Ecologia Integral: Conversão à fraternidade universal
Aula Inaugural Itepa Faculdades 26 de fevereiro de 2025
https://doi.org/10.52451/adcxeg11
Recebido em: 05 de Janeiro de 2025
Aprovado em 15 de março de 2025
Bacharel em filosofia e pedagogia pela Faculdade Salesiana de Lorena (SP), concluiu estudos em teologia no convento de Petrópolis (RJ) e obteve doutorado em filosofia pela Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma, onde também lecionou e atuou como secretário. Desde 2020, é arcebispo de Manaus, sendo elevado a cardeal em 2022, o primeiro da Amazônia brasileira. E-mail: arcebispado@arquidiocesedemanaus.org.br
Saúdo o corpo discente, os coordenadores de pastoral e demais presentes, os professores, Pe. Ivanir Antônio Rampon, Diretor da ITEPA Faculdades, Pe. Ivanir Antônio Rodighero, Coordenador do Bacharelado em Teologia, irmãos no episcopado.
A tarefa que me foi entregue é a ecologia integral, na tentativa de elucidar a realidade a ser meditada, discutida e rezada no tempo da quaresma com a Campanha da Fraternidade do presente ano. Como a realidade a ser abordada é ampla e apesar da ecológica ainda ser contestada, tentarei, como como itinerário: algumas pro-vocações, horizonte de leitura, o estudo, o esvair-se da ética, e a conversão ecológica. Como fundo iluminador teremos a Encíclica Laudato Sì.
Como sabemos a palavra ecologia vem do grego oikos, que significa “casa”, e logos, que significa “palavra”, “estudo”. A fala da casa, a Casa que vem à fala. O termo foi criado em 1866 pelo biólogo e zoólogo alemão Ernst Haeckel. Provavelmente serviu de inspiração para o horizonte de Casa Comum da Encíclica Laudato Sì.
A palavra integridade provém do latim integrĭtas, que significa “qualidade de íntegro”. Integridade: completo, intacto, íntegro, inteiro. Ecologia integral a fala, a narrativa que traz à luz, ilumina, a casa em que habitamos, ou que deveríamos habitar respeitando todos os seres. Integral: no seu todo, na totalidade, uma casa que seja comum. Mas habitar como cuidado e cultivo, segundo a Laudato Sì.
1. Pro-vocações
Tuvalu é uma pequena nação da Oceania, formada por 124 ilhas de coral. Atualmente, o país enfrenta o desaparecer no futuro, não ser mais habitável pelo aumento do nível dos oceanos. O aumento do nível dos mares, causado pelas mudanças climáticas, está engolindo as ilhas.
O que fazer para combater esta ameaça existencial? Construir muralhas junto ao mar? Tentar recuperar terreno do oceano? Mudar toda a população de lugar? Todas estas soluções têm sido analisadas também por outras pequenas nações insulares que enfrentam problemas parecidos dos tuvaluanos. Mas Tuvalu está um passo à frente dos demais na sua tentativa de preservar sua terra e suas tradições nacionais.
Frente à possibilidade de que sua realidade física seja tragada pelo oceano, o governo local está construindo uma cópia digital do país – um backup de tudo, desde as residências até as suas praias e árvores, desejam preservar a memória de um povo de uma cultura. Não é o único país em perigo. A realidade dos tuvaluanos parece não nos atingir. Talvez tenhamos acordado por um momento com as chuvas que atingiram o Rio Grande recentemente.
Ilhas de plástico são regiões no meio do mar que concentram tanto plástico flutuante, que gera a impressão de como se ali existisse, de fato, uma ilha de terra firme debaixo de todo esse lixo. Até o momento, existem cinco destas chamadas ilhas de plástico registradas na literatura científica: uma no Oceano Índico, duas no Oceano Pacífico e duas no Oceano Atlântico. Elas são formadas principalmente devido ao fluxo das correntes marítimas circulares, que carregam os resíduos e os aprisionam mais ou menos sempre no mesmo ponto. A quantidade de resíduos, e portanto, a dimensão das ilhas, aumentam exponencialmente a cada ano.
Uma das ilhas de plástico existentes no Oceano Pacífico é tão grande que já é chamada de “o 7º continente do globo terrestre”, atingindo mais de 80 mil toneladas de plástico acumulados, com locais com mais de 10m de profundidade, em uma extensão de mais de 1,6 milhão de metros quadrados (o equivalente à extensão da região nordeste do Brasil), levando-se até sete dias para atravessá-la a barco.
Pesquisas recentes mostram que as ilhas de plástico têm se tornado um ecossistema inédito, onde espécies, até então costeiras, fixam território. Muitos animais utilizam os plásticos para suas atividades diárias, como apoio para ninhos ou esconderijos. A criação de um novo ecossistema ou esses usos dos plásticos que, a princípio, podem parecer algo bom, em longo prazo podem causar um desequilíbrio ambiental de proporções ainda nem mesmo calculadas (https://www.bioicos.org.br).
