua ordenação, o Servo do Evangelho; c) a necessidade da missão que exprime a identidade da Igreja; d) a opção preferencial pelos pobres, uma Igreja pobre e para os pobres, e, por isso, verdadeiramente diaconal.

8. Síntese da linha do tempo do ministério diaconal

Desde a sua introdução até os nossos dias, a história do diaconado percorreu um longo caminho na vida da Igreja. Às vezes mais solidificado, outras vezes esquecido, outras menosprezado ao ponto do desaparecimento por completo desse importante ministério da vida eclesial, sendo resgatado novamente a partir do Concílio Vaticano II.

Queremos resgatar e apresentar uma síntese da linha do tempo sobre o ministério diaconal, apontando personagens, acontecimentos e documentos. Na obra de Luciano Rocha Pinto (2020), encontramos 152 eventos que retratam a história da diaconia ao longo do tempo. Em nossa síntese, em função do limite de páginas do artigo, elencamos 51 eventos que consideramos relevantes e que transcrevemos no quadro a seguir.

Quadro 02: Eventos da diaconia ao longo do tempo

Data

Eventos

33

Instituição dos Sete Diáconos: Estevão, Filipe, Prócoro, Nicanor, Tímon, Pármenas e Nicolau (At 6,2-7).

Atividade missionária do diácono Estevão na sinagoga dos Libertos, prisão e morte (At 6,9-15; 7,55-60).

Saulo aprova morte do diácono Estevão (protomártir da Igreja) (At 8,1).

34-35

Atividade missionária do diácono Filipe na Samaria (At 8,4-25); na região de Gaza, onde batiza o ministro da rainha da Etiópia, primeiro gentio (incircunciso) (At 8,26-39); em Azoto e região e em Cesareia (At 8,40).

37

Fundação da Igreja de Antioquia pelos helenistas epígonos dos Sete (At 11,19-26).

40

A Igreja de Antioquia envia Barnabé, Saulo (Paulo) e João Marcos em missão (At 13,2ss).

49-51

Paulo defende o método missionário dos Sete no Concílio de Jerusalém. A prática dos Sete é aceita e torna-se missão eclesial (At 15,1-35; Gl 2,1-21).

65-67 / 70-80

Primeira carta de Paulo a Timóteo: orientações aos bispos e diáconos (1Tm 3,1-11).

Final do século I Início do II

Hierarquia centrada no epíscopo e no diácono (Didaqué, cap. XV,1-2).

107-155

Cartas de Inácio de Antioquia; Policarpo de Esmirna; Pastor de Hermas; Justino de Roma: enfatizando a cristologia do diaconado, os deveres dos diáconos e a importância do diácono, inclusive na função de administrar os bens da Igreja.

Século III

Didascalia Apostolorum: sobre a dignidade de bispos e diáconos e sua unidade; o papel dos diáconos; o ministério das diaconisas; espiritualidade diaconal.

Cânones Eclesiásticos dos Santos Apóstolos: sobre a instituição do diaconado e seu valor.

Testamento do Senhor: sobre as qualidades exigidas para a escolha de um diácono; as funções diaconais; sua relação com o bispo e com a comunidade.

A diaconia caritatis ocupa lugar privilegiado na atuação dos diáconos. Também ocupam espaços mais elevados da administração eclesial.

215

Tradição Apostólica, de Hipólito de Roma: funções litúrgicas, ordenação do diácono; subdiáconos e relação com o bispo.

258

Martírio de São Lourenço, patrono dos diáconos.

300-303

Concílio (Sínodo) de Elvira: imposição do celibato para bispos, presbíteros e diáconos (Art. 33).

314

Concílio de Arles: proibição dos diáconos celebrarem a Eucaristia.

Meados do século IV

O arcediácono ou arquidiácono generaliza-se como função distinta. Aos poucos sua influência vai crescendo, assumindo cargos muito semelhantes ao atual vigário-geral.

380-383

Vida de Macrina, de Gregório de Nissa: diaconisa responsável por uma comunidade monástica de mulheres.

