A TEOLOGIA PASTORAL E A ESPERANÇA QUE NÃO NOS DECEPCIONA

Pastoral Theology and the hope that does not disappoint us

DOI: https://doi.org/10.52451/azy22704

Recebido em: 15 de fevereiro de 2025.

Aprovado em: 30 de abril de 2025.

Mateus Danieli

Pe. Me. Mateus Danieli. Presbítero da Arquidiocese de Passo Fundo, Mestre em Teologia Pastoral pela PUCRS, pós graduado em espiritualidade pela Itepa Faculdades, formado em teologia pelo Instituto de Teologia e Pastoral – ITEPA, graduado em filosofia pela Universidade Regional Integrada – URI – campus Erechim, professor da Itepa Faculdades. E-mail: mateusdanieli_teo@hotmail.com; Orcid: https://orcid.org/0009-0004-4380-8007

Resumo: Os evangelhos apresentam Jesus Cristo e suas práticas como sinal de grande esperança para todos os tempos. Ao contemplar o anúncio da Palavra, a partilha, o cuidado com a vida e o envio missionário, Jesus suscita em seus interlocutores uma novidade sempre atual Esta novidade acontece na Igreja em seus gestos repletos de esperança ao anunciar a Palavra, promover a partilha, cuidar da vida e permitir processos missionários, a Igreja mantém-se fiel ao seu propósito e a teologia pastoral tem muito a dizer sobre isso.

Palavras-Chave: Palavra; Partilha; Cuidado com a vida; Missão.

Abstract. The Gospels present Jesus Christ and his practices as a sign of great hope for all times. In contemplating the proclamation of the Word, the sharing, the care for life, and the missionary sending, Jesus awakens in his listeners a novelty that is always relevant. This novelty unfolds in the Church through gestures filled with hope: proclaiming the Word, fostering sharing, caring for life, and enabling missionary processes. In this way, the Church remains faithful to its purpose, and pastoral theology has much to say about it.

Keywords: Word; Sharing; Caring for life; Mission.

Introdução

A proposição do ano jubilar é uma provocação direta para a teologia pastoral. Além de ser um tempo importante para viver a graça de Deus própria do ano santo, a dinâmica apresentada pelo Papa Francisco e. seguida pelo Papa Leão, evocam um olhar para Jesus e para a prática pastoral.

A leitura que ora será realizada tem como desejo contemplar a pastoral de Jesus como sinal de esperança, em uma análise livre de textos bíblicos, isto é, sem a pretensão de analisar a literalidade do texto, mas em uma hermenêutica livre, contemplando os gestos de Jesus e a esperança que deles suscita. Depois, perceber por onde que estes sinais se tornam possíveis hoje através da pastoral realizada pela Igreja em diálogo com os as constituições do Concílio Vaticano II.

Metodologicamente, a reflexão trabalha a esperança cristã, em diálogo com o Ano Jubilar de 2025 e a teologia pastoral. Parte da pastoral de Jesus, compreendida em quatro dimensões fundamentais - anúncio da Palavra, partilha, cuidado com a vida e envio missionário. Em segundo lugar, examina a pastoral da Igreja como continuidade da missão de Cristo, destacando o anúncio do Evangelho, a celebração eucarística, o cuidado com a vida e a dimensão missionária como práticas que sustentam a esperança do povo de Deus. E, finaliza, flexionando o papel da teologia pastoral no horizonte jubilar, ressaltando que a esperança cristã não se reduz a devoções individuais, mas se expressa em práticas comunitárias que promovem vida, dignidade e fraternidade.

1. A esperança presente na pastoral de Jesus

Ao lermos os evangelhos encontramos Jesus Cristo com uma intensa atividade pastoral, cheia de esperança do Reino de Deus. Ele não fazia ações isoladas. Em tudo, Jesus levava a esperança para as pessoas que abraçavam o projeto do qual ele era anunciador.

Esta esperança não é apresentada como uma magia, ou por fazer algum ritual religioso de purificação e pronto, a esperança da vida estava renovada. O jovem de Nazaré da Galileia traz a esperança para o Povo de Deus justamente a partir de onde ele se encontra: no meio deles, com o Emanuel.

Assim, é importante recuperar a dimensão da esperança realizada por Jesus a partir da própria dinâmica da sua pastoral em quatro realidades: no anúncio, na partilha, no cuidado com a vida e no envio missionário.

1.1 A esperança na pastoral de Jesus ao anunciar a Boa Nova

A palavra Evangelho é anúncio de uma boa nova, de uma notícia que é boa. Diferente das notícias vindas do império romano, ou do templo, ou da sinagoga, que eram notícias que deixavam a vida das pessoas mais difícil, com mais fardos de impostos ou de imposições rituais, morais e religiosas, Jesus Cristo anuncia da chegada do Reino de Deus.

Este anúncio não é só mais um discurso entre tantos que já haviam, mas é um modo de transmitir a esperança para o mundo como até então não se tinha experiência, até porque não é um discurso em forma de narrativa textual, mas uma proposta de vida, a ponto de as pessoas dizerem “Quando Jesus acabou de dizer essas palavras, as multidões ficaram admiradas com o seu ensinamento, porque Jesus ensinava como alguém que tem autoridade, e não como os doutores da Lei” (Mt 7,28-29).