Deterioração da qualidade de vida humana e degradação social. Existe uma relação entre a degradação ambiental, do modelo atual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas. Percebe-se o crescimento desmedido e descontrolado de muitas cidades que se tornaram pouco saudáveis para viver, devido não só à poluição proveniente de emissões tóxicas, mas também ao caos urbano, aos problemas de transporte e à poluição visual e acústica. Muitas cidades são grandes estruturas que não funcionam, gastando energia e água em excesso. Há bairros que, embora construídos recentemente, apresentam-se congestionados e desordenados, sem espaços verdes e de lazer suficientes. Não é humanamente digno as pessoas viverem mais submersas no cimento, asfalto, vidro e metais, privadas do contacto físico com a natureza.
Lugares rurais e urbanos, onde a privatização dos espaços impossibilitou o acesso dos cidadãos a áreas de especial beleza; noutros, criaram-se áreas residenciais “ecológicas” postas à disposição só de poucos, procurando-se evitar que outros entrem para perturbar uma tranquilidade artificial. Muitas vezes encontra-se uma cidade bela e cheia de espaços verdes e bem cuidados nalgumas áreas “seguras”, mas não em áreas menos visíveis, onde vivem os descartados da sociedade.
São alguns sinais que indicam como o crescimento nos últimos dois séculos não significou, em todos os seus aspectos, um verdadeiro progresso integral e uma melhoria da qualidade de vida. Alguns destes sinais são ao mesmo tempo sintomas duma verdadeira degradação social, duma silenciosa ruptura dos vínculos de integração e comunhão social, de relação com o meio ambiente (LS 44-46). Uma relação que necessita conversão, conversão ecológica. A realidade a ser refletida, discutida e rezada na quaresma tem a sua urgência: fraternidade e ecologia integral.
2. O horizonte a ser seguido
Na Laudato Sì, Papa Francisco faz um convite à reflexão na tentativa de despertar a humanidade para o cuidado da Terra. “Lanço um convite urgente a renovar o diálogo sobre a maneira como estamos a construir o futuro do planeta. Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental, que vivemos, e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós. O movimento ecológico mundial já percorreu um longo e rico caminho, tendo gerado numerosas agregações de cidadãos que ajudaram na conscientização. Infelizmente, muitos esforços na busca de soluções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência, frustrados não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros. As atitudes que dificultam os caminhos de solução, mesmo entre os crentes, vão da negação do problema à indiferença, à resignação acomodada ou à confiança cega nas soluções técnicas. Precisamos de nova solidariedade universal. São necessários os talentos e o envolvimento de todos para reparar o dano causado pelos humanos sobre a criação de Deus. Todos podemos colaborar, como instrumentos de Deus, no cuidado da criação, cada um a partir da sua cultura, experiência, iniciativas e capacidades (LS, nº 14).
Nesse sentido, recordemos as palavras de Romano Guardini que Papa Francisco acolheu no discurso do Encontro com o mundo universitário e da cultura em Budapest em 2023. Diante da paisagem deslumbrante do lago de Cuomo, Romano Guardini teve uma intuição: “Nestes dias, compreendi melhor do que nunca que há duas formas de conhecimento (...), uma leva a mergulhar no objeto e seu contexto, de modo que o homem que deseja conhecer procura viver nele; a outra, pelo contrário, reúne as coisas, decompõe-nas, ordena-as em alíneas, adquire perícia e posse delas, domina-as” (Cartas do Lago de Como. A tecnologia e o homem, Brescia, 2022). Ele distingue entre um conhecimento humilde e relacional, que é como “um reinado que se obtém por meio do serviço; uma criação conforme a natureza, que não ultrapassa os limites estabelecidos”, e a outra modalidade de saber que “não observa, mas analisa (...), já não se imerge no objeto, mas o agarra, domina e destrói.
O segundo modo de conhecer, fazem as energias e as substâncias convergirem para um único fim: a máquina, desenvolvendo uma tecnologia da submissão do ser vivo, mas também para o econômico, o lucro. A tecnologia permite viver melhor, comunicar e ter muitas vantagens, mas alerta para o risco de ela se tornar reguladora, se não dominadora, da vida, se torne um modo de pensar que domine as relações humanas. O grande perigo: “O homem perde todos os laços interiores que lhe conferem um sentido orgânico da medida e das formas de expressão em harmonia com a natureza” e, “enquanto no seu ser interior fica sem contornos, sem medida, sem direção, ele estabelece arbitrariamente os seus fins e constringe as forças da natureza, por ele dominadas, a realizá-los” (Idem). E deixava uma pergunta inquietante: Que será da vida, se ela acabar sob este jugo? Que acontecerá, quando nos encontrarmos perante o prevalecer dos imperativos da tecnologia? A vida, então, fica enquadrada num sistema de máquinas. Num tal sistema, pode a vida permanecer vivível?
