O LEGADO DO PAPA FRANCISCO PARA AS MULHERES: O ESPERANÇAR DE UM DISCIPULADO DE IGUAIS EM CONSTRUÇÃO
Pope Francis’ legacy for women: the hope of a discipleship of equals under construction
El legado del Papa Francisco para las mujeres: la esperanza de un discipulado de iguales en construcción
DOI: https://doi.org/10.52451/m9rpap60
Recebido em: 01 dezembro de 2024.
Aprovado em: 13 de março de 2025.
Dorcelina do Carmo Alves Gomes
Jornalista graduada pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) de São Leopoldo. Também cursou Letras/Português na mesma instituição. Mestra em teologia sistemática pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), do RS. Especialista em Protagonismo Feminino na Igreja pela PUC Minas. Membra da Rede Brasileira de Teólogas (RBT). E-mail: dorce.dorce@yahoo.com.br .; Orcid: https://orcid.org/0009-0009-1316-2264.
Resumo: Este artigo analisa o legado do Papa Francisco em relação à participação das mulheres na Igreja Católica, à luz de seus discursos, documentos e gestos pastorais. Utilizando a hermenêutica feminista como abordagem metodológica, o texto dialoga com teólogas e pesquisadoras que refletem criticamente o papel feminino na vida eclesial. Considera-se, também, a contribuição do Concílio Vaticano II, especialmente a constituição Lumen Gentium, como marco inicial para a ampliação do espaço das mulheres na Igreja. O artigo evidencia que, apesar de avanços tímidos, Francisco promoveu mudanças significativas na mentalidade eclesial ao incluir mulheres em funções de responsabilidade e garantir sua participação nos processos sinodais. Por fim, propõe-se recuperar elementos do discipulado de iguais como horizonte teológico e pastoral para a superação de estruturas patriarcais ainda predominantes na Igreja.
Palavras-chave: Papa Francisco; legado; mulheres; discipulado de iguais.
Abstract: This article analyzes Pope Francis’ legacy regarding women’s participation in the Catholic Church, in light of his speeches, documents, and pastoral gestures. Using feminist hermeneutics as a methodological approach, the text engages with theologians and researchers who critically reflect on the role of women in ecclesial life. It also considers the contribution of the Second Vatican Council, especially the constitution Lumen Gentium, as a starting point for expanding women’s role in the Church. The article highlights that, despite tentative advances, Francis promoted significant changes in the ecclesial mindset by including women in positions of responsibility and ensuring their participation in synodal processes. Finally, it proposes recovering elements of discipleship of equals as a theological and pastoral framework for overcoming patriarchal structures still prevalent in the Church.
Keywords: Pope Francis; legacy; women; discipleship of equals.
Resumen: Este artículo analiza el legado del Papa Francisco respecto a la participación de las mujeres en la Iglesia Católica, a la luz de sus discursos, documentos y gestos pastorales. Utilizando la hermenéutica feminista como enfoque metodológico, el texto se conecta con teólogos e investigadores que reflexionan críticamente sobre el rol de las mujeres en la vida eclesial. También considera la contribución del Concilio Vaticano II, especialmente la constitución Lumen Gentium, como punto de partida para expandir el rol de las mujeres en la Iglesia. El artículo destaca que, a pesar de los avances tentativos, Francisco promovió cambios significativos en la mentalidad eclesial al incluir a las mujeres en puestos de responsabilidad y asegurar su participación en los procesos sinodales. Finalmente, propone recuperar elementos del discipulado entre iguales como marco teológico y pastoral para superar las estructuras patriarcales aún prevalecientes en la Iglesia.
Palabras clave: Papa Francisco; legado; mujeres; discipulado entre iguales.
Introdução
Reunindo um número considerável de textos, ousei escrever esse artigo sobre o legado do Papa Francisco para as mulheres: o esperançar de um discipulado de iguais em construção. Digo isso porque não foi fácil garimpar material, até pela quase escassez de produções teológicas, de vozes femininas que se voltassem especificamente ao tema. Existiam apenas recortes de jornais e algumas entrevistas. Mesmo assim, lancei-me ao desafio e cá estou disposta a escrever algumas linhas sobre tão importante assunto. Até onde o pontificado de Francisco se encontra e converge para um discipulado de iguais? De fato, o que Francisco nos deixa após a sua morte em 21 de abril de 2025 em um papado de 12 anos em relação à presença feminina na Igreja?
O Papa Francisco sempre foi incisivo em suas falas e posições e também em seus textos ao dizer que temos que “desmasculinizar a Igreja”, torná-la igual, sem divisões, “porque a Igreja é uma comunhão de homens e mulheres que partilham a mesma fé e a mesma dignidade batismal” (Francisco, 2025).
A reflexão parte de um ponto de vista feminino e tem como aporte referências bibliográficas, em sua maioria, de mulheres, teólogas ou não. Para abordar o tema do discipulado de iguais, lança-se mão, em grande parte, das obras de Fiorenza (1995) e de Santinon; Mariotti e Ottaviani (2023), além de um artigo da teóloga Maria Cristina Furtado (2022). O objetivo é mostrar que falar sobre o legado do Papa Francisco para as mulheres também é se reportar ao discipulado de iguais, porque ambos têm uma correlação direta, na medida em que Francisco promoveu uma revolução sobre a discussão da igualdade de gênero e da presença feminina na Igreja.
De muitas maneiras, poderíamos nos referir ao Papa Francisco: papa da sinodalidade, da esperança, dos pobres, dos excluídos, das mulheres, mas sobretudo de um papa que ousou abrir espaço à participação feminina na Igreja, enfrentando até certo ponto as estruturas clericais, patriarcalistas e de poder. Ele viveu um legado de amor, tolerância, acolhimento e humildade. Os traços de ser humilde estiveram presentes até o fim, quando seu último pedido foi este: “O túmulo deve ser no chão; simples, sem decoração especial e com uma única inscrição: Franciscus” (Francisco, 2025).
