A ESPERANÇA NÃO FICA NA SALA DE ESPERA

DOI: https://doi.org/10.52451/n1yba927

Recebido em: 10 de março de 2025.

Aprovado em : 06 de junho de 2025.

Itacir Brassiani

Graduado em Filosofia pela Universidade de Passo Fundo (1982), Teologia pelo Instituto Missioneiro de Teologia de Santo Ângelo (1987) e mestrado em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em Belo Horizonte (1991). Atualmente é bispo de Santa Cruz do Sul. E-mail: itacirmsf@gmail.com; Orcid:

O Papa Francisco convocou os cristãos à celebração de um jubileu da esperança num tempo muito particular: tempo marcado pelas feridas e questionamentos provocados pela Covid-19; tempo envolto em sombras provocadas por uma crise climática e ambiental que pode acabar com a espécie humana; tempo de ilusões de um otimismo fácil e barato veiculado nas telas e vendido nos shoppings; tempo no qual o secularismo, anunciado e vivido como estágio superior da civilização ocidental, vai sendo corroído por uma efervescência religiosa anarquista e fundamentalista.

Trata-se de um momento histórico e cultural que não dá boas vindas nem concede cidadania a grandes utopias, a uma esperança fundamental capaz de ver longe e mover montanhas. A onda do momento é renunciar aos grandes relatos e contentar-se com voos rasantes, com as pequenas conquistas individuais, com a segurança dos guetos fechados, com o consumo de bens com data de vencimento, com a satisfação intensa e momentânea. Diz-se que o tempo é curto e passa, e, por isso, é preciso aproveitar tudo o que é possível e ao máximo. O amanhã e os outros fica para amanhã e para os outros.

1. reanimar, fundamentar e plantar sinais

É este contexto no qual vivemos que denota a relevância de um jubileu da esperança. Conosco, o Papa Francisco percebe que todos vivemos de esperança, que no íntimo mais profundo de cada pessoa se aninha a esperança como uma espécie de desejo ou expectativa do bem, mesmo que não saibamos o que o amanhã nos reserva. Mas, na condição humana concreta, misturam-se confiança e medo, serenidade e desânimo, certeza e dúvida, engajamento e indiferença. Em situações mais extremas, olhamos para o futuro temendo que ele não nos reserve nada de bom.

Daqui brota o objetivo da convocação do Ano Jubilar: ele é proposto como uma ocasião para reanimar e encontrar fundamentos para uma esperança realista e fecunda. Esta esperança tem suas raízes no próprio DNA da humanidade e, para os cristãos, nasce do amor e funda-se no amor de um Deus que se deixa despojar por amor na cruz. Fé, Esperança e Caridade são os três tentos que perfazem a corda na qual está fixada a âncora da vida. Na vida concreta há alegrias e sofrimentos, o amor é posto à prova e a esperança parece desmoronar diante do sofrimento. Então, viver é esperar contra toda esperança.

Mas o Ano Jubilar não pode ser apenas ocasião para realizar eventos grandiosos e massivos, para dar novos contornos a uma velha mensagem, dar novo rótulo a um velho modo de viver. O que se deseja é que, ancorados em Jesus Cristo e dinamizados por uma esperança que não engana, semeemos sinais eloquentes de esperança, especialmente para os pobres e as vítimas, para as crianças e os idosos, para os jovens e os migrantes, para os encarcerados e os doentes. Gritam por sinais concretos de esperança os povos em guerras e conflitos e o meio ambiente ferido de morte.

2. Não às esperanças pequenas e fugazes

As esperanças de fôlego curto sobrevivem e se multiplicam: conseguir uma vaga na faculdade; conseguir um bom contrato de trabalho; casar e constituir uma família; conquistar a casa própria; alcançar uma razoável estabilidade econômica e assegurar boas perspectivas para a família; viajar e conhecer outros povos e culturas; manter boas condições de saúde e chegar a uma vida longa. São esperanças pequenas, tão numerosas quanto curtas, tão atraentes quanto fugazes, tão prazerosas quanto egoístas. Nos levam apenas até a sala de espera do consultório, mas não nos asseguram a saúde.

Estas esperanças não gozam de força capaz de mover a vida e remover montanhas. A Esperança que pode mover a história pessoal e coletiva é aquela que nos leva a levantar os olhos, abrir o coração e estender as mãos para além daquilo que tocamos e consumimos; para além da meia anoite de hoje ou da breve vida útil; muito mais além que a parede do apartamento ou o muro da casa. A esperança que move, comove e promove a humanidade é aquela que tem força para resistir à falta de resultados concretos, aquela que desborda nossos projetos datados e circunscritos a um calendário curto e a interesses mesquinhos.