A esperança que decorre deste anúncio se transforma em alegria, em felicidade, numa verdadeira exultação das pessoas por terem uma perspectiva totalmente diferente de vida. Dentre tantas alocuções de Jesus anunciando as alegrias do Reino de Deus, o capítulo 5 do Evangelho de Mateus ganha destaque:

Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu. Felizes os aflitos, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu. Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de mim. Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês (Mt 5,3-12).

Em primeiro lugar, este texto manifesta uma nova expressão: felizes! A linguagem do primeiro testamento, não raro, é marcada pela denúncia dos pecados, da injustiça, da opressão que os israelitas viviam. O conteúdo desta mensagem profética é inegável. Mas acaba que se torna pesado, triste, denso, como a vida do povo da época.

A partir de Jesus existe uma palavra que é diferente. Ele chamou de felizes, de bem-aventurados. É uma palavra que inspira uma realidade nova: nela está contida o anúncio de um Reino de felicidade, de vida plena, de pessoas alegres, com todas as suas necessidades básicas garantidas para uma vida feliz. Deste modo percebe-se que a atividade pastoral de Jesus ligada ao anúncio da Palavra produz um sentido atualizado do projeto de Deus: não é mais promessa, não é mais espera, é realidade.

Neste anúncio de Jesus é afirmado que os pobres em espírito são felizes. A pobreza, enquanto consequência da injustiça e do mal só traz morte e violência. Mas Jesus fala de uma pobreza que é parte da grandeza do próprio Deus, que em Jesus Cristo “esvaziou-se de si mesmo” (Fl 2,7). Esta primeira bem-aventurança relaciona a liberdade para abraçar a vontade de Deus. É interessante que em Mt 19,16-21, Jesus mostra o contrário desta bem-aventurança quando o jovem o interroga sobre a vida eterna e o diálogo entre os dois acontece até que este rapaz diz que observa a Lei desde pequeno e o Senhor lhe pede para vender os bens e dar aos pobres e segui-lo. Como ele não tinha liberdade para abraçar o Reino de Deus, terminou a conversa e saiu triste.

Como é diferente o anúncio de Jesus e o desígnio da felicidade versus a tristeza daquele que não conseguiu abraçar o projeto da esperança, assumir a vida em suas mãos, ser protagonista de uma causa maior. Simplesmente voltou para o seu mundo, para suas preocupações, para suas ocupações e ficou por isso. Ao contrário disto é o que Jesus anunciou e realizou. Anunciou a felicidade advinda com Reino de Deus, proclamando com palavras e gestos esta novidade.

Assim, entende-se as demais bem-aventuranças anunciadas por Jesus como parte desta liberdade: atender os aflitos, ajudar os que não tem muita expectativa, os que promovem a justiça, a misericórdia, a paz. Tudo isso produz a esperança no mundo. Os bem-aventurados se tornam sinais de esperança porque sua vida produz a novidade de quem acolheu o anúncio do Reino de Deus.

É logico que o efeito disto tudo será a perseguição. Mas mesmo assim, Jesus garante que isso também é sinal de esperança porque os perseguidores não querem a realização do Reino de Deus. É prova maior deste anúncio de Jesus a sua própria condenação, morte e crucificação. O anunciador da esperança foi parar na cruz por conta daqueles que deixam o povo no desespero. Eles perseguiram o Mestre da esperança e o condenaram.

Entretanto, a cruz não foi a última palavra sobre o anúncio do Reino de Deus. Jesus ressuscitou e completou em si a primeira bem-aventurança, dando a plena liberdade plena da Ressurreição a todos os que abraçam a sua causa.

1.2. A esperança na pastoral da partilha realizada por Jesus

O Evangelho de Marcos apresenta uma experiência bem interessante da pastoral de Jesus que produz a esperança no sentido celebrativo da vivência da fé. É a partilha dos pães e dos peixes. Nesta narrativa descrita no capítulo 6 do respectivo Evangelho, temos a descrição do banquete da morte realizado por Herodes.

O representante oficial do Império Romano no território de Israel “fez um banquete para os grandes da corte, os oficiais e os cidadãos importantes da Galiléia” (Mc 6,21b). Não bastasse uma festa para os nobres, o que aconteceu neste banquete revela a perversidade de quem acha que detém o poder.

No meio da festa, eis que surge uma jovem, que não tem nem nome, sinal de ser uma pessoa manipulável e sem perspectiva de atitude pessoal. De tantas coisas relatadas no texto bíblico acontecidas neste banquete de aniversário, o desfecho final é o que mais assusta: a cabeça de João Batista entregue em uma bandeja.

Tal banquete relatado pelo evangelista Marcos situa como os líderes do tempo de Jesus resolviam as suas pendencias de interesses e conchavos: declarando a morte dos inocentes e dos que ajudavam as pessoas a encontrar o caminho da vida, como era o caso de João Batista. Com certeza, estas práticas levavam a grande multidão do povo ao medo e a desesperança total, pois os seus líderes não tinham preocupação alguma com a dignidade dos pobres e esquecidos.

É interessante que tal passagem bíblica, a do banquete da morte de João Batista, dá lugar a uma realidade totalmente inusitada. Como o povo estava perdido e sem líderes, os poucos que os ajudavam ficavam sobrecarregados. É o que aconteceu com os discípulos de Jesus: de tanto trabalho junto ao povo, não tinham mais tempo para si. E como é próprio do Mestre Jesus ensinar com atitudes, ele conduziu os discípulos para um lugar reservado, a fim de que tivessem um tempo de cultivo.

