O legado de Dom Orlando Octacílio Dotti
https://doi.org/10.52451/sa7nnd33
Recebido em: 01/12/2025
Aprovado em: 12/12/2025
*Frei Nedio Pertile é frade capuchinho da Província do Rio Grande do Sul, ordenado padre em 21 de janeiro de 1989, em Sananduva, RS. Tem Licenciatura em Teologia pela PUCRS (1984-1988), Mestrado em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma (1991-1993) e Doutorado em Teologia pelo Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte, MG (2000-2005), com a tese: Manifestado pelo Espírito: Paul Evdokimov: “teologia sob o signo da epiclese”. Atualmente, é Referencial do Projeto de Formação na Diocese de Vacaria. E-mail: pertilenedio@gmail.com, Orcid: 0009-0003-0885-0712
Introdução
A convite do Pe. Ivanir Antônio Rampon, Diretor Executivo da Faculdade de Teologia e Ciências Humanas – a Itepa Faculdades – o texto, que segue, abaixo, foi apresentado no dia 11 de agosto de 2025, nas dependências da Faculdade durante a Aula de Abertura do Segundo Semestre Acadêmico. A Aula teve os seguintes objetivos: “a) Louvar a Deus pelos 95 anos de Dom Orlando Dotti, Bispo Emérito de Vacaria e ex-professor e ex-integrante do Conselho de Administração da Itepa Faculdades; b) Aproximar a Comunidade acadêmica do legado de Dom Orlando, profeta da Justiça, da Paz, da Terra Partilhada; c) Partilhar o processo histórico da elaboração dos dois volumes da obra ‘O coração fala ao coração – legado de Dom Orlando Octacílio Dotti’” (Disponível em: https://itepa.com.br/. Acesso em 17 nov 2025). Agradeço também o convite-proposta do Pe. Rogério Luiz Zanini, Vice-Diretor Executivo da Itepa Faculdades e Coordenador da revista Teopráxis, para publicar o referido texto.
Estamos entregando à geração atual e às futuras gerações a reconstituição de um legado. Trata-se do resgate histórico de um extenso e diversificado magistério relacionado à educação da fé, à gestão diocesana e ao engajamento social. Reconstituímos uma biografia que honra a missão da Igreja e o valor do ser humano inserido na sociedade. A reconstituição deste legado é um ato de justiça para quem é considerado “grande homem”, “profeta do Sul”, “profeta dos movimentos sociais”, “o bispo da terra e dos pobres”, “o amável Pai espiritual”, de quem tivemos a graça de conhecer, conviver e trabalhar juntos.
A iniciativa da publicação partiu de um pedido de Dom Silvio Guterres Dutra, Bispo da Diocese de Vacaria, em dezembro de 2020. Considerando a envergadura da iniciativa, constituímos uma Equipe, formada por mim (Coordenador), Pe. Claudio A. Prescendo, Cláudia A. Zamboni Rossi e Frei Wilson Dallagnol. A organização da publicação em dois volumes foi definida durante os meses de janeiro e fevereiro de 2021, sempre em reuniões online, já que estávamos em plena pandemia do Covid-19.
Estamos lançando um trabalho pioneiro por diversas razões: a) é a primeira biografia de Dom Orlando. A narrativa de sua biografia contém três características predominantes: detalhada, abrangente e suficientemente documentada; b) é a primeira publicação que reúne o conjunto dos escritos, discursos, entrevistas, pregações e homenagens recebidas; c) tanto a narrativa biográfica quanto a coleta dos seus escritos e pregações é resultado não propriamente de pesquisa bibliográfica, mas da pesquisa documental, realizada em diversos Arquivos: nas Cúrias Diocesanas de Caçador (SC), de Barra (BA), de Barreiras (BA), de Vacaria (RS); na Cúria Provincial e no Museu dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul, em Caxias do Sul; no Santuário Nossa Senhora Consoladora, em Ibiaçá; na Comissão Pastoral da Terra, em São Leopoldo, RS, na sede de Fundifran (Fundação do Desenvolvimento Integrado do Rio São Francisco, em Ibotirama, BA, no arquivo impresso do jornal Correio Vacariense, em Vacaria, e no Arquivo digitalizado e disponível online do jornal Correio Riograndense.