1 Discipulado de iguais: história e a perspectiva da hermenêutica feminista
No artigo intitulado A hermenêutica do feminino na teologia: suas lutas e conquistas, Maria Cristina Furtado (2022) escreve que alguns conceitos são imprescindíveis para se compreender o conceito de discipulado de iguais. A autora se refere às palavras feminismo e feminista. Esses vocábulos sempre foram tabus e cercados de preconceito, atribuindo às mulheres que defendiam uma sociedade mais igualitária como promotoras do caos, das arruaças, umas hippies diziam os mais reacionários.
Nas décadas de 60 e 70, o Brasil vivia a efervescência dos movimentos sociais, em especial o movimento feminista. Neste contexto conturbado surgiu a teologia feminista. Inicialmente, com o acento forte da teologia feminista do primeiro mundo. Entretanto, os problemas da América Latina, sobretudo os do Brasil, logo chamam mais atenção, e as teologias latino-americana e brasileira assumem características próprias. Na verdade, a teologia feminista torna-se então cria da Teologia da Libertação (TdL) (Gomes, 2023, p. 27).
Em síntese, o feminismo se caracteriza como um movimento que visa a estabelecer a igualdade de gênero entre homens e mulheres, a vivência humana por meio do empoderamento feminino e a libertação de padrões do androcentrismo e patriarcais. De fato, o objetivo não é uma disputa de poder, mas a equidade feminina e masculina (Gomes, 2023, p. 28).
Muitos séculos depois, o legado do Papa Francisco para as mulheres apresenta estreita ligação com os traços característicos do discipulado de iguais, seguindo os passos do mestre Jesus em relação à inclusão feminina. O tema ganhou mais força após a pesquisadora Ivenise Santinon em parceria com os também teólogos Edélcio Ottaviani e Lucy Mariotti lançar o livro Discipulado de Iguais em 2023. Um dos capítulos da obra de Santinon versa sobre a presença das mulheres na Igreja: apontamentos para um discipulado de iguais e este traz que no contexto dos evangelhos, nas comunidades primitivas, as mulheres receberam de Jesus uma atitude diferente. Para ela, está mais do que na hora de “repensar o significado e o lugar da mulher na Igreja, derrubando os estereótipos vigentes ainda em nossa sociedade” (Santinon, 2023, p. 107).
Ivenise Santinon sistematiza o assunto.
O discipulado de iguais enfrenta dificuldades para se efetivar práxis cristã, porque os futuros sacerdotes, os primeiros responsáveis pelas comunidades eclesiais, são formados segundo a ideia de que as coisas sempre foram assim e devem continuar assim. O clericalismo não só inibe uma presença mais efetiva do laicato na vida pastoral da Igreja, como se constitui num entrave ao discipulado de iguais, muito embora sejam as mulheres a maioria na Igreja, conforme aponta a Conferência de Aparecida (2007) (Santinon, 2023, p. 100-101).
No artigo O silenciamento das mulheres como entrave ao discipulado de iguais escrito com mais dois teólogos, Ivenise Santinon (2022) afirma que a atualização proposta pelo Vaticano II reflete sobre a possibilidade de uma conversão ministerial nas estruturas eclesiais. De acordo com a pesquisadora, a partir de um resgate antropológico, esse evento apontou a mesma dignidade de homens e mulheres e indica − na perspectiva eclesiológica de Igreja Povo de Deus, onde todos os batizados são chamados ao mesmo seguimento de Jesus. Isso está lá no capítulo 2 da constituição dogmática Lumen Gentium, do próprio Concílio, acentuando aspectos relevantes para se pensar a situação das mulheres nos tempos de hoje. Isso significa que todos, independentemente de gênero, aos olhos do Criador são iguais.
Ivenise acredita que, na atualidade, ainda há mulheres silenciadas e desconsideradas nas estruturas eclesiais, não importando que sejam capacitadas e comprometidas. Ela entende que mesmo com o apoio do Papa Francisco, muitos são aqueles que desconsideram a sua presença legítima e relevante para a vida da Igreja. Esses retrocessos em partes da Igreja, reitera Santinon, dificulta a emancipação eclesial feminina e um consequente discipulado de iguais. A partir das palavras de Santinon, pode-se dizer que esse pensamento já ganhava terreno no final do último século, com a teóloga Elisabeth Fiorenza (1995). Também em meados do século XX, os documentos conciliares e o auge das grandes revoluções garantiram à mulher novos espaços de atuação e lugares de fala. Isso gerou animosidade entre a estrutura eclesiástica e as ciências, respingando na própria teologia (Santinon, 2022, p. 184).
Para Santinon (2022), os novos ares do Concílio Vaticano II trouxeram um avanço para a vida das Igrejas particulares, principalmente no que diz respeito às oportunidades para uma ação pastoral mais atuante dos leigos. Porém, em relação à ação das mulheres na estrutura eclesial, “pouco espaço lhes foi oferecido nos organismos de decisão, deixando transparecer que na Igreja elas não são reconhecidas como iguais”, endossa a teóloga.
É preciso ressaltar que o silenciamento das mulheres nos diversos organismos eclesiais acontece de forma velada, mesmo com toda a abertura proposta pelo Concílio Vaticano II. O silenciamento não se dá nos moldes das condenações que afetaram o movimento beguinal, impondo-lhes ostensivamente o silêncio, mas por meio de estruturas eclesiásticas fortemente masculinizadas, com a presença ostensiva dos homens. Como exemplo, podemos citar a ínfima presença das mulheres religiosas ou leigas nas faculdades de teologia e nos centros de formação voltados para o ministério sacerdotal. [...]. Tal ausência reforça o clericalismo e a tendência a relegar às mulheres postos de serviço, mas não de decisão. Diante dessa realidade desequilibrada, a teologia pastoral tem buscado alguns novos objetivos “hermenêuticos”, necessários a uma conversão da eclesiologia tradicional (Santinon, 2022, p. 184-186).