Entretanto, a realidade da multidão era tanta, que todos foram ao lugar onde os discípulos estavam. Neste momento Jesus “teve compaixão, porque eles estavam como ovelhas sem pastor. Então começou a ensinar muitas coisas para eles” (Mc 6,34). É a novidade do Reino de Deus da qual Jesus é o portador. Enquanto Herodes faz acordos para satisfazer suas vaidades, Jesus sente compaixão do povo porque não tinha quem os ajudasse, pois estavam como ovelhas sem pastor, pois não tinham quem os apoiassem em suas necessidades.

Mais do que resolver problemas momentâneos, Jesus vai ajudar o povo em sua formação integral, a ponto de começar a ensinar. Uma das primeiras coisas que as pessoas precisariam fazer para resolver a situação era aprender de Jesus sobre esta novidade do Reinado de Deus. O que gera a esperança no coração destas pessoas, a partir da prática de Jesus, é que há um envolvimento total na vida deles. O fato de Jesus se preocupar em ensinar a multidão permite que haja uma mudança de mentalidade com relação a sua situação no mundo. Não bastava saciar a fome, era necessário mudança de mentalidade, de compreensão das práticas, de serem sujeitos dos processos e transformadores da realidade a partir de práticas novas.

Ressoa como algo importante também a atitude de Jesus com relação aos discípulos. Mesmo que a multidão seja a destinatária do ensino do Nazareno, o grupo dos doze também precisa aprender como agir em relação a estes. A esperança não é para alguns, mas para todos. Assim, Jesus pede que os seus estejam em profunda relação com a multidão sofrida: “Vocês é que têm de lhes dar de comer” (Mc 6,37). Este “dar de comer” é o maior envolvimento possível com a vida daqueles que ali estavam. Não é só servir um prato de comida, mas é entrar em diálogo, em reciprocidade, em sentimentos, em olhares, em gestos, em práticas transformadoras e renovadoras da vida.

Os gestos realizados por Jesus na sequencia se tornam uma profunda liturgia eucarística:

Então Jesus mandou que todos se sentassem na grama verde, formando grupos. E todos se sentaram, formando grupos de cem e de cinquenta pessoas. Depois Jesus pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e ia dando aos discípulos, para que os distribuíssem. Dividiu entre todos também os dois peixes. Todos comeram, ficaram satisfeitos, e recolheram doze cestos cheios de pedaços de pão e também dos peixes (Mc 6,39-41)

O texto diz que todos se sentassem. É uma postura de assembleia celebrante, unida e reunida, em atitude de profunda comunhão. Jesus recebe os dons recolhidos e partilhados, que são os dois peixes e os cinco pães. Este é o resultado da partilha. Nem todos tem o que oferecer, mas tudo o que se tem é partilhado para que todos possam participar. É um gesto de esperança, já que de Herodes só havia concentração dos produtos na mão de uns poucos, com o ensino de Jesus para a nova prática do Reino de Deus, é importante que o nada seja partilhado. Quem não tem precisam oferecer o seu nada, a fim de que, quando tiver possibilidades, também consiga participar e oferecer.

A celebração da esperança de Jesus segue com dois gestos: erguer os olhos ao céu e pronunciar a bênção. Retoma a imagem do sacerdote Melquesedec do livro do Gênesis, que realizou o gesto eucarístico com Abraão: “Melquisedec, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, levou pão e vinho, e abençoou Abrão, dizendo: ‘Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que criou o céu e a terra” (Gn 14,18-19). Ao celebrar a partilha com os discípulos e a multidão, Jesus ensina que a esperança eucarística é vontade de Deus, Ele é o doador dos dons e que a vontade Dele é que todos tenham suas necessidades básicas supridas.

Jesus reparte o pão e pede que os discípulos distribuam aos participantes. Quanta esperança nasce destas ações: partir e distribuir. A primeira é pessoal. Trata-se de tomar iniciativa diante da situação, mudando posturas e modos de ser e compreender a vida. A segunda é comunitária. Distribuir exige um enfrentamento. Aquele que distribui, distribui algo a alguém. Este alguém, no caso, é a multidão. Os discípulos terão que enfrentar a multidão, se achegar as pessoas, olhar nos olhos, sorrir, tocar nas pessoas, entrar em profunda comunhão.

Assim, os gestos eucarísticos de Jesus se tornam decididamente uma esperança para quem participa, tanto do aprendizado, quanto da ação. Esta ambiguidade entre os dois banquetes do capítulo sexto de Marcos, ajudam a entender que a esperança vem da pastoral da partilha dos pequenos e grandes gestos, de quem está disposto a assumir uma nova prática de vida, uma mentalidade transformada e transformadora. Não importa tanto o que se partilha, nem o que se partilha, mas o real desejo que existe em quem partilha. Jesus partilhou por desejar profundamente o Reino de Deus. E, por assim dizer, sua pastoral é pautada por profunda esperança.

1.3. A esperança pastoral de Jesus no cuidado com a vida

A esperança que Jesus apresentou a humanidade no cuidado com a vida personifica a imagem do Bom Pastor, daquele que é capaz de dar a própria vida para devolver a dignidade dos demais.