Pelo fato de caracterizar-se, sobretudo, como pesquisa documental em arquivos, a consulta priorizou os Livros Tombo, Livros de Registro, Livros de Atas e Livros de Crônicas. Quatro periódicos impressos dos quais reunimos um considerável número de escritos e notícias merecem destaque: os informativos diocesanos Chão da Barra (Diocese de Barra) e Novos Caminhos (Diocese de Vacaria), e os jornais Correio Riograndense e Correio Vacariense.
Além dos três livros de sua autoria, Encontro com o passado dos Dotti e da Linha Silva Tavares Antônio Prado (EST Edições, 2001), Pe. Mário Deluy: missionário e pastor (EST Edições; Itepa, 2009) e Origens da Paróquia São Luiz Rei, de Ipê: documentário e comentários (Evangraf, 2016), a pesquisa se valeu também enormemente das entrevistas concedidas pelo autor e por pessoas que trabalharam com ele. Dom Orlando concedeu 17 entrevistas à nossa Equipe. Outras 17 entrevistas concedidas por ele foram publicadas em periódicos impressos, emissoras de rádio e sites de internet. Contamos com 20 entrevistas concedidas por outras pessoas que trabalharam com ele. Ou seja, para os dois volumes, nós nos movemos num universo de ٥٤ entrevistas.
A execução do projeto da publicação iniciou em janeiro de 2021 e foi concluída nos primeiros meses de 2025, resultando em dois volumes. Coube à EST Edições (Porto Alegre) a editoração, e à Gráfica e Editora Pallotti a impressão dos dois volumes.
A redação do primeiro volume contou com a colaboração de 18 redatores, totalizando 680 páginas. Tem por título: Cor ad cor loquitur – O coração fala ao coração. Legado de Dom Orlando Octacílio Dotti: biografia e missão. Organizado em seis partes, o volume narra todas as fases da vida de Dom Orlando.
A primeira parte intitula-se “Itinerário formativo capuchinho”, e descreve desde as suas raízes familiares, o despertar vocacional (até os 11 anos e meio) e a formação acadêmica e religiosa nos Seminários e Conventos dos Frades capuchinhos do Rio Grande do Sul (dos 11,5 anos até 25 anos, 1942-1956). A segunda parte intitula-se “Nos tempos de padre e professor”, e descreve o seu trabalho em Ipê, Marau, Ijuí e Santo Ângelo (25-38 anos, 1957-1969). A terceira parte intitula-se “Episcopado”, e descreve o governo pastoral de três dioceses: Caçador (1969-1976), Barra (1976-1983) e Vacaria (1983-2003), bem como os trabalhos desenvolvidos no tempo de bispo emérito (2003-2025); ainda constam na terceira parte, um capítulo sobre o seu trabalho nos Meios de Comunicação Social, e outro capítulo com o elenco dos ordenados diáconos e presbíteros, num total de 110.
A quarta parte intitula-se “Causas Sociais”, e descreve algumas áreas nas quais o autor, mesmo antes da sagração episcopal, engajou inteligência e vigor, cuidado pastoral e profeta vigilante, a saber, o Cooperativismo, a Educação, a Reforma Agrária, os Movimentos Sociais (especificamente, Movimento de Mulheres Camponesas, Movimento dos Atingidos das Barragens e Sindicalismo) e o Fórum Social. A quinta parte intitula-se “Testemunhos” e reúne o depoimento-narrativa de diversas pessoas sobre o trabalho do autor em diversas áreas. A sexta parte intitula-se “Reconhecimento”, e descreve os títulos e homenagens recebidos ao longo do seu amplo e diversificado ministério, e termina com um elenco das referências bibliográficas a seu respeito.