O vislumbrado por Guardini, tornou-se evidente na crise ecológica, pois a natureza está a reagir ao uso instrumental que dela fazemos. Em relação à natureza carecemos de limites. Entramos na lógica do: se pode ser feito, é lícito. Vemo-los e experimentamos na Amazônia e em outras realidades. Papa Francisco diante das intuições de Guardini, ensina: pensemos também na vontade de colocar no centro de tudo, não a pessoa e as suas relações, mas o indivíduo centrado nas suas próprias necessidades, ávido de lucros e voraz no aferrar a realidade. E pensemos depois na erosão dos laços comunitários, pelo que a solidão e o medo parecem transformar-se, de condições existenciais, em condições sociais. Quantos indivíduos isolados – muita rede social, mas pouco sociais – recorrem, como num círculo vicioso, às consolações da tecnologia para preencher o vazio que sentem, correndo de forma ainda mais frenética, enquanto, súcubos dum capitalismo selvagem, sentem como mais dolorosas as suas fragilidades, numa sociedade onde a velocidade exterior anda de mãos dadas com a fragilidade interior. Não quero, com isto, gerar pessimismo – seria contrário à fé que tenho a alegria de professar –, mas refletir sobre esta petulância de ser e ter, que já nos alvores da cultura europeia, Homero via como ameaçadora e que o paradigma tecnocrático exacerba, com um certo uso dos algoritmos que pode representar mais um risco de desestabilização do humano (cf. Papa Francisco, Encontro com o mundo universitário e da cultura, Budapest).
A chamada inteligência artificial, vem demonstrar como o pensar tem se caracterizado pela máquina, ou como afirmava Heidegger em Gelassenheit, pelo pensar calculante. “É um tipo de pensar que não expressa a dimensão ontológica da afetividade; que não mantém a conexão humana com a terra e sua atmosfera de convivência; e que não espera para conhecer a essência de algo, pois sempre espera tomar algo dos entes e da natureza para seu consumo, afirma Ana Carla de Abreu Siqueira, ao distinguir entre pensamento calculador e pensamento meditativo na Filosofia tardia de Martin Heidegger.1 E hoje estamos a lidar com a chamada inteligência artificial. As informações que fornecemos à máquina são tantas, que afirmamos o que ela não tem: inteligência. Como sairmos desse círculo onde nos encontramos, como tornar o espaço humano o espaço do pensamento meditativo (Heidegger, M., Gelassenheit), reflexões próprias do humano? Despertar para o humano do humano, pois Deus mesmo fez-se carne e veio armar sua tenda entre nós? Como habitar a Casa Comum, num contexto de dominação, destruição, de mercado, para poder exclamar “Deus viu que tudo era muito bom”!?
3. Estudo im-porta2
Nos encontramos numa faculdade, no meio da universidade. É onde movemos e impostamos o nosso existir como anúncio do Reino de Deus, e no caso de vários de nós, o ministério presbiteral. O que nos move é o estudo. Importa o estudo! In-portar como conduzir, portar, levar para dentro, para o fundo, para o âmago; decisivo para intuir a ecologia integral como parte da evangelização.
O tempo que estamos a viver tem sua exigência própria, a ecologia integral exige a busca do humano na sua raiz, o sentido do todo da obra criada. Essa exigência passa hoje pelo estudo. O conhecimento ou os conhecimentos adquiridos pressupõem longo e grande trabalho de aplicação na sua aquisição. A palavra latina studium indica esse esforço de aplicação, e significa empenho, dedicação ao trabalho. Studium vem do verbo studeo, studui, studere que explicita: empreendo, me aplico a, me empenho, livremente me engajo a, assumidamente me esforço e trabalho para3.
Trata-se, pois, de um esforço, no qual é dinamizado o que caracterizamos como aplicação, diligência, engajamento, no cuidado de se perfazer no que se busca e no que se trabalha. É, portanto, um trabalho, no qual o que se busca, a meta implica, diz respeito ao despertar, crescer e consumar-se no ser de quem se empenha, isto é, na sua identidade. Refere-se a um trabalho querido e assumido livremente como fomento e exercício da própria realização enquanto existência humana, livre. Esse tipo de trabalho, na antiguidade grega se denominava skholé, donde vem a nossa palavra escola.
Skholé hoje significa ócio, estar livre de negócios, tempo livre, lazer. Em latim se diz então otium. O contrário do otium é nec-otium (non-otium), donde vem a palavra negócio. Skholé vem do verbo skhein, ekhó, e significa propriamente ater-se, estar no vigor da atinência. Portanto, originariamente tanto skholé como otium não se referem nem à folga da ociosidade, nem ao descanso, mas sim ao modo de trabalho intenso de engajamento no crescimento da autoidentidade não obrigado de fora, não escravizado por lucro, medo, ganância, ou poder dominador do outro, mas livremente, assumido como exercício da criatividade humana na autonomia da sua liberdade. Esse modo de trabalhar mais tarde deu origem ao trabalho criativo das assim chamadas profissões livres, e caracterizou no Ocidente o vigor e a força dos estudos universitários na construção da humanidade livre, universal. Esse modo de ser é o que está no fundo de todo o elã da existência científica de hoje, mesmo que na sua realização haja defasagens e desvios, esquecimentos da compreensão essencial do que seja a vigência das ciências.