No livro de Ezequiel, capitulo 34, lê-se a dura crítica do profeta aos falsos pastores de Israel. A imagem agropastoril é uma metáfora para falar dos líderes políticos e religiosos do seu tempo. O profeta é firme ao descrever o quanto as atitudes destes líderes estavam causando o mal ao povo e como eles tratavam aqueles sobre os quais tinham uma responsabilidade: “vocês dominam com violência e opressão” (Ez 34,4). São palavras que revelam o quanto a desesperança era presente na vida de Israel.

Mas a profecia não fica só na denúncia. A mensagem de Ezequiel prevê um bom pastor que vai reunir, cuidar, pastorear, conduzir, dar descanso e qualidade de vida a todo o seu povo (Ez 34,11-16). Esta imagem de bom pastor também poeticamente anunciada pelo salmista. No salmo 23, conhecido como salmo do bom pastor, o salmista utiliza palavras que expressam todo o carinho do bom pastor pelo seu rebanho. Nos versículos 2 e 3 deste salmo encontram-se as ações do bom pastor: conduz, restaura, guia. São atribuições de quem tem o pastor como referência, um sinal de esperança mesmo em meio as maiores dificuldades, pois “embora eu caminhe por um vale tenebroso, nenhum mal temerei, pois junto a mim estás; teu bastão e teu cajado me deixam tranquilo” (Sl 23,4).

A realização desta imagem do bom pastor se dá na pessoa de Jesus Cristo. No evangelho de João há uma aproximação interessante entre o texto de Ezequiel 34 e Jesus o Bom Pastor. Primeiro que Jesus denuncia os maus pastores, os líderes maldosos do seu tempo, aqueles que se tornam sinal de desesperança para os mais sofridos. Nas palavras do próprio Jesus: “Eu garanto a vocês: aquele que não entra pela porta no curral das ovelhas, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante” (Jo 10,1). Mais adiante, Jesus dirá que os maus pastores de Israel produzem tudo o que é de pior usando adjetivos bem fortes sobre eles: “o ladrão só vem para roubar, matar e destruir” (Jo 10,10a). É a visão do próprio Filho de Deus sobre quem estava à frente do Povo no seu tempo. Demonstra a preocupação porque as referências daquele Povo eram as piores possíveis.

Mas, a boa notícia diante desta constatação, é o próprio Jesus que se apresenta como o Bom Pastor. Ele fala das suas qualidades que o permitem chamar-se assim: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância. Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. Eu sou o bom pastor: conheço minhas ovelhas, e elas me conhecem” (Jo 10,10b-11.14). É uma imagem cheia de esperança e alegria a que o evangelista atribui a Jesus, pois Ele veio para que tenham vida, Ele é bom, ele é conhecido.

Assim, chega-se a um resumo de toda a vida pública de Jesus conforme a comunidade joanina. Desde a apresentação pública dele nas bodas de Caná, o diálogo com Nicodemos, a manifestação à Samaritana, a cura do paralitico, o sinal dos pães, o discurso dele com as autoridades e a cura do cego de nascença, são manifestações da esperança trazidas pelo Bom Pastor. Por esta via, chega-se à conclusão de que os sinais realizados por Jesus, além de ter como motivo, levar a comunidade a fé como o mesmo texto diz: “Estes sinais foram escritos para que vocês acreditem que Jesus é o Messias, o Filho de Deus” (Jo 20,30), relatam a vivência pastoral de Jesus como um grande sentido de esperança e vida: “E para que, acreditando, vocês tenham a vida em seu nome” (Jo 20,31). Tudo aquilo que os falsos líderes de Israel estavam trazendo para o Povo, que era morte e destruição, Jesus faz o contrário, traz a vida em abundância por todos os seus gestos, palavras, ensinamentos e formação pastoral dos discípulos.

1.4 A esperança de Jesus ao enviar os discípulos

A atividade pastoral de Jesus continua em cada um dos seus discípulos, com a mesma intensidade e força de transformação do mundo. A partir do evangelho de Lucas, o envio dos 72 discípulos é uma luz de esperança, pois eles vão estar nos lugares aos quais Jesus gostaria de estar, fazer as mesmas ações de Jesus e anunciar o Reino de Deus. É o que se lê na seguinte perícope:

O Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos, e os enviou dois a dois, na sua frente, para toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir. E lhes dizia: “A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso peçam ao dono da colheita que mande trabalhadores para a colheita. Vão! Estou enviando vocês como cordeiros para o meio de lobos. Não levem bolsa, nem sacola, nem sandálias, e não parem no caminho, para cumprimentar ninguém. Em qualquer casa onde entrarem, digam primeiro: ‘A paz esteja nesta casa!’ Se aí morar alguém de paz, a paz de vocês irá repousar sobre ele; se não, ela voltará para vocês. Permaneçam nessa mesma casa, comam e bebam do que tiverem, porque o trabalhador merece o seu salário. Não fiquem passando de casa em casa. Quando entrarem numa cidade, e forem bem recebidos, comam o que servirem a vocês, curem os doentes que nela houver. E digam ao povo: ‘O Reino de Deus está próximo de vocês!’ (Lc 10,1-9).