O segundo volume esteve, do início ao fim e em sua totalidade, sob os meus cuidados. Intitula-se Cor ad cor loquitur – O coração fala ao coração. Legado de Dom Orlando Octacílio Dotti: escritos e falas. Reúne escritos, discursos, homilias e entrevistas num período de 55 anos, de 1969 a 2024. Está organizado em quatro partes, totalizando 768 páginas.
A primeira parte intitula-se Igreja, Comunhão e Participação, uma vez que o autor se move, desde o ponto de vista eclesiológico, nas diretrizes da renovação propostas pelo Concílio Vaticano II, Conferências Latino-Americanas de Medellín e Puebla. Reúne os escritos do período de episcopado nas Dioceses de Caçador, SC (1969-1976), Barra, BA (1976-1983) e Vacaria, RS (1983-2003), os comentários a documentos da Igreja e às Campanhas da Fraternidade, os relatos de atividades na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e Regional Sul 3 da CNBB. Esta parte coleta ainda alguns tópicos de teologia, liturgia e espiritualidade, as mensagens de Natal e Páscoa dirigidas aos diocesanos, e o testemunho sobre nove personalidades da vida da Igreja.
A segunda parte intitula-se A nova sociedade, e reúne os escritos sobre o Ensino Social da Igreja, cujos princípios e valores norteiam a luta pela justiça social, sobretudo nas lidas agrárias, a economia solidária, o sentido do trabalho humano, as pregações durante a Romaria da Terra, os movimentos e pastorais sociais, a cidadania, a educação libertadora, a realização de Fóruns Sociais e a construção da paz. Esse conjunto de escritos possibilita visualizar o engajamento social do autor seja na caminhada pastoral da Igreja seja nas demandas advindas da sociedade civil. Todo o magistério social do autor é amparado na Sagrada Escritura, na Doutrina Social da Igreja, desenvolvendo-se no âmbito da legalidade civil, a ponto de tornar-se conhecido no território brasileiro e fora dele.
A terceira parte intitula-se Publicações. Reúne trechos escolhidos dos três livros de sua autoria e de um livro traduzido e adaptado à edição brasileira, um Curso à Distância contendo 10 lições sobre o Ensino Social da Igreja e a Apresentação de 10 livros. Incluímos nesta terceira parte, 12 entrevistas publicadas em periódicos impressos e emissoras de rádio. Outras entrevistas menores foram anexadas a escritos de temas afins à entrevista.
A quarta parte intitula-se Reconhecimento, e reúne escritos e falas de diversas ocasiões de trajetória missionária e pastoral do autor. A maior parte dos escritos e falas são discursos de reconhecimento e homenagem, todavia há também um número significativo de falas do próprio autor ao final das homenagens. Agrupamos escritos e falas relativas à sagração episcopal, à missão nas Dioceses de Barra e Vacaria, ao Jubileu de Ouro de vida sacerdotal, aos 80 anos de vida, aos 50 anos de vida episcopal, à outorga da Medalha Zilda Arns e da 46ª Romaria Terra, em Ipê, RS (2024).
Escolhemos o mesmo título para os dois livros: “O Coração fala ao coração”, em latim “Cor ad cor loquitur”, por se tratar do lema episcopal do autor. Este lema tem origem na tradição franciscana. Durante o período medieval havia uma discussão sobre o que é prioritário ao ser humano: a racionalidade ou a vontade? Os pensadores escolásticos defendiam a racionalidade, enquanto que os franciscanos defendiam a vontade, tendo o coração como ponto de partida e centro de decisão de tudo o que o ser humano empreende.