3.1. O estudo como busca da identidade humana
O estudo como a ação de engajamento para o despertar, crescer e consumar-se da humanidade é dever e direito de todo pessoa livre, responsável pela tarefa de contribuir para a construção da humanidade livre e universal. Esse modo de empenhar-se pelo ser do homem se chama busca da identidade humana. E o que chamamos de cristão jamais pode estar alienado da participação desse empenho, portanto, do estudo de engajamento pela identidade humana. Aliás, a vocação cristã não é outra coisa do que uma busca apaixonada da excelência do ser-humano, como ideal da humanidade livre e universal, aprofundada, assumida e agilizada por Jesus Cristo e muitos seguidores, ideal e anelo de todas as pessoas de boa vontade, através de variegadas e diferentes atividades e ações.
A nossa identidade cristã, hoje, não consiste tanto em seguir esta ou aquela mundividência historiograficamente padronizada, mas sim em ir ao fundo da nossa herança viva espiritual e no âmago do espírito do Evangelho descobrir a paixão da busca pela verdade do ser da identidade humana, que pulsava, por exemplo nos grandes pensadores da idade média, e assim dispostos, abrir-nos à busca da excelência4 do ser da humanidade, que pulsa no coração, isto é, no subterrâneo da nossa modernidade, hoje como estudos, pesquisas e investigações das ciências, da filosofia e da teologia.
3.2. Do estudo acadêmico na vida.
O termo vida aqui não indica apenas os seus afazeres cotidianos, encargos sociais civis, clericais e religiosos, suas necessidades, mas, em primeiro lugar, o modo de ser como e com que espírito encara, dinamiza, assume e dá sentido a todos esses afazeres que podem facilmente se instalar em rotinas, executadas mecânica e indiferentemente, sem nada aprofundar e pesquisar. Vida, aqui, significa projeto de vida, o sentido da existência de cada um de nós enquanto identidade e missão do ser hoje. O modo de ser do cristão, o crístico!
A importância do estudo acadêmico, consiste hoje precisamente em engajar-se de corpo e alma no estudo acadêmico, visando adquirir a dinâmica da busca apaixonada pela verdade, busca essa que foi o toque originário que deslanchou o élan do saber científico. E nessa busca deixar-se cunhar pelo modo de ser do saber científico, formando o seu caráter intelectual na disciplina, no rigor do pensar, na transparência e autenticidade da hombridade intelectual, na constante e bem impostada crítica contra todo e qualquer pré-conceito e dogmatismo, e abrir-se à intrepidez da criatividade na pesquisa e investigação da verdade, na disposição cordial da espera do inesperado. Esse engajamento ou inserção no estudo, isto é, no empenho da existência científica deve nos importar, hoje, como participação na tarefa confiada à humanidade hodierna por Deus através da história. Assim exercitado e preparado pelo vigor do mundo do saber científico, importa capacitar-se a retomar o modo de ser do empenho no trabalho, exigido por nossa vocação e missão da identidade cristã; o rigor e a precisão disposta do seguimento de Jesus Cristo.
É algo inteiramente diferente, compreender e exercer o ser cristão hoje, através de gostos pessoais e particulares, através de modismos, devoções e certos modos do trabalho pastoral para realização pessoal ou grupal e compreender e assumir o trabalho da realização e da busca da identidade e missão de ser cristão hoje, importando-nos, isto é, conduzindo-nos para dentro da dinâmica que pulsa e atua no interior da nossa epocalidade como tarefa e responsabilidade da humanidade de hoje.
A importância do estudo acadêmico na nossa vida, consiste em renovar nossa mente, nosso coração, fazendo renascer em nós o entusiasmo dos jovens das origens, que, impregnados pelo amor, dispostos a seguir a dinâmica e o élan, portanto, o studium de um Deus Encarnado, a saber, o studium do Jesus Crucificado-ressuscitado, invadiram as universidades medievais de Oxford, Paris, Bolonha, não para buscar poder e honrarias pessoais, mas para se prepararem real e devidamente para o serviço de toda a humana criatura, nas fronteiras e nos lugares mais necessitados da humanidade.
4. O habitar, a ética
A crise ecológica é a crise do habitar, a crise da ética. “Vivemos hoje não uma crise ética, nem uma crise da ética, mas a crise da ética”5. Princípios, fins, valores, dignidades e virtudes, tudo aquilo que a humanidade ocidental, há vinte e cinco séculos, erigiu como fios condutores para tecer a vida humana em sua historicidade, sofreram uma imensa perda de valência histórica. A ética, que foi o sustentáculo de tudo por milênios, vai sendo engolida pelo acontecer histórico dos últimos séculos. Com esse desmoronar, vão juntas outras dimensões da vida prática do ser humano, outrora abrigadas sob a proteção da ética, tais como a política e o direito, a educação e a religião. A única dimensão prática da vida humana que parece se impor com todo o vigor é a economia.