O grupo dos seguidores aumenta, já são 72 os enviados. Mas isso não significa que a missão seria mais fácil. As necessidades do povo eram tantas que, mesmo que este grupo maior fosse enviado em missão, ainda assim seriam poucos os operários para o tamanho da messe. E enviados para situações complexas que o mundo apresenta, a enfrentar desafios nunca imaginados. Tudo por causa da grande esperança que Jesus havia suscitado neles.

Esta esperança que se faz no anúncio da paz. No tempo de Jesus provavelmente os mensageiros do Império Romano levavam notícias difíceis como aumento de impostos ou novas guerras. Jesus envia os discípulos para anunciar a paz, não só em palavras, mas com a transformação dos corações para a cultura da paz. Esta paz é a proximidade do Reino de Deus acontecendo no coração da humanidade.

Desta maneira, o envio missionário gera uma esperança, porque os agentes desta missão levam pelo caminho a missão do próprio Senhor enviados por Ele. Não é em nome próprio, ou em uma realização de projeto pessoal, ou até mesmo a própria pessoa. Os 72 vão em nome do Senhor, enviados por Ele, para fazer o que Ele desejaria fazer nos lugares que Ele gostaria de estar. A partir deste envio, tudo se torna novo e esperançoso, pois há um avanço na dinâmica da construção do Reino de Deus. Já não depende de Filho de Deus, mas de todo aquele que é enviado em Seu nome para continuar a sua missão.

2– A esperança na pastoral da Igreja

Seguindo os passos de Jesus, o peregrino de esperança, a comunidade cristã é continuamente chamada peregrinar nesta mesma certeza, realizando os passos do seu Senhor até a consumação plena do seu Reino.

Nesta missão, é importante ressaltar as atribuições fundamentais da Igreja continuam sendo portadoras da mesma esperança e tendem ao mesmo fim. No anúncio da Palavra, na celebração da Partilha, no cuidado com a vida e na missão evangelizadora, a Igreja não faz atividades isoladas. Em tudo a Igreja é sinal da esperança que não nos decepciona.

2.1. A esperança anunciada pela Igreja ao comunicar o Evangelho

O concílio Vaticano II considerou que o anúncio da Palavra de Deus, a interpretação desta Palavra, e a maneira como que ela transforma o ser e agir dos cristãos no mundo é uma fonte de esperança. Como afirma a constituição Dei Verbum:

É preciso, pois, que toda a pregação eclesiástica, assim como a própria religião cristã, seja alimentada e regida pela Sagrada Escritura. Com efeito, nos livros sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro de Seus filhos, a conversar com eles; e é tão grande a força e a virtude da palavra de Deus que se torna o apoio vigoroso da Igreja, solidez da fé para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene de vida espiritual. Por isso se devem aplicar por excelência à Sagrada Escritura as palavras: ‘A palavra de Deus é viva e eficaz’ (Hebr. 4,12), ‘capaz de edificar e dar a herança a todos os santificados’ (At. 20,32; cfr. 1 Tess. 2,13) (DV 21).

Anunciar a Palavra de Deus, longe de ser uma atividade de persuasão aos que escutam, é uma forma de permitir que Deus fale “amorosamente” com seus filhos. Assim, todas as vezes que se anuncia a Sagrada Escritura para os seus fiéis, a Igreja está permitindo que uma grande esperança seja anunciada ao mundo, pois é deixar que Deus fale como a um pai para seus filhos.

É o que o sínodo dos bispos sobre a Palavra de Deus reafirma:

A novidade da revelação bíblica consiste no fato de Deus Se dar a conhecer no diálogo, que deseja ter conosco. A Constituição dogmática Dei Verbum tinha exposto esta realidade, reconhecendo que Deus invisível na riqueza do seu amor fala aos homens como a amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele (VD 6).

Portanto, quando olhamos para Jesus, aquele que anunciou a esperança do Reino de Deus e chamou aos que acolhessem a sua proposta de felizes, de bem-aventurados, não foi só mais uma narrativa ou uma interpretação sobre Deus, ou palavras humanas dizendo sobre Deus. Em Jesus Cristo o próprio Deus que fala do Pai e apresenta de maneira única o amor incondicional. Enquanto os fariseus e mestres da lei eram humanos explicando leis tidas como divinas, em Jesus Cristo a esperança divina se torna realidade. Como diz a exortação Verbum Domini:

Aqui a Palavra não se exprime primariamente num discurso, em conceitos ou regras; mas vemo-nos colocados diante da própria pessoa de Jesus. A sua história, única e singular, é a palavra definitiva que Deus diz à humanidade. Daqui se compreende por que motivo, «no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo». A renovação deste encontro e desta consciência gera no coração dos fiéis a maravilha pela iniciativa divina, que o homem, com as suas próprias capacidades racionais e imaginação, jamais teria podido conceber. Trata-se de uma novidade inaudita e humanamente inconcebível: ‘O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós’ (Jo 1, 14a) (VD 11).

A partir de Jesus Cristo, o anúncio da Palavra é uma maneira única de permitir ao interlocutor que tenha um encontro decisivo com Deus, não com uma teoria ideológica, mas com o próprio Senhor, que transforma a consciência dos que escutam seus ensinamentos e os colocam em prática.