Início do século V

Início do processo de esvaziamento do ministério diaconal. Razões diversas (sacerdotalização da Igreja, multiplicação dos serviços de caridade fora do diaconado, conflito de poder entre presbíteros e diáconos, dentre outros fatores).

Meados dos anos 590

O Papa Gregório Magno torna a proclamação do Evangelho um ato litúrgico próprio do diácono.

950

O pontifical romano-germânico proíbe as ordenações per saltum. A partir de então o diácono não poderia ser ordenado epíscopo sem antes passar ao presbiterado. Para se chegar ao presbiterado, era preciso, também, ter sido ordenado diácono primeiramente. As ordenações tornam-se per gradum, instituindo, assim, a linearidade do cursus clerical.

1228

Prima Vita de São Francisco de Assis, de Tomás de Celano: sobre a vida e a obra do diácono São Francisco de Assis.

1265-1273

Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino: apresenta se um diácono pode conceder indulgências; se é do ofício do diácono batizar; se os diáconos podem conceder a extrema-unção; se o Sacramento da Ordem imprime caráter também no grau do diaconado; se há sete ordens.

1545-1563

Concílio de Trento: afirmação dos sete graus do Sacramento da Ordem: sacerdotes, diáconos, subdiáconos, acólitos, exorcistas, leitores, hostiários. Distinção entre ordens maiores (ordem sacerdotal, diaconado e subdiaconado) e ordens menores (acólitos, exorcistas, leitores e hostiários). Atribuições do diácono.

1566

Catecismo Católico Romano: reafirmação do Sacramento da Ordem e da hierarquia segundo o Concílio de Trento.

1951

Jovens assistentes sociais formam o primeiro Círculo do Diaconato em Friburgo, na Alemanha. Seu objetivo, diante da falta de padres e da necessidade de assistência aos necessitados no pós-guerra, é refletir sobre a importância dos diáconos casados na igreja latina.

1957

Segundo Congresso Mundial sobre o Apostolado dos Leigos, de Pio XII: o papa faz a primeira referência ao restabelecimento da ordem do diaconado, como ministério permanente e independente do sacerdócio.

1962

Petição, do Centro Internacional do Diaconato, aos Padres Conciliares do Concílio Vaticano II para a renovação do diaconado como ministério permanente.

1964

Constituição Dogmática Lumen Gentium: restabelece (nº 29) o diaconado na Igreja latina como ministério permanente, para servir o povo de Deus em união com o bispo e seu presbitério, no ministério da liturgia, da Palavra e da caridade.

Os textos do Concílio Vaticano II (SC 86; LG 20, 28, 29, 41; OE 17; CD 15; DV 25; AG 15, 16), entendem a sacramentalidade do diaconado (permanente e transitório).

1967

Sacrum Diaconatus Ordinem, de Paulo VI: Motu Proprio sobre o diaconado permanente com as normas gerais para a restauração do diaconado permanente na Igreja latina: funções, espiritualidade, subsistência, rito de ordenação, admissão aos candidatos, etc).

1968

Ordenação dos primeiros diáconos permanentes da América Latina: foram ordenados pelo Papa Paulo VI, durante a celebração de encerramento do Congresso Eucarístico de Bogotá, Colômbia, em 22 de agosto.

1970

Primeiro Encontro Nacional do Diaconato Permanente, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

1972

Carta Apostólica Ad Pascendum, de Paulo VI: Motu Proprio com normas a respeito da ordem do diaconado.

1987

Diaconato no Brasil: teologia e orientações pastorais, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil: o diaconado no Brasil de 1966 a 1985; implantação e desenvolvimento, teologia do diaconado, orientações formativas e Direito Canônico.

1988

Exortação Apostólica pós-sinodal Christifideles Laici, de João Paulo II: aborda a missão dos bispos, presbíteros e diáconos. Diaconado considerado como serviço, “diakonia”, continuação da missão apostólica.

1992

Catechismus Catholicae Ecclesiae: sobre o diaconado – 886, 896, 1256, 1538, 1554, 1569, 1570, 1571, 1572, 1573, 1574, 1588, 1596.