No campo da ação cotidiana o ser humano sofre uma imensa pressão que o compele a reduzir todos os parâmetros de seu agir aos critérios do interesse e da utilidade pragmática. Os valores que valem efetivamente acabam sendo os econômicos e somente a partir deles é que se medem os valores éticos, estéticos e religiosos. Já não há mais infra e superestrutura. Arte, moral, política, direito, educação, religião, tudo se fragmenta. O ente metafísico que tudo sustenta já não é o estado ou a sociedade, mas o mercado, na dinâmica de um novo capitalismo, o globalizado. Renuncia-se à universalidade do saber e à pretensão de formação do ser humano em sua integralidade. Em meio ao domínio da política única, da economia única e do “pensamento” único, haverá ainda possibilidade de criação? Pode-se encontrar, nesta crise, o caminho para o homem humano acontecer? Espaço para refletir a ecologia integral?
Quase tudo se torna uma questão de produção e de consumo. Entretanto, podem-se reprimir as perguntas mais radicais, que tocam de cheio o ser humano no mais íntimo e na radicalidade de sua existência e historicidade? Em meio a toda esta conjuntura, surgem problemas de ordem ética, relacionados com a ciência e a técnica, com o meio-ambiente, com os problemas econômicos, sociais e políticos, com o pluralismo cultural e com a diversidade religiosa.
Vai ficando patente que o habitar humano sobre a terra não pode se dar com base em parâmetros puramente científicos e técnicos. Muito conhecimento ainda não é saber. Muita ciência e muito poder sobre o real está longe de dar ao homem a compreensão apropriada, o pertencimento, no relacionamento com o seu ethos, isto é, com sua morada. O homem contemporâneo, que se arroga a capacidade de dominar e explorar a terra e o céu, acaba se encontrando a si mesmo como um errante, um prófugo, um sem morada. O desenraizamento é o seu modo de viver habitual. A noite do ser expande suas sombras sobre os povos do planeta. Ela é também a noite do divino.
E, no entanto, este momento, em que se recolhem e se findam as potências históricas que sustentaram a destinação ocidental há dois milênios e meio, é cheio de mistério. É, talvez, hoje o momento da passagem6. É a hora da preparação para um outro principiar, que convida à constituição do homem humano, a partir da morada no mistério do ser. O mistério do ser é, para o homem vindouro, que somos chamados a ser hoje, como uma fonte que brota no deserto da desolação planetária. Ele é o chão e a raiz do homem humano. Mas, onde encontrar esta fonte, este chão, esta raiz para a existência histórica do homem, para que ele se essencialize, ou seja, se torne o que ele é?
A ética, na tradição do ocidente, se firmou como o saber concernente ao bem-viver e ao bem-agir do homem, nos seus relacionamentos com o ser de tudo o que está sendo, tanto com o ser que ele mesmo não é, quanto com o ser que ele mesmo é; e, neste sentido, tanto no relacionamento consigo mesmo como outro, quanto no relacionamento com o outro enquanto tal. Para o homem, ser é viver, a partir da dinâmica da liberdade, isto é, da autorresponsabilização. E este viver é, antes de tudo, ação, (práxis). A ética é um saber da ação, por ser um saber da vida, no sentido específico do viver humano, modo de viver, modo de se conduzir na vida, de caminhar na história. Ela é um saber da vida, por ser um saber das possibilidades de ser do homem. O sentido originário que remete ao que é “sadio”, “salutar”, o que favorece o todo, a integridade do ser, do viver. Integridade do ser, do viver, salutar, salvífico porque transformador. Temos o cuidado salutar para com as criaturas, com o meio ambiente, com o Homem; um cuidado com o todo, a relação com o ser é de integridade? Nesse sentido Ecologia integral!
5. O cuidado com o Todo
O saber ético indica, o entender-se com aquilo que pertence ao éthos, no sentido da morada, do modo permanente de ater-se ao todo: o real, as realizações e à realidade. É neste sentido que soa uma sentença de Periandro: “cuida do todo”7. Neste sentido, o saber ético consiste em entender-se com este cuidado do todo. Isto quer dizer: cuidar do ente como tal e no seu todo. Mais ainda: cuidar do ser que, em sua imanência transcendente, por um lado, sempre se dá em tudo o que está sendo, deixando ser cada ente no seu próprio, mas que, por outro lado, sempre se retira e se retrai, se subtrai como mistério. Ser homem é, neste sentido, responder e corresponder ao apelo de cuidar do todo, quer dizer, de se responsabilizar pelo sentido, pelo desvelamento e velamento do mistério que tudo deixa ser. O mistério que veio à luz na noite de Belém e que iluminou a humanidade pendendo da cruz em vida nova.