Papa Francisco: protagonismo feminino para romper com as estruturas clericais e um espaço de diálogo na Igreja
Durante os 12 anos em que esteve à frente da Igreja Católica, o pontificado do Papa Francisco é marcado por uma forte atuação em favor da justiça social, com sinais claros de abertura para o diálogo inter-religioso, empatia, cuidado com os mais pobres e marginalizados e inclusão feminina. Na verdade, seu legado não deixa mudanças abruptas nem revoluções formais e nem rupturas, mas foi em direção a gestos simbólicos que romperam o silêncio histórico da Igreja e buscou devolver esperança a milhares de mulheres que, por séculos, se sentiram à parte, inviabilizadas, não ouvidas ou mesmo não representadas – dentro e fora dos muros eclesiais.
As impressões da psicanalista e fundadora do movimento Feminino Moderno, Ana Lisboa, são compartilhadas pela jornalista e doutora em Comunicação e Semiótica, irmã M. Neusa Santos, quando esta comenta que o Papa Francisco, em uma série de pronunciamentos, enfatizou, de forma contundente, a importância vital da presença da mulher na Igreja e na sociedade. Seguindo essa mesma linha de raciocínio, Santos (2025) lembra que as palavras do pontífice sempre ecoaram não só como uma declaração de fé, mas ainda como um apelo urgente à compreensão de que, sem a presença feminina, a harmonia no mundo estaria comprometida. Por sua vez, reporta-se a uma frase dita por Francisco durante uma de suas homilias na missa na capela de Santa Marta, no dia 9 de fevereiro de 2017: “Sem a mulher, não há harmonia no mundo”. Segundo a pesquisadora, essa declaração respalda um profundo significado, não deixando margem a dúvidas da contribuição única e indispensável das mulheres na construção de um mundo mais sinodal, colaborativo, de escuta mútua e participação ativa de todos em prol de um futuro comum (Santos, 2025, p. 23).
Ela reforça seus argumentos ao dizer que a perspectiva do Papa Francisco condena uma visão limitada e estereotipada sobre o papel feminino, destacando que a mulher não deve ser simplesmente encarregada de tarefas domésticas. Afinal, ela é a portadora da capacidade única de trazer harmonia e alegria ao mundo. Sendo assim, Ir. Neusa emenda que suas palavras desafiam preconceitos arraigados e desafiam a sociedade ao reconhecimento e à valorização da contribuição única das mulheres em todos os setores da vida. “Em um mundo que, cada vez mais, busca a equidade e o reconhecimento da diversidade, as palavras do Papa Francisco ecoam como um chamado à reflexão sobre a importância da presença feminina na Igreja” (Santos, 2025, p. 24).
Partindo desses pressupostos e de sua visão otimista, ouso reiterar que a trajetória histórica da presença feminina na Igreja indica a inegável percepção de um fluxo de transformação ao longo das diversas épocas. Segundo Neusa Santos, isso é fruto de um processo de emancipação e libertação, que rompeu as correntes de um patriarcado que confinou as mulheres a uma posição de submissão. Nesse sentido, não se intimida em fazer esse diagnóstico:
Nesse despertar, reconhecemos o nosso direito de desbravar fronteiras e construir nosso caminho com fios que renovem a experiência de liderança na esfera eclesiástica. No entanto, essa jornada não é isenta de desafios, especialmente quando confrontamos certezas arraigadas que nos mantêm condicionadas, minando nossa capacidade de enxergar, ouvir, discernir e decidir a partir de perspectivas diversas. A resistência à mudança, muitas vezes enraizada em tradições milenares, não pode ser subestimada. O desafio está em desconstruir não apenas as estruturas externas, mas também as mentalidades arraigadas que perpetuam a subalternidade feminina. Este é um chamado para questionar os paradigmas culturais e religiosos que, por séculos, delinearam as posições e funções das mulheres na Igreja (Santos, 2025, p. 24-25).
Neusa tem convicção de que há urgência de adotar novos paradigmas, não só para tornar evidente a promoção da igualdade de gênero, mas também para uma vivência mais autêntica da fé. Ela ainda defende que “a diversidade de vozes femininas na Igreja pode oferecer uma riqueza de perspectivas, contribuindo para uma compreensão mais abrangente e inclusiva da mensagem cristã” (Santos, 2025, p. 25).
Contextualizando sua fala historicamente, descobre-se que a vida consagrada feminina ocupa um papel central na Igreja devido ao número de congregações femininas, que supera de longe os números masculinos em todo o mundo. Nesse patamar, sabe-se que durante séculos as religiosas foram responsáveis pela sustentação das obras de caridade, educação, saúde e missão, enfrentando, na maioria das vezes, situações adversas. Desse modo, Santos (2025) vê com bons olhos o fato de Francisco ter nomeado uma mulher para liderar o dicastério que supervisiona essa dimensão vital da Igreja. A irmã italiana Simona Brambilla tornou-se a primeira a chefiar este importante departamento da Cúria Romana em 6 de janeiro de 2025. Ela foi designada prefeita do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. Este cargo representa o posto-chave na estrutura central de governo da Igreja Católica. Significa, conforme a religiosa, um gesto profético que se traduz no desejo do papa por uma governança mais inclusiva e representativa. De fato, irmã Simona Brambilla tem uma trajetória pontuada pela liderança, pelo discernimento e pelo serviço. Já atuou anteriormente como secretária no mesmo dicastério que agora passa a liderar. Para a Ir. Neusa, sua presença nesse papel não retrata apenas um marco histórico, mas representa “um convite a toda a Igreja para refletir sobre a sinodalidade e a colaboração como caminhos essenciais para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo”, completa.
Em suas reflexões, Santos (2025) ainda recorda que a nomeação de uma mulher para um dos mais altos cargos do Vaticano ressoa como um sinal de esperança e renovação. A grosso modo, este gesto do Papa Francisco resume uma oportunidade ímpar para repensar a liderança na Igreja.