O lema foi adotado posteriormente por John Henri Newman, quando foi nomeado Cardeal, em 1879, pelo Papa Leão XIII. O mesmo lema também foi adotado para definir o perfil educativo da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ijuí (FAFI), fundada em 1956 pelos frades capuchinhos da Província do Rio Grande do Sul. Treze anos depois, em 1969, foi criada a Fidene (Fundação de Integração, Desenvolvimento e Educação do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul), que precedeu a UNIJUÍ, fundada em 1985. Foi nesta instituição – FAFI - que o então Frei Orlando de Antônio Prado trabalhou como professor, de 1964 até 1969.
O lema - “O coração fala ao coração” - conforme pode-se deduzir da narrativa biográfica e pelo conjunto dos escritos, pregações, entrevistas, forjou/modelou o modo de ser e o modo de agir do autor, o modus essendi e o modus operandi. O que significa isso? Significa adotar um jeito de trabalhar indo ao encontro das pessoas onde elas se encontram geográfica e existencialmente, ouvindo e dialogando com elas, solidarizando-se com elas e em favor delas, sem nada temer, à imitação do bom pastor, Jesus de Nazaré, que conhece as ovelhas e dá a própria vida por elas.
O saudoso Papa Francisco, na Mensagem para o 57º Dia Mundial da Comunicações Sociais, intitulada “Falar com o coração testemunhando a verdade no amor”, dizia que
comunicar com o coração quer dizer que a pessoa que nos lê ou nos escuta é levada a deduzir a nossa participação nas alegrias e receios, nas esperanças e sofrimentos de homens e mulheres de nosso tempo. Quem assim fala, ama o outro, pois preocupa-se com ele e salvaguarda a sua liberdade, sem a violar. Na Igreja temos urgente necessidade de uma comunicação que inflame os corações, seja bálsamo nas feridas e ilumine o caminho dos irmãos e irmãs; precisamos de uma comunicação, baseada na humildade da escuta e no desassombro no falar e que nunca separe a verdade do amor” (PAPA FRANCISCO. Mensagem para o 57º Dia Mundial da Comunicações Sociais. 21/05/2023. Disponível em: https://www.vatican.va. Acesso em: 17 nov 2025).
Por força da sua vocação e missão, o legado de Dom Orlando tem grande significado para a Igreja Católica e para a sociedade. Todavia, este legado é mais ligado de modo especial a cinco entidades ou instituições, a partir das quais procuramos resgatar o seu itinerário de vida e missão, de tal maneira que a narrativa do legado acabou se tornando uma fonte histórica para cada uma dessas entidades ou instituições, a saber, a Família Dotti, instalada no interior do município de Antônio Prado, a Província dos Frades Capuchinhos do Rio Grande do Sul, a Diocese de Caçador, a Diocese de Barra e a Diocese de Vacaria.
Quando se delineia o perfil de uma pessoa corre-se o perigo de praticar injustiça, porque a vida e o mistério que envolve o biografado é sempre mais do que aquilo que dele se diz e se escreve. Mesmo assim tomamos a liberdade de nos perguntar: Quais são os traços mais significativos que se podem deduzir da reconstituição biográfica e literária de Dom Orlando? Haveria muitos, mas gostaríamos de destacar 5 traços, cada um deles é um dom para a Igreja e para a sociedade.
4.1. O Bom Pastor que apascenta segundo o seu coração
Dizíamos que o lema episcopal – O coração fala ao coração - definiu o seu modus essendi e o modus operandi tanto em favor da Igreja quanto em favor da nova sociedade. O lema foi gestado pela tradição dos seguidores de São Francisco de Assis, em cujas fileiras Dom Orlando foi formado como ser humano, como frade capuchinho e como padre da Igreja Católica. Em seus cuidados desvelados, Dom Orlando conduziu o povo de Deus a ele confiado pelos caminhos da sabedoria, da justiça, do amor e da paz. Um pastor que cuida da vida integral das pessoas a ele confiadas, sem nada temer, a exemplo de Jesus, que conhecia as suas ovelhas. Ao comentar o lema escolhido para o episcopado, Dom Orlando escreveu:
O amor é e sempre será a lei suprema de todo o pastor da Igreja. O amor é simbolizado no coração. Ser fiel a este amor que brota do coração de Deus é também um esforço continuado do bom pastor, porque o ideal é grande e não é fácil alcança-lo plenamente. Que Deus nos ajude a ser fiel ao lema escolhido” (DOTTI, D. Orlando. Cor ad cor loquitur. Novos Caminhos, ano 49, n. 238, out./dez. 2013).