No mistério da cruz se manifesta não poder, uma não-ação, puro acontecer! Ela é criação: um nascer. Para superar a dicotomia entre mundo e terra, entre cultura e natureza, entre natureza e homem, só pode acontecer se o homem voltar à fonte, à ação originária, que, na compreensão funcional, pragmática e utilitária da ação, chama-se de “não-ação”. Nesta superação, a técnica deixaria de ser o espetáculo violento da dominação do homem sobre o real e passaria a ser integrada no modo de ser do habitar poético do homem8. Mas, o que seria um “habitar poético”? Nele, a natureza poderia ser criativa e a cultura poderia ser natural. O homem não mais teria na dominação exploratória o modo de se relacionar fundamental com o real. Trata-se, pois, de um habitar co-criativo com a natureza; que conjuga identidade e diferenças sem entender a igualdade como nivelamento e padronização de tudo e de todos; que acolhe a pluralidade dos caminhos de humanização nas trajetórias culturais dos povos da terra; que promove uma economia ecológica, solidária e ecumênica, isto é, acolhedora das diferenças de todos os povos. Trata-se, pois, de um habitar que seja pobre o bastante para receber do outro, para ver o real como originalidade, para acolher, na dinâmica da vida, a surpresa, a ousadia, a aventura, na leveza do coração; um habitar que assuma a linguagem não só como meio de informação, mas também como essência criadora, tal como, por milênios, a experimentaram os poetas, os pensadores, os místicos, os profetas; um habitar que cuide das condições ambientais e da qualidade da vida; que privilegie os bens coletivos sobre os privados. Enfim, o que está em jogo é um habitar que se funda sobre a fluência da gratuidade, do não-útil; que considera o homem como fim em si mesmo, na sua dignidade de pessoa, e não como mero meio; que guarda o velamento do mistério; que escuta o indizível; que atenta para a inocência da vida e cuida de sua fragilidade. Trata-se, pois, de uma outra cultura do espírito, na qual, pela participação na criação, o homem recria o mistério da realidade, criando-se a si mesmo. Uma cultura em que o homem não somente saiba fazer, mas saiba ser no saber fazer, isto é, saiba perfazer-se, criar-se a si mesmo, suas formas de vida e de convivência, em consonância com a criatividade do mistério do Ser.
O reencontro do ethos para o homem contemporâneo, portanto, é o grande desafio de seu kairós. Essa é a crise, que é, ao mesmo tempo, urgência de decisão, de transformação, de passagem para outro princípio, e, oportunidade e graça de uma outra fundação do habitar humano sobre a terra.
6. Conversão ecológica: por uma ecologia integral
A crise ecológica é um apelo a uma profunda conversão interior, lembra Papa Francisco. Alguns cristãos, até comprometidos e piedosos, com o pretexto do realismo pragmático frequentemente se desviam das preocupações pelo meio ambiente. Outros são passivos, não se decidem a mudar os seus hábitos e tornam-se incoerentes. Falta uma conversão ecológica, que comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que os rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus. Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência segundo o Evangelho (LS, 217).
No documento final do primeiro encontro da Igreja Católica da Amazônia, afirmava que “anunciar na defesa do lar que Deus criou para toda a humanidade e na promoção da Vida em todas as suas dimensões, sobretudo quando é ameaçada pelos impactos causados por um equivocado conceito de progresso que confunde desenvolvimento com crescimento meramente econômico, multiplicação de riqueza material, incremento do PIB, expansão do agronegócio, aumento de produção de biocombustíveis, deixando de promover a justiça e o bem-estar de todos e para todos (Carta do I Encontro, 2013).
Em Querida Amazônia encontramos uma hermenêutica que enseja mudança, conversão. Os quatro sonhos, as quatro dimensões oferecem a totalidade do modo de ser, de viver: “Sonho com uma Amazônia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e sua dignidade promovida”; “Sonho com uma Amazônia que guarde zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna, a vida transbordante que enche os seus rios e as suas florestas”; “Sonho com uma Amazônia que preserve a riqueza cultural que a caracteriza e na qual brilha de maneira tão variada a beleza humana”; “Sonho com comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo na Amazônia, que deem à Igreja rostos novos com traços amazônicos”.
Sonho social, sonho cultural, sonho ecológico, sonho eclesial, dimensões que demonstram a totalidade; dimensões do todo. Indicando o todo na elucidação e visibilização das nuances da totalidade. O ser social, o ser cultural, o ser ecológico, o ser eclesial, explicitam o ser-no-mundo, sua totalidade. É o cuidado com o todo!
Para uma verdadeira conversão ecológica, as estruturas sociais, as expressões culturais, os seres na sua totalidade são levados em consideração na evangelização, para uma verdadeira encarnação e libertação! A vida, morte e ressurreição de Jesus têm implicância no universo, não apenas para os seres humanos. A fraternidade universal em São Francisco tem a ver com o Filho que se fez irmão.
