ENTREVISTA com a ir Regina da Costa Pedro

https://doi.org/10.52451/jp91xb33

Recebido em: 31/10/2025

Aprovado em: 12/12/2025

Rogério L. Zanini

Doutor e Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, PUC/ RS. Especialista em Metodologia Pastoral pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões - URI. Graduado em Teologia pelo Instituto de Teologia e Pastoral (Itepa) e em História pela Universidade do Oeste de Santa Catarina - UNOESC. Professor da Faculdade Teologia e Ciências Humanas, Itepa Faculdades. Email: zaninipastoral@hotmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8771-3799

Ari Antonio dos Reis

Mestre em Teologia Pastoral pela PUC/SP. Professor da área de Teologia Pastoral e Teologia da Revelação e professor do Curso de Bacharelado em Teologia da Itepa Faculdades de Passo Fundo - RS. E-mail: reis.abt@gmail.com, Orcid: https://orcid.org/0009-0000-2096-6193

A missão tem sido um espaço fecundo de articulação entre fé, resistência e libertação do povo negro. Em diálogo com a espiritualidade afrodescendente, com a memória ancestral e com os desafios da atualidade, a missão se coloca como lugar de cuidado, denúncia e esperança. Nesta entrevista para a Revista Teopráxis, conversamos com Irmã Regina da Costa Pedro1, que partilha conosco sua experiência, suas leituras críticas e suas perspectivas sobre o papel da teologia negra na vida da Igreja e da sociedade.

  1. 1. Como a missão que você coordena tem buscado responder aos desafios colocados pelo racismo estrutural e pelas desigualdades que afetam o povo negro em nosso país?

A missão coordenada busca ir além do discurso, atuando com a ação simbólica e profética da presença e com a ação prática de incidência e inclusão, contribuindo para que a Igreja seja, de fato, o sacramento universal de salvação e de encontro, que reflete em sua própria estrutura a riqueza e a diversidade do povo de Deus.

A resposta aos desafios impostos pelo racismo estrutural e pelas desigualdades que afetam o povo negro no Brasil é um compromisso intrínseco à própria missão das Pontifícias Obras Missionárias, e se manifesta de forma viva e concreta a partir da minha posição.

Minha nomeação, feita pelo Dicastério da Evangelização, de Roma, sob a indicação da CNBB, como a primeira mulher negra a ocupar a Diretoria Nacional das POM no Brasil, em quase 50 anos de história da instituição no país, já é, em si, um ato que questiona e desafia a lógica excludente do racismo estrutural. A presença de um corpo de mulher negra neste espaço de liderança e decisão abre uma necessária visibilidade em esferas da Igreja onde, historicamente, a representatividade negra é sub-representada, especialmente em cargos de direção.

Essa minha presença não é apenas simbólica; ela se torna um princípio de atuação. Aproveito as oportunidades para explicitar o profundo significado desta representatividade, buscando incessantemente incluir as pautas da comunidade afrodescendente na reflexão missionária e na agenda mais ampla da Igreja. A missão, em sua essência, é de justiça e de inclusão, e isso exige que as questões raciais sejam trazidas do silêncio para o centro do debate e da ação.

Além disso, a missão que coordeno tem procurado traduzir essa perspectiva em ações concretas de promoção da equidade institucional. Na medida do possível e necessário, temos priorizado a abertura de espaços para profissionais negras e negros nos diversos setores de atuação da instituição, com um foco especial na construção de novas lideranças. Reconhecer e investir no potencial de pessoas negras em posições de influência é um passo fundamental para desmantelar as barreiras do racismo institucional e construir uma Igreja e uma sociedade mais justas, que verdadeiramente acolhem e valorizam a diversidade de seus filhos e filhas.

2. Em sua experiência, de que forma a teologia, quando feita a partir das vivências e da espiritualidade negra, ilumina e transforma a prática pastoral e missionária?

Na minha experiência, a teologia, ao ser elaborada a partir da vivência e da espiritualidade negra, não apenas ilumina, mas transforma radicalmente a prática pastoral e missionária, cumprindo o seu papel fundamental de articular a fé com a realidade vivida.

A missão primordial dessa reflexão teológica é nomear a contradição e o pecado do racismo. Ao assumir o contexto de sofrimento e de resiliência do povo negro, a teologia é compelida a denunciar o racismo estrutural como uma negação frontal da dignidade humana e, consequentemente, da vivência autêntica da fé cristã. Não se trata de um tema marginal, mas de uma questão central: o mundo no qual a teologia brasileira se insere vive sob a chaga do racismo, e ignorá-lo seria falhar no tripé vital que sustenta o fazer teológico: Deus-Tradição-Mundo.

Especificamente para a Teologia da Missão, essa perspectiva abre caminho para uma prática pastoral e missionária verdadeiramente intercultural e libertadora. A vivência e a espiritualidade negra, com sua riqueza cultural e suas expressões de fé, deixam de ser vistas como objeto de “assistência” para se tornarem fontes de inspiração e ensinamento. A reflexão teológica deve, biblicamente fundamentada e confrontada com os contextos históricos de opressão e resistência do povo negro, fornecer pistas concretas para o agir pastoral.