A liderança na Igreja não se fundamenta no poder ou no prestígio, mas no serviço, na escuta atenta e no compromisso com os mais necessitados. Ao confiar essa missão a irmã Simona, o Papa Francisco reforça que a sensibilidade e a sabedoria das mulheres são fundamentais para enriquecer a missão eclesial. [...] o Papa Francisco, fundamentado no princípio do batismo, tem incentivado uma participação mais significativa das mulheres nas esferas de responsabilidade dentro da Igreja. Ele tem enfatizado que muitas mulheres, movidas pelo Espírito Santo, sustentam a Igreja em diversos pontos do mundo, demonstrando uma dedicação notável e espírito missionário e profético (Santos, 2025, p. 27).
2.1 Documentos e nomeações que embasam a representatividade feminina
2.1.1 Carta apostólica Spiritus Domini
Através da carta apostólica Spiritus Domini, Francisco ampliou as oportunidades para as mulheres aos ministérios de leitorato e acolitato. Também, em janeiro de 2021, o Papa nomeou duas religiosas brasileiras, irmãs Maria Inês Vieira Ribeiro e Márian Ambrósio, como consultoras na Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. “[...] um gesto que reflete a proximidade da Igreja com os diferentes espaços geográficos e a diversidade presente em sua missão universal”, afirma irmã Neusa.
Na Santa Sé, várias mulheres ocupam cargos de destaque. Isso inclui cinco subsecretárias e uma secretária, o que reflete uma significativa mudança na composição da hierarquia da Cúria romana. Evidencia-se esse avanço histórico com a nomeação de Alessandra Smerilli, em 2021, como secretária no Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral, e de irmã Raffaella Petrini, como secretária-geral do Corpo Governante do Vaticano. Convém observar que Petrini, de 52 anos, é a primeira mulher a desempenhar essa posição. Nesse sentido, é considerada a “número 2” do Vaticano. Nesse quadro de sucessivas mudanças que fortalecem o protagonismo feminino, as Comissões Pontifícias também contribuem para essa nova configuração. As nomeações de Nuria Calduch-Benages e Emilce Cuda como secretárias, em 2021 e 2022, respectivamente, deram o empurrão que faltava. E as novidades não ficaram apenas aí, pois nos últimos dez anos, o Papa Francisco impulsionou mudanças importantes no Vaticano para cargos de destaque, como a nomeação da brasileira, a jornalista leiga Cristiane Murray, vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé, e da irmã Nathalie Becquart, subsecretária do Sínodo dos Bispos.
2.1.2 Constituição apostólica Praedicate Evangelium
Promulgada em 2022, a constituição apostólica Praedicate Evangelium, assinalou um momento significativo na trajetória da Igreja Católica, porque abriu as portas para a maior participação de leigos, incluindo das mulheres, em cargos de direção nos dicastérios. Assim,
esse passo importante reflete o compromisso do papa em promover a igualdade de gênero e reconhecer o papel fundamental das mulheres na condução dos destinos da Igreja. No entanto, mesmo diante dos avanços notáveis, é imperativo reconhecer que há um longo e contínuo caminho a ser percorrido para que as mulheres assumam plenamente seu lugar de fala e influência nos âmbitos eclesiais em todo o mundo. Não basta apenas abrir portas; é necessário proporcionar condições para que essas mulheres não ocupem só cargos de servas, mas também se tornem construtoras ativas e fundamentais das ideias que moldam as decisões eclesiais (Santos, 2025, p. 28).
A partir da Praedicate Evangelium, é fundamental que essa abertura seja acompanhada de medidas práticas e políticas, com o objetivo de garantir a efetiva participação das mulheres em todos os níveis das estruturas eclesiais. Dessa maneira, a religiosa ressalta que a promoção da igualdade de gênero não é apenas uma questão de política interna da Igreja, mas também uma oportunidade de testemunhar os valores universais de justiça, igualdade e dignidade humana.
2.1.3 Conferência dos Religiosos do Brasil: avanços e desafios
Fundada em 1954, a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), a instituição testemunhou uma evolução no ano de 2001, quando, após 47 anos de história, elegeu pela primeira vez sua primeira presidente. Sem dúvida, pode-se dizer que a escolha de uma mulher não se tratou somente de um ato simbólico, mas desencadeou um rompimento audacioso com uma tradição que, durante décadas, esteve sob o jugo de lideranças masculinas. O ato ainda significou um marco na representatividade e mudança de protagonistas, sinalizando que a ascensão de uma mulher à presidência foi uma conquista individual. Também indicativos de que eram lançados desafios às estruturas tradicionais para redefinir e incorporar a diversidade de talentos e dons. Mais tarde, Francisco viria abrir as portas para a necessidade urgente de questionar e superar as barreiras de gênero.
Eloquente em suas colocações, a assessora de comunicação da CRB faz essas ponderações:
No entanto, é fundamental perceber que, mesmo diante desses avanços, a caminhada rumo à igualdade de gênero na CRB e em outras instituições da Igreja está longe de ser concluída. A aceitação crescente da liderança feminina deve ser acompanhada por esforços contínuos para superar obstáculos persistentes, desafiando normas culturais e estruturas arraigadas que, por muito tempo, limitaram o papel das mulheres na tomada de decisões. No entanto, apesar dos progressos notáveis, ainda há desafios a serem enfrentados para garantir uma representação mais completa e inclusiva. O caminho rumo à liderança feminina na Igreja está em constante evolução, e a experiência da Conferência dos Religiosos do Brasil serve como um exemplo encorajador desse movimento. A presença significativa de mulheres em cargos de liderança é um testemunho do potencial e da diversidade que a liderança feminina traz para a Igreja, promovendo uma visão mais abrangente e equitativa do serviço religioso (Santos, 2025, p. 30-31).
2.1.4 Pontificado de Francisco: marcas fortes da sinodalidade e dívida de escuta
Na opinião da diretora das Pontifícias Obras Missionárias (POM) do Brasil, Ir. Regina da Costa Pedro, e que corrobora com as palavras de Santos (2025), um dos maiores legados do Papa Francisco foi justamente o espaço que ele abriu para a participação feminina na vida da Igreja. Para a teóloga, essas ações revelam uma mudança profunda, pois “uma Igreja que ouve as mulheres, como o Papa Francisco quis fazer, é uma Igreja que se torna mais justa e inclusiva”.