4.2. O Bom Pastor fiel a seu tempo
O percurso histórico longo e diversificado de atuação em realidades diferentes e a abrangência dos temas refletidos e publicados nos fazem perceber que Dom Orlando é um pastor vigilante da história, um profeta sentinela, atento aos “sinais dos tempos”. Insistiu muitíssimas vezes que a Igreja deve dar uma resposta aos problemas, às necessidades e angústias do seu tempo. Por força da lei da encarnação, a Igreja vive inserida na história e no mundo, mas não para se moldar ao mundo, nem para se adequar ao mundo, mas para direcionar e conduzir a história e o mundo na direção do projeto sonhado por Deus. Em programa radiofônico “Em nome da Esperança”, transmitido pela Rede Sul de Rádios, em 2013, dizia:
Sinais dos tempos: esta categoria de leitura e interpretação dos fenômenos sociais me fascinou desde aquela época [da publicação da Encíclica Pacem in Terris, pelo Papa São João XXIII, em 11 de abril de 1963; ao final de cada capítulo, a encíclica apresenta os “sinais dos tempos” em relação ao tema tratado]. Depois da Pacem in Terris, muito se escreveu a respeito dos sinais dos tempos. Perguntamo-nos, por quê? Porque saber ler e discernir os sinais dos tempos nos ajuda a viver melhor a nossa fé, a viver mais cristãmente. [...] Para nós, os sinais dos tempos vêm do Espírito Santo. São sinais evangélicos. Parece-nos claro que são sinais de nosso tempo: a preocupação com a ecologia; o consumo responsável e sustentável dos bens; a valorização da cultura local; as redes de indignação e esperança; dentro da Igreja, a renúncia do Papa Bento XVI e a eleição do Papa Francisco. [...] Além destes grandes sinais, a cada passo de nossa vida, despontam pequenos acontecimentos que são sinais inequívocos da presença e da vontade de Deus. Quem estiver atento vai descobrir neles caminhos de salvação e sinais da bondade de Deus (DOTTI, D. Orlando. Avulso não-datado. Arquivo do Autor).
A leitura dos dois volumes coloca em evidência um traço pastoral forte: dar testemunho prático da fé cristã, sendo coerente entre a fé professada na Igreja e a vida vivida no cotidiano, a unidade entre a profissão da fé e engajamento na Igreja e na sociedade, entre a oração e a ação, entre a educação da fé e a promoção da dignidade humana. No entender do autor, o cristianismo é construído com os pés no chão da história atual e o coração centrado no evangelho de Jesus. Em muitas de suas pregações e escritos, depois da descrição e análise lúcidas de diferentes realidades, apresentava a seguinte pergunta: “E agora, diante desta situação, o que devemos fazer?”. Ou seja, a fidelidade do discípulo missionário ao evangelho não se limita ao ato subjetivo de apropriação das verdades da fé, nem se limita aos momentos de profissão pública da fé, mas implica o engajamento, o comprometimento, de maneira a realizar a unidade entre a fé e a vida, entre o crer e o agir, para depois avaliar e celebrar.