Essas pistas envolvem a capacidade de entrar na realidade, não para julgar, mas para descobrir as “sementes do Verbo” – as belezas e os valores que o Espírito de Deus já semeou nesta cultura e em suas expressões religiosas. O trabalho da teologia é, então, o de ajudar a Igreja a aprender com essa experiência, integrando positivamente as contribuições da comunidade afrodescendente.

Portanto, o desafio não se restringe a uma “teologia negra” isolada; é, na verdade, uma tarefa para todo o fazer teológico no Brasil. Ao assumir o racismo como um elemento incontornável da nossa realidade, a teologia se torna um instrumento de libertação, promovendo uma prática missionária que não apenas anuncia, mas encarna a justiça, o reconhecimento e a valorização plena da vida e da fé do povo negro.

3. A missão tem resgatado memórias de fé e resistência das comunidades negras. Poderia partilhar um exemplo concreto de como esse processo fortalece a identidade e a esperança comunitária?

Com certeza. Um exemplo concreto de como a missão tem resgatado memórias de fé e resistência, fortalecendo a identidade e a esperança comunitária, reside em uma experiência nova, mas carregada de futuro, que acompanhei nos últimos meses.

Ao longo da minha jornada, e especialmente após assumir esta posição de liderança, pude conhecer diversas mulheres negras que, assim como eu, são as “primeiras” a ocupar determinados espaços na Igreja. Percebemos rapidamente que compartilhamos vivências muito semelhantes: a surpresa com que somos recebidas, a benevolência exagerada que mascara a discriminação de gênero e raça, e a insistência em nos tratar como exceções, apesar da nossa competência.

Sentimos a necessidade urgente de criar um espaço protegido que pudesse servir de refúgio, fortalecimento mútuo, e plataforma de ação. Desse anseio nasceu o grupo “Aquilombar na Fé”, que reúne mulheres negras em papéis de liderança na Igreja Católica. Embora ainda em estágio embrionário, realizando reuniões on-line, o grupo já se tornou um foco de esperança e um lugar para promover a formação e o letramento racial, fundamentando, assim, nossas tomadas de posição.

O resgate da memória de resistência, neste caso, não é apenas histórico, mas uma resistência em tempo presente. O mais significativo é que as participantes imediatamente sentiram o grupo como um espaço de autocuidado. Isso é fundamental para a esperança comunitária, pois rompe com a histórica negação imposta às mulheres negras, que são frequentemente vistas e educadas apenas para serem cuidadoras do outro, preterindo suas próprias necessidades, desejos e capacidades. “Aquilombar na Fé” é, portanto, um ato missionário de recusa ao apagamento, que celebra a identidade negra na fé e cria um futuro onde o cuidado de si é um pilar da nossa liderança. Essa iniciativa visa, inclusive, criar um Observatório para dar maior visibilidade e incidência às nossas pautas.

4. Quais avanços e limites você identifica na Igreja em relação à escuta das vozes negras e à valorização de suas expressões teológicas, culturais e litúrgicas?

Entre os avanços, reconheço a existência de uma corrente subterrânea de esperança e resistência, fruto da herança de muitos que nos precederam na luta pela inclusão e reconhecimento. Há grupos, movimentos e comunidades que, inspirados por um espírito missionário e de justiça, mantêm vivos espaços de valorização da espiritualidade negra e de suas liturgias, buscando ser, de fato, uma “comunidade de contraste” ao racismo circundante. É nessa herança que se constroem as bases para um futuro mais inclusivo.

No entanto, os limites se manifestam de forma muito preocupante no cenário atual. Observo que muitos avanços e aberturas alcançados, especialmente aqueles impulsionados pelo espírito do Concílio Vaticano II, parecem ter sido ameaçados por uma tendência conservadora que paira sobre a Igreja no Brasil. Essa onda se manifesta na oposição à dinâmica sinodal e missionária do Papa Francisco, e cria barreiras que impactam diretamente a comunidade negra.

Essa postura conservadora se opõe ao diálogo ecumênico e inter-religioso, e tem grande dificuldade em olhar para o “mundo” – incluindo a cultura e a vivência negra – como um lugar de manifestação de Deus, com o qual se deve cooperar, e não combater. Esse fechamento resulta na perda de espaços de diálogo e na desvalorização das expressões teológicas, culturais e litúrgicas afro-brasileiras.

Essa falha em ser uma casa acolhedora tem consequências visíveis, como indicam os dados do último Censo: a maioria da população negra, sobretudo as mulheres, tem buscado as Igrejas Evangélicas, em particular as de tradição neopentecostal. E, paralelamente, cresce o número de adeptos das religiões de matriz africana, como o Candomblé. Acredito que, consciente ou inconscientemente, muitas dessas pessoas, que antes eram da Igreja Católica, se cansaram de esperar que a comunidade eclesial se tornasse um lugar que reconhecesse e acolhesse plenamente a sua realidade e vivência, deixando de ser um espelho da contradição do racismo. O limite, portanto, reside na incapacidade da Igreja, em alguns de seus setores, de vencer essa sombra conservadora e de abraçar a missão como um profundo ato de justiça e valorização da vida e da fé do povo negro.