O pontificado de Francisco foi marcado fortemente pelo conceito de sinodalidade. A partir disso, a religiosa salienta a importância da “dívida de escuta”. Segundo ela, essa expressão surgiu durante as reflexões do Sínodo da Sinodalidade, porque “o papa reconheceu que a Igreja havia deixado de escutar muitas pessoas, e entre essas, as mulheres estavam no topo da lista. E eu sou testemunha disso”, sinaliza. Abriam-se então os espaços de decisão voltados às mulheres.
Irmã Regina foi a primeira mulher a assumir a direção das POM no Brasil. A sua própria trajetória constitui os frutos concretos desse novo tempo na Igreja, sendo que a sua nomeação histórica reflete o caminho de abertura e valorização das mulheres proposto por Francisco. Certamente, é fonte de inspiração para outras lideranças femininas, no intuito de assumirem com coragem e fé papéis decisivos na missão da Igreja.
Enfatiza que Francisco nomeou diversas mulheres para cargos estratégicos no Vaticano e criou espaços de escuta específicos, como os quatro encontros realizados entre as sessões do Sínodo. Estes foram organizados especialmente para ouvir mulheres, reunindo diferentes competências e origens. Elas tiveram a oportunidade de discutir temas variados. O objetivo era, acima de tudo, refletir sobre as contribuições específicas da mulher à Igreja.
Além das escutas e espaços de diálogo, sintetiza a religiosa, o Papa Francisco ainda concretizou avanços institucionais fundamentais, com a nomeações de mulheres para funções antes ocupadas exclusivamente por homens.
Durante seu pontificado, ele indicou leigas e religiosas para cargos de destaque na Cúria Romana, como no Dicastério para os Bispos, na Secretaria para a Economia, e em outras estruturas decisivas do governo da Igreja. Essas nomeações não apenas romperam barreiras históricas, mas sinalizaram um compromisso com uma Igreja mais corresponsável e representativa, onde a liderança das mulheres é reconhecida como essencial para o testemunho do Evangelho no mundo contemporâneo. Por parte de Francisco foi o reconhecimento dos dons que as mulheres oferecem à vida e à missão eclesial (Pedro, 2025).
2.2 Um novo tempo para a escuta e inclusão feminina
Ana Lisboa (2025) assevera colocações anteriores e sublinha alguns pontos, asseverando o quanto as mulheres tiveram voz ativa nas decisões importantes pela primeira vez na história do Vaticano. Cita o exemplo da irmã Nathalie Becquart, que se tornou a primeira mulher com direito a voto no Sínodo dos Bispos. Para a psicanalista, Francisco deu o recado de que a nomeação não era apenas um gesto simbólico, mas a ruptura com o passado e o início de uma nova fase, onde a presença feminina deixava de ser exceção e começava a ganhar status de visibilidade.
Nessa mesma linha, afirma, Francisco também criou comissões para estudar a possibilidade de restaurar o diaconato feminino, permitindo às mulheres prestar serviço às suas comunidades e auxiliar em celebrações, batismos, casamentos, funerais e ações sociais. “Trata-se de uma retomada de discussões há muito enterradas pela tradição eclesiástica”, frisa Lisboa. Também recupera o fato de que mais significativo do que qualquer decisão formal foi o tom emprestado ao assunto por Francisco, no sentido de que o pontífice denunciou abertamente o machismo e o clericalismo, chamou atenção para a exclusão das mulheres nos espaços de poder e não mediu palavras ao dizer “com todas as letras que a Igreja precisa mudar”. Na prática, Francisco destrancou as portas fechadas a séculos para a escuta das mulheres. “E isso, dentro de uma estrutura que historicamente mandava calar, é profundamente transformador”, analisa Lisboa.
Segundo a psicanalista, um dos marcos mais impactantes de seu legado ocorreu em 2023, quando as mulheres, pela primeira vez na história, puderam votar em uma assembleia sinodal. Para Lisboa, o gesto, simples para quem observa de fora, rompeu com uma exclusividade masculina que atravessava séculos.
Em seus discursos e mensagens, ficou claro o quanto Francisco valorizava a sensibilidade, a força e a inteligência emocional das mulheres.
[...]. Ele disse que elas devem estar nos lugares onde as decisões são tomadas — e não apenas em funções de apoio ou serviço. Sua atenção especial a mães solo, refugiadas, mulheres vítimas de violência e em situação de vulnerabilidade mostra que seu olhar vai além da doutrina. É humano. É político. É necessário. Talvez o maior legado de Francisco seja o convite que ele deixa aos próximos papas: o de continuar escutando, de seguir criando espaço, de compreender que a fé não pode caminhar desconectada das realidades humanas. Uma Igreja que silencia metade da humanidade perde sua essência. Quando um líder tem coragem de escutar, ele transforma — não apenas a instituição que lidera, mas a cultura à sua volta. Francisco nos ensinou que escutar uma mulher é um ato de fé, de justiça e de futuro (Lisboa, 2025).
Apesar dos avanços iniciados no papado de Francisco, o caminho ainda é longo e algumas discussões ainda não ganharam relevância, como o sacerdócio feminino. Tornou-se um tabu a partir do momento em que muitos setores da Igreja resistem. Todavia, Francisco conseguiu, pelo menos, plantar uma semente: a semente da escuta, do reconhecimento e da presença. Para Lisboa, “quando uma mulher é finalmente ouvida, ela não volta mais ao silêncio. O que ele começou não pode parar aqui. Porque o mundo mudou — e a Igreja, se quiser caminhar junto, vai ter que continuar ouvindo aquelas que, por tanto tempo, só puderam sussurrar” (Lisboa, 2025).