1998

Normas Fundamentais para a Formação dos Diáconos Permanentes, da Congregação para a Educação Católica: oferece orientações sobre a formação dos diáconos permanentes.

Diretório do Ministério e da Vida dos Diáconos Permanentes, da Congregação para o Clero: possui caráter jurídico, recorda normas disciplinares do Código de Direito Canônico e solicita fiel observância em relação à missão e as atribuições do diácono.

1999

Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in America, de João Paulo II: considera o sucesso no restabelecimento do diaconado permanente na América. Atenta para um diligente processo de seleção, formação, bem como um cuidadoso acompanhamento dos diáconos e suas famílias.

2003

Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores Gregis, de João Paulo II: sobre a relação do diácono com o bispo; oração e liturgia das horas.

2004

Diretório para o ministério pastoral dos bispos Apostolorum Sucessores, da Congregação para os Bispos: o ministério da caridade como carisma diaconal (194).

Instrução Redemptionis Sacramentum, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos: sobre o ministério diaconal, os sacramentos, e suas funções litúrgicas.

2005

Nota sobre o ministro do Sacramento da Unção dos Enfermos, da Congregação para a Doutrina da Fé: veda aos diáconos o exercício do Sacramento da Unção dos Enfermos.

2007

V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe em Aparecida do Norte: os diáconos permanentes, discípulos missionários de Jesus Servidor (205-208).

2010

Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini, de Bento XVI: Palavra de Deus e liturgia das horas (62), Palavra de Deus e ministros ordenados (78), identidade teológica do diácono (81).

2011

Diretrizes para o Diaconado Permanente da Igreja no Brasil: formação, vida e ministério, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - Doc. 96: história e teologia do diaconado, aspectos canônicos, vida familiar, questões pastorais e formativas.

2013

Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, de Francisco: sobre a importância da relação entre sacerdotes, diáconos e leigos e a promoção dos meios mais atraentes para a pregação (159).

2016

Mensagem do Papa Francisco para o 53º dia mundial de oração pelas vocações: recorda a escolha dos Sete diáconos (cf. At 6,2).

Fonte: Pinto, (2020).

O pretexto dessa síntese foi apresentar alguns eventos que marcaram a história do ministério diaconal ao longo da vida da Igreja, trazendo à luz a importância desse ministério eclesial, não somente no passado, mas num futuro que se desenha. Recomendamos aos leitores a importância de consultar na íntegra a linha do tempo do citado livro.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesses dois mil anos de história do cristianismo a vocação ao ministério diaconal sempre esteve presente na vida e na missão da Igreja. Sua história perpassa desde suas origens com a fundação das primeiras comunidades cristãs e a instituição dos Sete, no ano 33 (At 6,2-6), até os nossos dias.

Ao longo desse tempo, muitos personagens, acontecimentos e documentos, nortearam a vida desse ministério ordenado na Igreja a serviço do Povo de Deus. Mesmo que muitas vezes esquecido, ou até menosprezado, o diácono sempre ficou caracterizado pela marca indelével do sinal visível da diaconia de Jesus Cristo.

Restaurado pelo Concílio Vaticano II, como ministério ordenado permanente, a vocação diaconal é a que mais cresce no mundo. Fato é que, empiricamente, houve-se dizer que os diáconos permanentes, pela escassez de novas vocações sacerdotais, podem ser o futuro da continuidade da Igreja. Paradoxalmente, carece de compreensão clara sobre sua identidade e missão, tanto pelo clero como pelos fiéis.

Em tempos de Sinodalidade e agraciados pelo Ano Santo em que todo cristão é convidado a ser Peregrino de Esperança, necessário se faz entender a missão do diácono permanente no século XXI.

Numa sociedade marcada por profundas transformações sociais, em que se apresentam novos desafios e clamores, os diáconos permanentes, pela graça do duplo Sacramento do Matrimônio e da Ordem, são chamados a serem portadores da esperança que não decepciona (Rm 5,5), contribuindo para uma Igreja mais servidora, aberta e missionária, a exemplo do Cristo-Servo que caminha com seu povo.

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