3. Um outro mundo é possível!?

Há 25 anos atrás, Porto Alegre foi ocupado por milhares de homens e mulheres peregrinos de esperança vindos de todos os cantos do mundo. Naquela virada de século e de milênio, a esperança que sustenta e homenageia a vida parecia ao alcance da mão. Essa esperança foi afirmada, cantada, escrita, anunciada e ensaiada: Um outro mundo é possível! Foi um tempo de otimismo e euforia, mesmo que, para a maioria dos forâneos, um mundo diferente permanecia mais necessário que possível, mais inspiração que ação, mais busca que conquista. Teria sido uma ilusão passageira?

Creio que não, e a proposta do Papa Francisco e da Igreja resgata este “evangelho” social. Entendo que a afirmação paulina de que “a esperança não engana” diz respeito também àquilo que moveu as várias edições e formatos do Fórum Social Mundial: “Um outro mundo é possível!” Sem essa esperança robusta e utópica, o que nos restaria é cada um salvar-se a si mesmo, bem ao modo do princípio de “quem pode mais, chora menos”. Se essa Esperança, mesmo que suas realizações tardem demais e sejam muito limitadas, a vida seria um passatempo vazio ou um fardo insuportável.

4. Peregrinos em busca da terra sem males

Nossos povos originários esperavam e buscavam uma “terra sem males”. Essa era a raiz do seu nomadismo. O povo hebreu viveu, caminhou e lutou guiado pela promessa de uma “terra onde corre leite e mel”, e nenhum êxodo, exílio ou monarquia foi capaz de eliminar esta força mobilizadora e desestabilizadora. Deixar de buscar a terra sem males ou a terra onde corre leite e mel significa, para indígenas latino-americanos e hebreus, renunciar ao sentido da vida e fazer da vida um passa tempo ou um tempo que passa. Ser peregrino de esperança equivale a ser humano, um modo concreto de honrar a Deus.

Ao mesmo tempo em que essa grande Esperança engaja, congrega e multiplica as forças de um povo, ela também estabelece a provisoriedade de todas as realizações e conquistas. Como Abraão, não temos aqui morada permanente, e buscamos uma outra pátria. Como Pedro, buscamos novos céus e nova terra, na qual habita a justiça. Como Jesus, fazemos do Reino e de Deus e da sua justiça o horizonte absoluto da nossa vida, o tesouro em troca do qual relativizamos tudo. Nossa pátria é o Reino de Deus, e é desse reino que somos cidadãos. É dele que recebemos o passaporte que nos torna peregrinos.

5. Passos lentos e pequenas concretizações

Para fazer-nos peregrinos precisamos dar passos, mesmo que sejam lentos, pequenos e localizados. O espaço no qual a maioria de nós se move é o espaço eclesial. É um espaço limitado, não representa o todo da vida e da religião, mas tem sua importância. Nossas comunidades, organismos e iniciativas pastorais e evangelizadoras precisam ser fecundadas pela esperança, ter meios para diagnosticar os sinais de esperança que se escondem nas pessoas e no mundo, ter disposição para dialogar com elas e dispor da ousadia de propor-lhes a esperança que os guia e mobiliza.

E a primeira coisa a fazer é evitar enganos e renunciar aos refúgios e atalhos que costumam se apresentar como tentações: cair no erro de pensar que “nosso mundo” é a Igreja, e de que não temos nada a fazer no “mundo imundo”; refugiar-se nos espiritualismos e intimismos, como se o Reino de Deus não tivesse uma irrenunciável dimensão social e transformadora; atalhos como aquele de sempre partir dos sacramentos e deixar o anúncio do Evangelho para mais tarde ou para nunca. Também nisso, Jesus Cristo é caminho e referência irrenunciável.

Entre estes passos lentos e pequenos está também as múltiplas e necessárias iniciativas capazes de dar à Igreja – uma velha senhora que caminha vergada sob séculos de existência, estruturas às vezes capengas e sucessivas roupagens culturais – um sopro de renovação e jovialidade. Uma Igreja acolhedora, marcada por relações igualitárias, amante do pluralismo, samaritana no serviço, em saída às periferias e solidária com os últimos da escala social é um sinal concreto de uma Esperança que não engana. Quem entra pelas suas portas toca a esperança com as mãos, e quem sai pelas suas portas transpira e partilha a Esperança do Reino de Deus.

A Esperança não engana, nem nos mantém passivos numa sala de espera. Nos meus tempos de jovem cantávamos: “Amadurece a cada instante uma esperança de um mundo novo povoado de irmãos. Se você pode acreditar, comece agora, e não tenha medo de ser livre até o fim”. Quem crê na Esperança se torna peregrino, começa agora, não espera o tempo passar. Um outro mundo é possível e necessário. Mas essa esperança precisa se transformar em agenda diária, em projeto de vida, em caminho pastoral, em estruturas e processos eclesiais e sociais. Sem isso, a Esperança morrerá antes de nascer.