Conversão ecológica que possibilite uma ecologia integral, desperta para a grandeza de que a terra nos foi dada. Esse horizonte possibilita uma outra hermenêutica da narração do Gênesis que convida a “dominar” a terra (Gn 1,28), e por isso, favoreceria a exploração selvagem da natureza, apresentando uma imagem do ser humano como dominador e devastador. É importante ler os textos bíblicos no seu contexto, com uma justa hermenêutica, e lembrar que somos convidados a “cultivar e guardar” o jardim do mundo (Gn 2,15). Cultivar quer dizer lavrar ou trabalhar um terreno, guardar significa proteger, cuidar, preservar, velar. Essa compreensão abre a uma conversão de relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza (LS, nº 67).
A conversão ecológica pede que seja individual, mas também comunitária. A Campanha da Fraternidade é um convite à conversão da comunidade cristã. As relações com o meio ambiente exigem a conversão comunitária, social. As exigências desta obra são tão grandes, que as possibilidades das iniciativas individuais e a cooperação dos particulares, formados de maneira individualista, não são capazes de dar uma resposta adequada. É necessária uma união de forças e uma unidade de contribuições. A conversão ecológica que requer um dinamismo de mudança duradoura, é também uma conversão comunitária (cf. Romano Guardini, O fim do tempo).
Devido aos grandes problemas ambientais é necessário considerar as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. A busca de solução requer uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza. Não se pode identificar os problemas ambientais e identificar os problemas sociais se não nos damos conta das implicações “da casa de todos” (LS, 139).
A conversão ecológica afina a relação entre a natureza e a sociedade. Não existe duas realidades natureza, meio ambiente e a sociedade ou nós seres humanos. Somos parte da natureza e compenetramo-nos. As razões, pelas quais um lugar se contamina, se decompõe, se destrói, exigem uma análise do funcionamento da sociedade, da sua economia, do seu comportamento, das suas maneiras de entender a realidade, das suas relações com o todo.
Despertar a sensibilidade de que participamos da natureza e que a recebemos como casa comum, possibilita uma relação nova de acolhida, respeito, reverência, irmandade. Dar-se conta de que fomos recebidos, fomos acolhidos e, por isso, pertencemos a essa Casa Comum, abre outro horizonte de percepção, iluminação. Cria um espaço de irmandade, de contemplação.
Educar para a ecologia integral, para a fraternidade universal. A educação ambiental tem vindo a ampliar os seus objetivos. Se, no começo, estava muito centrada na informação científica e na consciencialização e prevenção dos riscos ambientais, agora tende a incluir uma crítica dos “mitos” da modernidade baseados na razão instrumental, como individualismo, progresso ilimitado, concorrência, consumismo, mercado sem regras. Tende recuperar os distintos níveis de equilíbrio ecológico: o interior consigo mesmo, o ser solidário com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus. A educação ambiental deveria predispor-nos para dar este salto para o Mistério, do qual uma ética ecológica recebe o seu sentido mais profundo. Além disso, há educadores capazes de reordenar os itinerários pedagógicos duma ética ecológica, de modo que ajudem efetivamente a crescer na solidariedade, na responsabilidade e no cuidado assente na compaixão.
É necessário criar e maturar hábitos, reaprender a habitar. A existência de leis e normas não é suficiente. É necessário que a sociedade tenha acolhido a necessidade de nova relações com o todo, com base em motivações adequadas, e reaja com uma transformação pessoal e comunitária (LS, 210-211). Nesse sentido a própria teologia tem a responsabilidade de despertar para conversão à ecologia integral, na medida em que a partir do LOGOS, indique a fraternidade universal. Como expressava são Boaventura: tudo é irradiação do amor de Deus; um amor difusivo!
Uma conversão ecológica pede uma mudança na economia que se tornou reguladora, dominadora da vida. O mercado não vê beleza, não vê pessoa, não vê rios, árvores, povos originários, ribeirinhos, culturas, preces, silêncios, harmonia, poesia. Sinodalidade-missão guarda busca e propõe dinâmicas do ser Igreja, o Reino de Deus. Guarda o movimento da fé e se comunica, mas tem suas distinções quanto à abrangência, profundidade e realização.
Mas qual deveria ser o ponto de partida, qual é a iluminação que desperta a conversão ecológica, leva a uma mudança de vida, o habitar digna e harmoniosamente a terra? “Se nos aproximarmos da natureza e do meio ambiente sem esta abertura para a admiração e o encanto, se deixarmos de falar a língua da fraternidade e da beleza na nossa relação com o mundo, então as nossas atitudes serão as do dominador, do consumidor ou de um mero explorador dos recursos naturais, incapaz de pôr um limite aos seus interesses imediatos” (LS, nº 11).