Inúmeras vezes, o Papa Francisco não cansou de dizer em seus pronunciamentos: “Uma Igreja sem as mulheres é como o Colégio Apostólico sem Maria. A Igreja é feminina, é esposa, é mãe. Gosto também de pensar que a Igreja não é o Igreja, é a Igreja. A Igreja é feminino, é mãe e devemos aprofundar a nossa compreensão disso”. Esta fala aconteceu durante o voo papal de retorno da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) no Rio de Janeiro em 28 de julho de 2013.
2.2.1 Um lugar teológico para as mulheres
Por outro lado, Francisco sempre insistiu na contribuição das mulheres para a reflexão teológica, referindo-se que fazia falta uma teologia feita pela mulher, porque só elas eram capazes de expandir a doçura, o carinho, a ternura da mulher.
A doutora em Teologia Sistemática, Maria Clara Lucchetti Bingemer, foi nomeada pelo Papa Francisco consultora para a Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos. A teóloga conta que conhecia Jorge Mario Bergoglio desde seus tempos de arcebispo de Buenos Aires. Por conta do seu marido, Ekke Bingemer, ser argentino, ela o acompanhava muito em suas viagens quando era diretor para a América Latina da Fundação Porticus. Diz que se recorda de um homem muito sério, que quase não sorria, totalmente diferente do Papa Francisco. “Com Francisco estive umas duas ou três vezes, mas em audiências com bastante gente. Tive a alegria de cumprimentá-lo. Sempre muito simpático e atento. Mas nessas ocasiões não se pode conversar muito. Trocamos poucas palavras”, explica Bingemer (Bingemer, 2025).
Ainda revelando surpresa com a nomeação para o Sínodo, confessa que havia sido sondada um ano antes. Como nada havia acontecido, não se preocupou muito, pois era o final do processo. Maria Clara lembra que estava em Roma, quando recebeu tarde da noite a carta do Papa que anunciaria a nomeação ao meio-dia do dia seguinte. Pedia sigilo antes do anúncio. “O que me impressionou foi a repercussão disso, a quantidade de pessoas que me telefonou, me escreveu”, relata.
O trabalho no grupo foi bom, com teólogos ilustres, e eu a única mulher. Acho que o documento final ficou um pouco aquém do que foi falado nos grupos, mas isso já era de se esperar. Perdeu um pouco a força em vez de falar das mulheres, usar palavras como reciprocidade, etc. Mas pelo menos ali está. E agora há que trabalhar no pós-Sínodo para que a igreja sinodal aconteça mais e mais. Acredito que a maior conquista do pontificado do Papa Francisco em relação às mulheres foi a nomeação de mulheres para cargos de tomada de decisão. Pela primeira vez, vemos mulheres assumindo cargos como secretária de um órgão do Vaticano, como a CAL (Emilce Cuda), ecônoma do Vaticano (Alessandra Esmerili), subsecretária do Sínodo (Nathalie Becquart) (Bingemer, 2025).
Na concepção de Bingemer, a participação no Sínodo da Sinodalidade contribuiu muito para a visibilidade das mulheres na Igreja. Assim, essa não é mais um enorme muro de masculinidade. Maria Clara faz um alerta: o detalhe das nomeações é que todas ou quase todas religiosas são religiosas. Emilce Cuda é exceção assim como Cristiane Murray, que é brasileira e responsável pela Sala Stampa. A partir disso, a pesquisadora entende que canonicamente as religiosas são leigas, mas a imagem apreendida esbarra na contramão de uma inclusão pela metade, destinando-se apenas às mulheres com um vínculo oficial com a instituição. Não vê isso como um problema, embora muitas pessoas não têm a mesma compreensão que ela. No entanto, avalia que essas nomeações abriram um caminho de visibilidade muito positivo e dificilmente haverá volta.
2.2.2 Avanços, desafios, sementes de participação e esperanças para as mulheres na Igreja
Com a morte do Papa Francisco em abril deste ano, ficaram lacunas em relação ao papel que a mulher passaria a exercer na Igreja, se ganharia ou não maior espaço ou mesmo visibilidade, de que forma o novo pontífice trataria da questão. Afinal, havia sinais claros, embora tímidos da participação feminina em cargos de decisão no Vaticano, dado que a maioria das nomeações eram de mulheres ligadas de certa forma à instituição. Entretanto, ainda permaneciam em aberto discussões mais aprofundadas sobre o diaconato e sacerdócio feminino. Francisco havia colocado na mesa, mas o assunto havia se esvaziado. O fato indiscutível é que há pouca representatividade e nomeação de mulheres leigas fora e dentro das estruturas eclesiais. Conhecido o novo papa, Leão XIV, percebe-se que há indícios de manter a mesma linha de Francisco, embora seu sucessor acene com uma postura mais moderada do que Francisco e não parece muito inclinado a resolver essas questões espinhosas tão logo.
O papel da mulher na Igreja Católica ganhou maior visibilidade, sobretudo após os apelos do Papa Francisco para que a Igreja fosse ao encontro das periferias existenciais – a sua exortação apostólica Evangelii Gaudium explora o tema e inclui nessa categoria as marcas deixadas pela desigualdade de gênero, invisibilização e falta de escuta.
Com atuações distintas em suas áreas de pesquisas e práticas eclesiais, também as teólogas brasileiras Ana Beatriz Dias Pinto, Andreia Cristina Serrato e Jaci Souza Candiotto falam abertamente sobre os caminhos possíveis pós-Francisco.
Em sua explanação, Ana Beatriz acredita que o Concílio Vaticano II (1962–1965) foi o marco na história da Igreja, para que o papel da mulher ganhasse nova tonalidade. Conforme a pesquisadora, embora não tenha abordado diretamente uma teologia da mulher, lançou princípios fundamentais para a ampliação de sua participação na vida eclesial. Enumera como um dos principais avanços a inclusão de auditoras leigas no próprio Concílio, algo inédito até então. Mesmo sem direito a voto, essas mulheres foram sinal de reconhecimento da presença feminina na Igreja. Dessa maneira, explica que a constituição dogmática Lumen Gentium abriu caminhos, no sentido de que ofereceu espaços às mulheres para que assumissem com mais legitimidade funções de liderança em conselhos pastorais, ministérios leigos, educação teológica e ações sociais da Igreja. A especialista ainda esclarece que outro importante documento foi a Gaudium et Spes. Essa constituição pastoral, acrescenta ela, colaborou para reflexões mais profundas sobre as injustiças e discriminações sofridas pelas mulheres. Também reconheceu “a necessidade de promover sua dignidade e participação ativa, tanto na sociedade quanto na própria vida eclesial”, assevera, emendando que essa diretriz favoreceu uma maior valorização das mulheres nos espaços pastorais, educacionais e teológicos da Igreja.