4.3. O educador e formador do povo cristão
“Eu sempre trabalhei na educação”. Assim declarava Dom Orlando há alguns meses para o jornal Correio Vacariense. A educação, assim entende o autor, é meio de evolução do ser humano, e a educação da fé é meio de evangelizar e de ser evangelizado. Por ocasião dos 90 anos de história do Colégio São José, gerido pela Congregação das Irmãs de São José de Moûtiers, em Vacaria, RS, em artigo publicação no jornal Correio Vacariense, intitulado Colégio São José: semente da cultura cristã, o autor escreve:
O Documento de Santo Domingo atribui à educação o papel de criar e difundir a cultura cristã. Trata-se, portanto, de desenvolver uma cultura cujo projeto de pessoa se fundamente e se estruture na pessoa de Cristo e nos valores do Reino. Educação Cristã não é, necessariamente, a que fala de Jesus Cristo, mas a que tem por eixo, fundamento e meta (Correio Vacariense, n. 965, 3-7-1993, p. 15).
Dom Orlando tem uma longa ficha de serviços à educação pública e à formação dos cristãos. De seu engajamento na área da educação pública, podemos citar a criação de entidades educacionais de ensino médio e superior no território da Diocese de Caçador, SC, o fato de ter sido membro do Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina, a colaboração decisiva na criação da UERGS (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul) e da Universidade Federal da Mesorregião da Grande Fronteira do Mercosul. Nos primeiros 13 anos depois de ordenado padre, dedicou-se ao ensino acadêmico e formação religiosa nas casas formativas da Província dos Frades Capuchinhos do Rio Grande do Sul e na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, em Ijuí.
Protagonizou diversas iniciativas de caráter formativo nas dioceses que regeu, entre as quais a criação da Escola Superior de Teologia na Diocese de Barra, na Bahia; a criação do curso para formar lideranças cristãs, o chamado EFAP - Escola de Formação de Agentes de Pastoral – gestado e ministrado em paróquias da Diocese de Caçador e, posteriormente, na Diocese de Vacaria. O EFAP ministrado na Diocese de Vacaria foi tema de Dissertação de Mestrado em Educação, de autoria de Claudia Adriana Zamboni Rossi, secretária de pastoral da Diocese.
Mesmo conhecendo bem a sua capacidade de governar a Igreja diocesana e a capacidade de liderança social, Dom Orlando preferiu dinamizar a caminhada pastoral das dioceses que regeu não de forma solitária, sozinho, mas contando sempre com o apoio dos padres e a colaboração dos leigos. Aos padres e leigos concedeu liberdade de criação e de atuação em suas respectivas áreas pastorais. Podemos dizer que Dom Orlando é um bispo educador sinodal, que caminha junto com todas as forças vivas da Igreja.
4.4. O incansável buscador da justiça social
Em seus escritos e pregações, Dom Orlando Dotti preconiza a construção de uma nova sociedade, baseada nos valores da justiça social, igualdade, fraternidade, liberdade e solidariedade. Tais valores são uma concretização do projeto de Deus que, em última análise, visam salvaguardar a dignidade humana. Trata-se, pois, da construção de uma nova sociedade, onde todos têm acesso aos bens essenciais da vida, para, assim, viver em paz, cumprindo seus deveres e tendo os seus direitos respeitados.
A solidariedade é a chave para entender a economia solidária. Nela a produção, a distribuição, o lucro, tudo é partilhado com responsabilidades iguais e conforme a necessidade de cada um. A solidariedade é o fundamento ético que fundamenta toda a economia solidária. As relações que se estabelecem entre os participantes são democráticas e não burocráticas. Tudo é de todos; e cada um responde por todos e todos respondem por cada um. Este tipo de empresa é alternativa à economia de mercado e prospera no mundo inteiro, hoje (Programa radiofônico Jornal da Igreja. Avulso manuscrito não-datado. Arquivo do Autor).
Todo esse empenho e engajamento pela nova sociedade é fundado na Palavra de Deus, na Doutrina Social da Igreja, e no conhecimento crítico da sociedade. Mesmo enfrentando questões sociais difíceis, como, por exemplo, os problemas relativos à terra, às barragens, aos direitos das mulheres agricultoras, e outros levantados pelos movimentos sociais), Dom Orlando Dotti nunca enveredou pelo caminho da violência, do ódio, da vingança, nem pelo caminho da indiferença e do descaso, ao contrário, sempre enveredou pelo caminho da proximidade com as pessoas, do diálogo, do respeito à vida e do respeito às leis civis.