5. Como a missão tem enfrentado as intersecções entre raça, gênero e religião, especialmente no protagonismo das mulheres negras e na denúncia das violências que as atingem?

A questão é muito ampla e sinto que posso responder restringindo-a ao âmbito da minha atuação na direção das Pontifícias Obras Missionárias (POM), onde busco dar passos concretos nessa direção, aproveitando as plataformas institucionais para inserir essa perspectiva de análise. Um exemplo recente e encorajador foi a minha participação no Seminário Nacional da Campanha da Fraternidade. Embora a Campanha da Fraternidade 2025 tenha tratado sobre Fraternidade e Ecologia integral e a CF 2026 venha a focar sobre a questão da Moradia, é crucial que essas discussões sejam atravessadas por uma análise de interseccionalidade.

Fiquei particularmente tocada e parabenizei publicamente o esforço de encontrar, no Texto-Base e nas explanações apresentadas, menções muito concretas sobre como a intersecção entre raça, gênero e religião incide em questões vitais, como a crise da moradia no Brasil. É impossível falar de moradia sem abordar como a mulher negra, chefe de família, é a mais atingida pela precariedade, pela violência e pela falta de acesso a direitos básicos, em uma tripla vulnerabilidade.

Este tipo de reconhecimento, que nem sempre esteve presente de forma explícita nas reflexões da Campanha da Fraternidade, é vital. Reitero que uma ação missionária e evangelizadora que não incorpore a lente da interseccionalidade em sua análise da realidade – examinando como ser mulher, ser negra e ter uma fé específica modela a experiência de opressão e resistência – inevitavelmente continuará a repetir uma lógica excludente. O enfrentamento missionário, portanto, começa com um olhar de análise que nomeia e articula essas violências, transformando a denúncia em um imperativo pastoral para garantir o protagonismo e a vida plena das mulheres negras.

6. Qual é, na sua visão, o lugar e a contribuição singular da mulher negra na missão da Igreja e na construção de uma teologia de resistência e libertação?

Na minha visão, o lugar e a contribuição singular da mulher negra na missão da Igreja e na construção de uma teologia de resistência e libertação são absolutamente centrais e insubstituíveis. Essa contribuição se estrutura em torno de dois eixos principais: a representatividade e a teologia da resiliência.

Primeiramente, a mulher negra, ao ocupar espaços de decisão e de visibilidade, como o meu caso, cumpre o papel de ser uma presença que liberta. Conforme observei falando sobre articulação de iniciativas como o grupo “Aquilombar na Fé”, essa presença é um ato de justiça que dá visibilidade a uma vida eclesial já existente. Como costumo afirmar, nossa presença é o reconhecimento de uma vida de doação, “sangue, suor, coração, lágrimas”, que há muito tempo está presente na Igreja. A mulher negra atua como um sinal profético de que a abertura e a dignidade na Igreja significam uma “volta às origens”, ao exemplo de Jesus e das comunidades nascentes.

Em segundo lugar, a mulher negra oferece a teologia da resistência e libertação a partir da sua própria corporalidade e vivência. Ela encarna o que a teóloga negra Theressa Hoover chamou de “risco triplo”, ou seja, a acumulação de opressões por ser mulher, negra e ativa em instituições religiosas. Desta margem de opressão, a mulher negra, no entanto, desenvolve uma profunda resiliência e uma fé que interpela as estruturas. Em minhas reflexões, como a apresentada no Encontro com Papa Francisco e o G9 do qual participei em abril do ano passado, costumo trazer à luz figuras bíblicas como a mulher cananeia: estrangeira, insistente, que desafia as barreiras para obter a vida plena. A mulher negra, com sua capacidade inata de “semear a esperança” e de “viver da esperança”, ensina à Igreja que a verdadeira missão nasce do encontro com o Cristo que está nos mais vulneráveis.

Portanto, a contribuição singular da mulher negra reside em sua dupla face: ela é o ônus da responsabilidade pela representatividade e a honra da profecia, oferecendo à Igreja não apenas a denúncia do racismo e do machismo, mas o anúncio de caminhos de superação. Sua teologia não é acadêmica em primeiro lugar, mas sim uma teologia vivida, que transforma a resiliência em sabedoria pastoral e a luta por dignidade em um alegre testemunho missionário. A missão dela é a de manter o “fogo da missão ardendo” através do autocuidado e da atenção sensível à realidade do seu próprio corpo e das suas relações, inspirando uma Igreja permanente saída missionária que não tem medo atravessar todas as fronteiras e lançar pontes para acolher a vida ameaçada.


1 Religiosa da Congregação das Missionárias da Imaculada, do Pontifício Instituto das Missões Exteriores (PIME), é a atual diretora das POM no Brasil. Mestrado em Teologia Dogmática, Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma; Bacharelado em Teologia, Pontifícia Universidade Gregoriana; Bacharelado em Psicologia, Instituto de Psicologia Gregoriana; e é Diploma em Espiritualidade Missionária, Pontifícia Universidade Urbaniana, Roma