É interessante notar que já antes do Concílio, a Igreja retomou esta prática pastoral de esperança em todas as suas linhas de atuação: desde a catequese centrada na Palavra de Deus, a liturgia da Palavra e toda a dimensão litúrgica da vida eclesial são pautadas pelo anúncio da Palavra, os sacramentos e sacramentais são realizados com a presença da Palavra, a formação a partir da metodologia da leitura orante da Palavra de Deus, toda a vida pastoral orientada pelo anúncio da Palavra, toda a vida de oração e santificação do tempo com a liturgia das horas em contato com a Palavra, a vida da caridade e a ação social em função da Palavra, o ensino da Teologia tendo a Palavra como alma de todo o fazer teológico. Estas e tantas outras realidades são suscitadas neste caminho de esperança que vem do contato direto com a Palavra. Como afirmou o Papa Francisco em sua exortação Evangelii Gaudium:

Toda a evangelização está fundada sobre esta Palavra escutada, meditada, vivida, celebrada e testemunhada. A Sagrada Escritura é fonte da evangelização. Por isso, é preciso formar-se continuamente na escuta da Palavra. A Igreja não evangeliza, se não se deixa continuamente evangelizar. É indispensável que a Palavra de Deus se torne cada vez mais o coração de toda a atividade eclesial (EG 174).

2.2. A esperança que acontece nos gestos de partilha realizada pela Igreja

Quando Jesus celebrou o banquete da vida conforme Mc 6,39-41, narrado também em Mt,14,13-21 e Jo 6,1-15, é evidente que este do pão e dos peixes se torna um gesto de suma importância para a comunidade cristã, indicando o valor fundamental de um novo modo de vida e economia baseado no Evangelho que é a partilha. Gesto que ele repetiu outras vezes, segundo os textos bíblicos (Mc 14, 22-24; Lc 24,28-31.41-43) e a comunidade apostólica assumiu como forma de manter viva a memória do Senhor de acordo com o escrito encontrado em 1Cor 11,22-30 e At 2,42-47 e 4,32-37.

Ao repartir o pão e celebrar a Eucaristia como memorial de Jesus Cristo a Igreja continua atualizando um compromisso de esperança para o mundo. Diferente de uma encenação ou de uma história contada, a liturgia da Igreja é memorial permanente da partilha realizada pelo Senhor. Ao celebrar no hoje da história a Páscoa de Jesus, a Igreja atualiza a esperança que contagia o mundo com seu amor. É o que afirma o Concílio com as seguintes palavras:

Contudo, a Liturgia é simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força. Na verdade, o trabalho apostólico ordena-se a conseguir que todos os que se tornaram filhos de Deus pela fé e pelo Batismo se reúnam em assembleia para louvar a Deus no meio da Igreja, participem no Sacrifício e comam a Ceia do Senhor. A Liturgia, por sua vez, impele os fiéis, saciados pelos «mistérios pascais», a viverem «unidos no amor»); pede «que sejam fiéis na vida a quanto receberam pela fé»; e pela renovação da aliança do Senhor com os homens na Eucaristia, e aquece os fiéis na caridade urgente de Cristo. Da Liturgia, pois, em especial da Eucaristia, corre sobre nós, como de sua fonte, a graça, e por meio dela conseguem os homens com total eficácia a santificação em Cristo e a glorificação de Deus, a que se ordenam, como a seu fim, todas as outras obras da Igreja (SC 10).

A estas palavras confirma-se a o sentido profundo da esperança cristã, pois todas as vezes que se come do pão partido e se bebe do vinho do mesmo cálice, ali está sendo atualizada a fé da comunidade que anuncia a morte do Senhor, proclama a Ressurreição e espera a sua gloriosa vinda no final dos tempos.

Mais do que uma reunião para a comensalidade, a Eucaristia, é a celebração da meta para a qual todos os cristãos caminham e ao mesmo tempo o ponto a fonte onde encontram a sua esperança, de acordo com a definição conciliar citada acima. Logo, quando os fiéis se reúnem em assembleia celebrante, o encontro que ali estão realizando é a fonte de sua esperança, haja visto que a partilha que acontece na liturgia cristã alimenta a fé, fortalece o testemunho e encaminha a vida daqueles que dela participaram, sendo compromisso ético, moral e transformador no mundo em que vivem. Como afirmou Bento XVI na exortação Sacramentum Caritatis:

A união com Cristo, que se realiza no sacramento, habilita-nos também a uma novidade de relações sociais: a mística do sacramento tem um carácter social, porque (...) a união com Cristo é, ao mesmo tempo, união com todos os outros aos quais Ele Se entrega. Eu não posso ter Cristo só para mim; posso pertencer-Lhe somente unido a todos aqueles que se tornaram ou hão-de tornar Seus. A propósito, é necessário explicitar a relação entre mistério eucarístico e compromisso social. A Eucaristia é sacramento de comunhão entre irmãos e irmãs que aceitam reconciliar-se em Cristo, o Qual fez de judeus e gentios um só povo, destruindo o muro de inimizade que os separava (Ef 2,14). Somente esta tensão constante à reconciliação permite comungar dignamente o corpo e o sangue de Cristo (Mt 5,23-24). Através do memorial do seu sacrifício, Ele reforça a comunhão entre os irmãos e, de modo particular, estimula os que estão em conflito a apressar a sua reconciliação, abrindo-se ao diálogo e ao compromisso em prol da justiça. A restauração da justiça, a reconciliação e o perdão são, sem dúvida alguma, condições para construir uma verdadeira paz; desta consciência nasce a vontade de transformar também as estruturas injustas, a fim de se restabelecer o respeito da dignidade do homem, criado à imagem e semelhança de Deus; é através da realização concreta desta responsabilidade que a Eucaristia se torna na vida o que significa na celebração (SCh 89).