O caminho e a mediação para a realização da justiça social é o diálogo. Hoje, com razão, todos se arrogam o ‘direito ao contraditório’. É preciso explicar coletivamente o contraditório diante da fome, do desemprego, da desigualdade social... num diálogo fecundo. O diálogo proposto como caminho da justiça social não dá entre indivíduos, mas com as organizações da sociedade civil; com os partidos políticos que defendem alternativas de mudança estrutural da sociedade; com as organizações sindicais e de classe comprometidas com as mudanças sociais, com os movimentos sociais; com as pastorais das igrejas empenhadas em construir estruturas que acenem para a utopia do Reino de Deus. Se o diálogo é o caminho para a realização da justiça social, a participação é seu instrumento (DOTTI, D. Orlando. A justiça social. In: GÖRGEN, Frei Sérgio (Org.). Dom Orlando Dotti: batalhador da causa da justiça. Porto Alegre: Midiagraf, 2003, p. 52-53).
4.5. Testemunha do carisma franciscano-capuchinho
Dom Orlando Dotti é filho espiritual de São Francisco de Assis, herdeiro do carisma franciscano. Esse traço forte e visível em sua pessoa foi sendo delineado e sedimentado desde o berço familiar através da ligação da família de origem com os frades capuchinhos do Rio Grande do Sul. O autor teve dois tios padres capuchinhos pelo lado paterno: Frei Celestino Dotti e Frei Justino Dotti, e parentes capuchinhos pelo lado materno: Frei Dionísio Veronese e Frei Mário Barp, bem como primos: Frei Clemente Dotti e Frei Arnaldo Dotti. Todo o percurso acadêmico e formativo, do ginásio até a ordenação presbiteral, foi realizado nos Seminários e Conventos Capuchinhos do Rio Grande do Sul, bem como os primeiros 13 anos de padre, quando trabalhou em casas formativas dos capuchinhos gaúchos.
Uma das coisas que chama a atenção na sua extensa biografia é a pobreza franciscana. A pobreza franciscana marcou toda a sua vida: não acumulou bens materiais, nunca ostentou carro de luxo, sempre se vestiu com simplicidade. Viveu e vive de modo humilde e sóbrio. É sóbrio também no uso das palavras, evitando a abstração, a prolixidade e a especulação. A maneira de viver e de pensar se refletiu na maneira de escrever.
Desde o tempo de Seminário, sempre nos consideramos “filhos” de São Francisco de Assis. Esse bordão ‘Seráfico Pai São Francisco’ era o que se ouvia mais vezes nos sermões dos padres. Fomos marcados por essa figura de homem que veio para reconstruir a Igreja. [...] Quando o Concílio Vaticano II veio com uma proposta de renovação da Igreja, de uma nova visão de Igreja, logo percebi: é isso que São Francisco queria. Era a presença do espírito de Francisco no mundo de hoje para reforma da Igreja, não mais com a figura central de São Francisco, mas com a figura central do papa. O importante era não somente pensar na reforma da Igreja para os outros, mas para si mesmo. Eu sempre mantive essa linha: nós temos que nos reformar, nós, como Igreja, temos que nos atualizar e nos santificar. Nós! Santificando-nos, estamos fazendo o melhor bem que podemos desejar para os outros. Temos que começar pelo exemplo de nós mesmos [...] para que os outros, vendo o nosso exemplo, possam também ser renovados (DOTTI, D. Orlando. O carisma franciscano. Entrevista concedida a Frei Nedio Pertile. Vacaria, RS, 12-7-2021).