Concordando com os argumentos da colega, Andreia Cristina não titubeia ao mencionar que o Vaticano II significou uma “primavera” na vida da Igreja, ainda que seus frutos continuem em “terrenos duros”. Para a teóloga, o Concílio reconheceu a mulher como sujeito eclesial, mas os avanços permanecem somente no campo simbólico. As palavras de Serrato reacendem velhas discussões e advertem para a ideia de que não se trata apenas de abrir espaços, mas de permitir que a voz e a experiência das mulheres ressoem no coração das decisões eclesiais. Infelizmente, essa realidade ainda está longe de ganhar outro status. Contudo, Andreia não deixa passar em branco o papel decisivo das mulheres nas comunidades de base e nas periferias.
Endossando o que as demais mulheres dissecaram sobre o legado do Papa Francisco, Andreia chama atenção para seu estilo pastoral, que salvaguardou a nomeação de mulheres para cargos de liderança na Cúria Romana, a presença de mulheres na criação de comissões para estudar o diaconato feminino e a inclusão feminina com direito a voto nos processos sinodais. Cita que no caso do Sínodo da Sinodalidade as mulheres tinham, em conjunto, poder de decisão, diferente do que havia sido com o Sínodo da Amazônia, onde tinham apenas voz. “Foi o maior feito do Papa Francisco”, recorda (Pinto; Serrato; Candiotto, 2025).
De acordo com Andreia, as decisões de Francisco são proféticas, tendo em vista que sinalizam a possibilidade de romper com estruturas patriarcais e clericalistas que não correspondem à lógica do Evangelho. Além disso, ressalta que para além da representação está a importância do discernimento espiritual. “O Papa Francisco nos ensina que a escuta é ato espiritual e político. Ele nos encoraja a sonhar com uma Igreja de comunhão, participação e missão, onde as mulheres não sejam apenas acolhidas, mas chamadas a decidir”, garante ela (Pinto; Serrato; Candiotto, 2025).
Como mulher que caminha na espiritualidade inaciana, assim como era o carisma do Papa Francisco, Andreia Serrato diz que suas pesquisas teológicas dão conta de que a Igreja começa a reconhecer que a liderança feminina não é apenas desejável, mas indispensável no processo. Todavia, faz a advertência de que “há um longo caminho, pois cargos administrativos não significam plena igualdade, mas já são sinais dos tempos que devem ser lidos com esperança e vigilância crítica” (Pinto; Serrato; Candiotto, 2025).
As afirmações de Andreia Serrato ainda encontram eco, quando a teóloga analisa a importância da abertura ao diaconato feminino. Convicta desse caminho para a Igreja, complementa que “seria um passo coerente com a tradição da Igreja primitiva, até porque já houve mulheres diaconisas”. Quanto ao protagonismo das mulheres na Igreja hoje, ela não tem dúvidas de que é evidente e essencial. E justifica esse pensamento ao elucidar que nas comunidades de base, nas pastorais sociais, na vida litúrgica cotidiana e no cuidado dos pobres são as mulheres que sustentam a vida eclesial. Exemplificando essa situação, afirma que nas periferias vê mulheres que, como Maria de Nazaré, anunciam e denunciam a dor do povo e a transforma em esperança viva. O Sínodo para a Amazônia mostrou isso muito claramente. Muitas mulheres estão presentes nos lugares aonde os padres não chegam (Pinto; Serrato; Candiotto, 2025).
2.2.3 O papel das mulheres a partir da teologia feminista, trabalho em rede e expectativas
As contribuições de Jaci Souza Candiotto abarcam uma leitura crítica e esperançosa sobre o papel das mulheres na Igreja a partir da teologia feminista. A teóloga acentua que é uma teologia contextual, que parte das experiências concretas das mulheres e propõe uma comunidade mais inclusiva e dialogal. Em relação aos desafios, ela se refere à exclusão de espaços decisórios, a resistência ao reconhecimento da autoridade teológica feminina e a sobrecarga pastoral. Superar essas barreiras, segundo a teóloga, exige conversão pastoral e abertura real ao protagonismo feminino, tendo como modelo a figura da Mãe de Jesus para o catolicismo, que é inspiração e força para as mulheres: “Maria legitima a busca por reconhecimento e participação plena na missão da Igreja”, aponta Jaci (Pinto; Serrato; Candiotto, 2025).
No que diz respeito ao futuro da Igreja e do papel das mulheres na teologia, Jaci manifesta otimismo em relação às próximas gerações de mulheres católicas, reiterando o posicionamento crítico, consciência de sua dignidade, preparo teológico e compromisso com a transformação social e eclesial.
Justamente por expressar essa opinião, é que a pesquisadora reafirma que o pontificado de Francisco deixou a marca da escuta sensível, da valorização das mulheres e da denúncia das desigualdades de gênero. Assim como as demais especialistas, Candiotto (2025) destaca que cabe aos próximos papas consolidar esses avanços e garantir estruturas participativas que reflitam a igualdade batismal.
Como exemplo prático de ação, a teóloga cita a atuação da Rede Brasileira de Teólogas (RBT). Esse grupo foi criado com o propósito de promover formação, resistência e produção coletiva em temas ligados à teologia feminista. Além disso, quer apontar caminhos de visibilidade, e articulação de mulheres comprometidas com uma teologia libertadora, inclusiva e transformadora.