Diante disso, o banquete da Eucaristia, que é o banquete da vida e do amor, é uma forma dos cristãos continuarem atualizando os gestos de Jesus Cristo: organizar, tomar, dar graças, partir, repartir e recolher. Só se entende a esperança cristã alimentada na Eucaristia quando ela permite que estes gestos realizados por Jesus sejam vivenciados no dia a dia daqueles que o celebram, no convívio fraterno e no amor entre os irmãos.

2.3. A esperança que a Igreja produz no cuidado com a vida

O olhar sobre a dimensão pastoral da Igreja no cuidado com a vida é uma expressão de esperança, e em muitas situações, é o porto seguro para muitos pobres e necessitados. Seguindo os passos de Jesus, o Bom Pastor que cuida de todos e quer que todos encontrem o caminho da vida, a Igreja em sua dimensão pastoral procura ser fiel a este propósito. É o que definiu a constituição Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (GS 1). Ao acolher a realidade da vida das pessoas, especialmente as que mais sofrem, a Igreja continua atendendo aqueles aos quais Jesus se dedicou tanto, e isto é sinal de esperança.

Na bula Spes non Confundit, do Papa Francisco, convocando o ano jubilar dos dois mil e vinte e cinco anos do nascimento de Jesus, chama atenção que os sinais de esperança evidenciados pela Igreja vão nesta “esteira” do cuidado com a vida. A partir do número 7 ao 15, o Papa Francisco faz uma série de proposições que são verdadeiramente um cuidado com a vida atenta aos sinais dos tempos. São elas: a paz para o mundo, abertura a vida e desejo de ter filhos, a dignidade para os privados de liberdade, a presença entre os enfermos, o acompanhamento as juventudes, o cuidado para com os migrantes, o carinho aos idosos e a constante opção evangélica pelos pobres e a superação dos males realizados pela desigualdade social.

O cuidado com a vida na dimensão pastoral da Igreja é um sinal permanente de esperança para todos. Em tempos de individualismo e globalização da indiferença como denunciou o Papa Francisco, a essência comunitária da fé cristã propõe algo sempre novo e inegociável, que é a vida cristã para a fraternidade universal. Isto é cuidado pastoral. Nas palavras do Papa Francisco em sua encíclica Fratelli Tutti:

Desejo ardentemente que, neste tempo que nos cabe viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, possamos fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade. Entre todos: “Aqui está um ótimo segredo para sonhar e tornar a nossa vida uma bela aventura. Ninguém pode enfrentar a vida isoladamente (…); precisamos duma comunidade que nos apoie, que nos auxilie e dentro da qual nos ajudemos mutuamente a olhar em frente. Como é importante sonhar juntos! (…) Sozinho, corres o risco de ter miragens, vendo aquilo que não existe; é juntos que se constroem os sonhos”. Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos (FT 11).

Na defesa da vida e na disposição sempre atenta de formar um mundo de irmãos e irmãs, a Igreja continua espalhando as sementes de esperança que não é só um discurso, mas uma realidade. Se pensar em toda a caridade organizada em tantos lugares, o atendimento aos enfermos e as visitas, a assistência social, a educação e a saúde, o atendimento as crianças vulneráveis, os projetos sociais para atender os idosos, e assim por diante. Em tudo isso que a é realizado pela Igreja, o olhar sempre se volta para Jesus, que em tudo se fez próximo dos sofredores. Este cuidado pastoral continua sendo sinal visível da esperança de Deus.

2.4. A esperança que se renova com os missionários de hoje

O mesmo Jesus que enviou os 72 discípulos para os lugares aos quais ele mesmo gostaria de estar, continua a dirigir o mesmo compromisso a todos os que o seguem. É um olhar esperançoso que nasce do encontro com Jesus e se completa na missão. Como exortou o Papa Bento XVI na abertura da V Conferência do Episcopado Latino Americano e Caribenho: “Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça, e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar e nos escolher.” (DAp 18).

A dimensão missionária da esperança vem deste constante ato de encontro com Deus, não com uma ideia, uma imagem, uma figura criada pela inteligência artificial, mas com o próprio Senhor, com a sua pessoa que escuta, que fala e que convida a constante conversão.

No encontro com Ele, na amizade cultivada sempre e de novo com o Senhor, é que a missionariedade se renova na vida de cada pessoa, como tão bem afirmou o Papa Francisco:

Somente graças a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência isolada e da autoreferencialidade. Chegamos a ser plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro. Aqui está a fonte da ação evangelizadora. Porque, se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros? (EG 8)

Do encontro ao desejo de comunicar este sentido maior da existência em Deus é que a Igreja também se sente chamada a ser peregrina de esperança “ad intra” e “ad extra”, ou seja, a missão não é só para convencer os outros sobre a Igreja ou fazer com que pessoas venham a missa. Missão é permitir que todas as estruturas, os carismas, os ministérios, os serviços realizados sejam um constante voltar-se para Deus.