Caracterizou-se também por ser acessível e próximo ao povo. Próximo dos pobres e dos excluídos, solidário na busca pela dignidade de vida, levando a sério a opção pastoral da Conferência de Puebla, “a opção preferencial pelos pobres”, da qual participou como um dos representantes do Episcopado brasileiro. No ano seguinte, participando da Conferência, escreveu:
É insofismável a opção da Igreja pelos pobres! A Igreja situa-se, hoje, ao lado dos pobres, contra a pobreza. Opta por caminhar com os carentes dos bens da terra. Estrategicamente, os empobrecidos são o caminho da libertação para todos. Estar ao lado do povo sofredor é imitar o Cristo, que se fez pobre e anunciou aos pobres a boa nova da salvação. Por eles, todos são evangelizados [...]. Esta opção pelo povo oprimido e sofredor importa em ir às classes pobres, lá onde eles vivem e trabalham. Levar-lhes solidariedade na luta e apoio nas práticas que realizam, visando construir um mundo mais justo e fraterno [...] Esta luta, quando mal-entendida, poderá parecer discriminação. Não é! É apenas começar por onde Jesus começou, visando ao que Ele desejou: Que todos sejam salvos! (DOTTI, D. Orlando. Mensagem aos diocesanos: Com o povo sofredor! Chão da Barra. Boletim Diocesano, ano 2, n. 6, set. 1980, p. 1).
Do seu estilo de pastorear estando próximo ao povo a ele confiado, pode-se dizer que a sua presença era esperada em visitas pastorais-paroquiais, em assembleias diocesanas, em romarias, em reuniões de grupos, em cursos formativos, bem como em concentrações de mobilização e reivindicações e de protestos, e nestas últimas buscava o discernimento da situação enfrentada, emprenhava-se no diálogo para a busca de solução. As suas palavras medidas e precisas faziam transparecer o vigor de um profeta, a paresia de um apóstolo, a humildade de um cristão honesto e simples em busca da vida plena e da justiça para todos, especialmente para os mais necessitados.
Por ocasião da homenagem recebida no Grande Expediente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, em 4 de novembro de 2003, pelos serviços prestados, especialmente na área social junto aos movimentos e pastorais sociais, afirmou:
Tenho dificuldade de me convencer de tudo o que está se dizendo [risos], por outro lado, tenho a certeza de que tudo ó que se está dizendo é para vocês. Nunca trabalhei para mim. Nunca tive um projeto pessoal. O projeto que nós estamos fazendo é o projeto de Jesus, e no projeto de Jesus, que fazemos, todos nós somamos (GÖRGEN, Frei Sérgio. Homenagem a Dom Orlando Dotti. In: Comissão Pastoral da Terra, RS. Porto Alegre, 4-11-2003. Vídeo. Arquivo do Santuário de Ibiaçá).
Conclusão
Pode-se afirmar que a leitura da biografia e dos escritos e falas deixa muito claro que o autor teve um projeto de vida norteador para a vida pessoal e para o exercício da sua missão na Igreja e na sociedade: o Evangelho de Jesus Cristo. Desse modo, colocou em prática a Regra de São Francisco de Assis para os frades: “A Regra e a vida dos frades menores é esta: observar o Santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” (Regra Bulada 1,1).
Também hoje temos que partir de nossa vida. A vida sempre interroga a Palavra de Deus. Esta dá a resposta. E a vida se modifica em todas as dimensões, segundo o exemplo do povo de Deus e o ensinamento da Palavra revelada. Assim aconteceu com o povo de Israel: primeiro, aconteceu a vida, e, com a vida, a revelação; mais tarde, foi escrita a Palavra de Deus, com a finalidade de orientar a vida das outras pessoas [...]. A Bíblia não é livro que se leia para deliciar a inteligência ou os sentimentos. Sua leitura deve provocar mudanças radicais de vida (DOTTI, D. Orlando. A Palavra de Deus na Bíblia. Novos Caminhos, n. 61, out. 1987, capa).