Mesmo acreditando nos avanços e mobilização em rede, Ana Beatriz Dias Pinto não deixa de fazer o seguinte contraponto: o respeito aos fundamentos da doutrina da Igreja em qualquer debate sobre o papel das mulheres, recordando que a Igreja é uma instituição milenar. A teóloga chama a atenção para o fato de que Francisco foi firme ao lembrar que a estrutura da Igreja, em sua configuração sacramental, é masculina. Observa que não se trata de exclusão, mas de fidelidade à tradição apostólica. Por isso, ela frisa a distinção entre a legítima ampliação de espaços de atuação e os princípios que pertencem ao depósito da fé. Ainda adverte que a inclusão das mulheres na vida eclesial precisa de diálogo respeitoso, em comunhão com o Magistério da Igreja. “Para sermos verdadeiramente um Corpo, todas as partes precisam estar integradas – cada uma segundo seu ministério e vocação, em unidade”, conclui.
Para as três pesquisadoras, a expectativa é que o novo pontífice dê sequência ao processo de escuta, discernimento e abertura pastoral iniciado por Francisco. Também que se volte a aprofundar os caminhos de uma Igreja mais sinodal e que valorize mais as mulheres.
Considerações finais
O objetivo desse artigo não é de forma alguma apresentar fórmulas prontas, mas, acima de tudo, afirmar, sem preâmbulos, que o Papa Francisco deixa um legado de maior inclusão e representatividade para as mulheres na Igreja Católica. Nesse sentido, houve a nomeação de mulheres para cargos de liderança no Vaticano e outras instituições da Cúria Romana, a valorização do seu papel na sociedade e a promoção do diálogo sobre questões femininas. Apesar de não encontrar uma solução para romper com a quebra de braço contra a tradição do sacerdócio feminino, seu pontificado abriu espaço para discussões e ações que visam à participação feminina em diversas áreas da Igreja.
A partir de minhas próprias inquietações e do fato de também fazer parte da Rede Brasileira de Teólogas, reitera-se, aqui neste texto, o compromisso de dizer que o silenciamento das mulheres que permanece arraigado na história da Igreja por quase dois milênios ainda permanece como um capítulo não encerrado, embora existam sinais de esperança e abertura a partir do que propôs Francisco. Pretende-se dizer que o discipulado de iguais pode e deve ganhar novos ares nas relações eclesiais, um “primeirear” como costumava dizer o Santo Padre.
Aliás, falar do discipulado de iguais atenta-se para a constituição dogmática Lumen Gentium. Este documento do Concílio Ecumênico Vaticano II, a partir de um resgate antropológico, indicou a mesma dignidade de homens e mulheres em uma perspectiva eclesiológica de Igreja Povo de Deus, “onde todos os batizados são chamados ao mesmo seguimento de Jesus – aspectos relevantes para se pensar a situação das mulheres nos tempos atuais” (Santinon, 2023, p. 97).
Passados 18 anos, o próprio Documento de Aparecida (2007), que é texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, e suscita a participação plena e decisória das mulheres na vida da Igreja ainda não foi colocado em prática. Talvez os entraves estejam justamente na resistência de grupos contrários às mudanças conciliares e pelas interferências de que tanto lutou Francisco. Estas interferências impedem os avanços.
Uma voz constante na luta pela igualdade de gênero na atualidade, Ivenise Santinon (2023) reforça essa reflexão ao mencionar que mesmo o apoio do Papa Francisco foi insuficiente para a presença feminina legítima e relevante para a vida da Igreja. Segundo a teóloga, os retrocessos em parte da Igreja dificultam “a emancipação eclesial feminina e um consequente discipulado de iguais” (2023, p. 97), conforme já destacou no final do último século a teóloga Elisabeth Fiorenza (1995).
Nesse escrito, procuramos mostrar que o Papa Francisco chamou as mulheres para perto das estruturas eclesiais e mais do que isso: convidou-as para as discussões e soube ouvi-las. Além disso, fomentou a participação feminina, como foi o caso de direito a voto no Sínodo da Sinodalidade. A presidente do Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB), Sônia Oliveira, esteve em Roma e falou em nome dos leigos, e mais do que isso: esteve com Francisco, próxima ao pontífice nas sessões do Sínodo.
Mesmo que não tenha promovido uma mudança radical na estrutura da Igreja, o pontífice expressou claro interesse na inclusão e na valorização das mulheres, abrindo caminho para futuras transformações e deixando um legado de esperança e diálogo. Infelizmente, deixou para trás ações mais concretas para desengavetar o diaconato feminino, um cargo que já existiu na Igreja primitiva. Talvez, Francisco tenha ficado receoso de avançar nesse campo, indo contra as resistências e preferiu apenas formar as comissões de estudo. Entretanto, o Papa Francisco soube destacar a capacidade de liderança das mulheres, o cuidado e contribuição para a paz e o desenvolvimento.
Por outro lado, Francisco não se calou diante das injustiças e defendeu a igualdade de gênero em diversos discursos e documentos, condenando a violência contra as mulheres e pedindo o fim da discriminação. Em seu pontificado, ganhou destaque o diálogo sobre temas como o aborto, a educação sexual, o divórcio e o combate à violência de gênero. Esses temas tradicionalmente eram abordados com menos abertura na Igreja. Também incentivou as mães a amamentarem seus filhos em público. Com isso, demonstrava uma preocupação com o bem-estar das mulheres e das crianças.
Enfim, comungando com as palavras da também teóloga Andreia Cristina Serrato, ouso repetir que as ações do Papa Francisco sempre foram assumidamente proféticas, porque tinham um único objetivo: expurgar claramente o mofo do pré-Concílio Vaticano II de grupos mais conservadores da Igreja, extinguir o patriarcalismo e o clericalismo, rompendo com estruturas que vão na contramão com a lógica do Evangelho. Por último, percebe-se que há algum tempo a Igreja Católica se deu conta de que a liderança feminina não é simplesmente desejável, mas necessária à vida eclesial.
REFERÊNCIAS
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