A missão que convoca a todos para de novo e sempre estarem em um constante processo como pediu o papa Paulo VI:

Evangelizadora como é, a Igreja começa por se evangelizar a si mesma. Comunidade de crentes, comunidade de esperança vivida e comunicada, comunidade de amor fraterno, ela tem necessidade de ouvir sem cessar aquilo que ela deve acreditar, as razões da sua esperança e o mandamento novo do amor. Povo de Deus imerso no mundo, e não raro tentado pelos ídolos, ela precisa de ouvir, incessantemente, proclamar as grandes obras de Deus, que a converteram para o Senhor; precisa sempre ser convocada e reunida de novo por ele. Numa palavra, é o mesmo que dizer que ela tem sempre necessidade de ser evangelizada, se quiser conservar frescor, alento e força para anunciar o Evangelho (EN 15).

O frescor evangelizador do qual Paulo VI explicita é sinal inevitável de esperança. Quando esta novidade do Evangelho perde sua vitalidade, outras preocupações passam a fazer parte da Igreja, sobressaem as reclamações, os murmúrios, as tensões se tornam mais evidenciadas, os limites humanos aparecem mais realçados, e a esperança não tem mais lugar.

Ao contrário é quando a evangelização está decididamente ancorada em chave missionária. Mesmo em tempos difíceis, agitados por tantas desesperanças, a pastoral em chave missionária continuará dando o suporte de esperança, afim de que o Reino de Deus continue sendo possível entre nós, como tão bem nos fala o Papa Francisco:

A imagem da âncora é sugestiva para compreender a estabilidade e a segurança que possuímos no meio das águas agitadas da vida, se nos confiarmos ao Senhor Jesus. As tempestades nunca poderão prevalecer, porque estamos ancorados na esperança da graça, capaz de nos fazer viver em Cristo, superando o pecado, o medo e a morte. Esta esperança, muito maior do que as satisfações quotidianas e as melhorias nas condições de vida, transporta-nos para além das provações e exorta-nos a caminhar sem perder de vista a grandeza da meta a que somos chamados: o Céu (SnC 25).

3. A pastoral e a teologia na esperança que não decepciona

Neste ano jubilar, a teologia pastoral é apontada como uma das grandes aliadas na vivência da graça. Não raro, os anos jubilares são evidenciados pela “porta santa”, pelas indulgências, pela confissão e oração individuais. O jubileu dos dois mil e vinte e cinco anos do nascimento de Jesus tem tudo isso. Entretanto, a tônica tem sido muito mais nos sinais de esperança do que nas práticas pessoais de conversão.

Quando o Papa Francisco convocou o ano jubilar disse: “Muitas vezes encontramos pessoas desanimadas que olham, com ceticismo e pessimismo, para o futuro como se nada lhes pudesse proporcionar felicidade. Que o Jubileu seja, para todos, ocasião de reanimar a esperança!” (SnC 1). Nesta convocação para o ano jubilar vê-se claramente a proposição de Francisco para que o ano da graça de Deus produza um sentido de vida para o todo da Igreja e que peregrinar não é só ir a Roma ou a alguma igreja proclamada como jubilar e passar porta que está tudo resolvido.

A graça jubilar será muito melhor vivida se tivermos os olhos fixos em Jesus Cristo, afirmar que Ele é a nossa maior esperança e continuar realizando o anúncio corajoso da Palavra, a partilha, o cuidado com a vida e a missão evangelizadora. Eis um caminho proposto. A teologia pastoral tem muito a dizer neste tempo de peregrinos de esperança.

Referências

BENTO XVI. Sacramentum Caritatis. Exortação Apostólica pós-sinodal sobre a Eucaristia, fonte e ápice da vida e missão da Igreja. 2007. Acesso em: https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/apost_exhortations/documents/hf_ben-xvi_exh_20070222_sacramentum-caritatis.html

BENTO XVI. Verbum Domini. Exortação Apostólica pós- sinodal, sobre a Palavra de Deus na vida e missão da Igreja. 2010. Acesso em: https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/apost_exhortations/documents/hf_ben-xvi_exh_20100930_verbum-domini.html

BIBLIA PASTORAL. Edição online. Acesso em: https://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/_INDEX.HTM

CELAM. Documento de Aparecida. 2007. Acesso em https://anec.org.br/biblioteca/documento-de-aparecida-2007/

CONCÍLIO VATICANO II. Dei Verbum. Acesso em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html

CONCÍLIO VATICANO II. Sacrosanctum Concilium. Acesso em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html

PAPA FRANCISCO. Evangelli Gaudium. Exortação Apostólica sobre o Anúncio do Evangelho no mundo atual. 2013. Acesso em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html

PAPA FRANCISCO. Fratelli Tutti. Encíclica apostólica sobre a fraternidade e amizade social. 2020. Acesso em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html

PAPA FRANCISCO. Spes non Confundit. Bula de proclamação do jubileu ordinário do ano 2025. Acesso em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/bulls/documents/20240509_spes-non-confundit_bolla-giubileo2025.html

PAULO VI. Evangelli Nuntiandi. Exortação Apostólica sobre a evangelização no mundo contemporâneo. 1975. Acesso em: https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/apost_exhortations/documents/hf_p-vi_exh_19751208_evangelii-nuntiandi.html