A admiração pela obra criada por Deus, como um dom oferecido por Ele, desperta gratidão e gratuidade. Uma verdadeira conversão ecológica das comunidades implica gratidão e gratuidade. Na gratidão e na gratuidade que se percebe sempre melhor a ligação amorosa que existe entre as criaturas e as criaturas e o ser humano. Uma admirável comunhão universal, uma fraternidade universal. São Francisco de Assis contemplava o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que Deus uniu a todos os seres. Dessa relação pode nascer a percepção sempre mais nítida de uma fraternidade, de uma irmandade universal. A gratidão e a gratuidade das relações suscitam a admiração e a admiração podem despertar para a conversão ecológica. O ser humano descobre-se irmão das criaturas e, por isso não as domina e destrói, mas cultiva e cuida. A conversão ecológica suscitada pela fé, contempla a obra criada. Na abertura e contemplação percebe-se que cada criatura reflete algo de Deus e tem uma mensagem para nos transmitir.
Na busca de uma conversão ecológica, na tentativa de uma fraternidade com as criaturas, a Assembleia Sinodal celebrada na Arquidiocese propôs pistas de Ação: promover e incentivar uma mistagogia da Ecologia integral que perpasse a catequese, as pastorais, os serviços, os organismos, os movimentos e os ministérios. Para promover e incentivar, nasceu na Assembleia sinodal a constituição de uma Comissão de Ecologia Integral, já atuante, para despertar para o cuidado da Casa Comum, na tentativa da conversão ecológica.
A tentativa da ecologia integral deveria estar presente em todos as ações pastorais da nossa Arquidiocese de Manaus. “A questão ambiental, o cuidado da casa comum deve perpassar todas as ações da evangelização: anúncio missionário, o fortalecimento das comunidades, a formação dos agentes, a defesa da vida e a celebração da fé” (Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja em Manaus, V. Ecologia Integral).
Estamos para ingressar no movimento quaresmal. A quaresma nos apresenta os exercícios que possibilitam a conversão: jejum, esmola e oração. Somos convidados ao jejum para superar a lógica do consumismo sem ética, sem sentido social e ambiental. Esse modo de esvaziamento para deixar evidente o significado de cada criatura e por isso, da ecologia integral.
O exercício da esmola, como partilha, como crescimento da vida em fraternidade. Nos pertencemos! Esmola que é cuidado para com o outro, mas também com as outras criaturas, com o mundo que nos rodeia. A esmola do cuidado, possa suscitar a fraternidade com a criação inteira para vivermos de maneira harmoniosa.
A oração: contemplação! Contemplar as criaturas, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres. Deixar brotar um Cântico onde ressoa a fraternidade: irmão sol, irmã luz, irmãs água, terra mãe! Como lembra a Carta aos romanos: oferecer a Deus um sacrifício vivo, santo e agradável (12,1).
Nos exercícios quaresmais do jejum, da esmola e da oração, como caminho de conversão, talvez, deixe brotar a gratidão e gratuidade. Gratidão e gratuidade que nascem do reconhecimento de que Deus criou o mundo, inscrevendo nele uma ordem e um dinamismo que o ser humano não tem o direito de ignorar. Gratidão porque cada uma das criaturas reflete algo de Deus e tem uma mensagem para transmitir. Com sua morte e ressurreição Jesus Cristo assumiu em si mesmo este mundo material. Ressuscitado, habita no íntimo de cada ser, envolvendo-o com o seu carinho e penetrando-o com a sua luz (LS, 221).
Concluindo
Estamos no Ano Santo da Esperança! A esperança não decepciona (Rm 5,5)! Nas agressões e violências, no desfazer das relações com o meio ambiente, deixar-se guiar pela esperança de tal forma que as nossas comunidades busquem a conversão ecológica e deixem-se encantar pela fraternidade universal. A esperança de despertar a humanidade para o cuidado da Casa Comum, onde todos as criaturas possam estar em casa. Superar a ótica do lucro, do mercado.
Apesar da problemática e das tensões que estamos a viver a esperança nos indica o caminho: “não estamos afundando, estamos lutando”. Num discurso no plenário da Assembleia Geral da ONU sobre as ameaças existenciais causadas pelo aumento do nível do mar, a ativista climática tuvaluana Grace Malie declarou aos delegados, que seu país e outros Estados insulares “não serão engolidos pelo mar em silêncio”. Eles “continuarão a lutar” pela sua terra, cultura e futuro. “Não são apenas as nossas casas que estão em risco”, disse ela, sobre os tuvaluanos. “É a nossa dignidade, nossa cultura, nosso patrimônio. Não é algo que possamos colocar nas malas e levar embora. Fizemos o mínimo para causar a crise, mas estamos pagando o preço mais alto”.
Deus confiou à humanidade o cuidado da obra criada, deu a vocação de guardiões da obra de sua obra. Não é algo opcional, mas parte essencial da vida segundo o Evangelho! Uma ecologia integral exige empenho e dedicação, uma mudança de horizonte de leitura (Papa Francisco).
A Campanha da Fraternidade pode abrir os nossos olhos e ajudar-nos a percorrer o caminho do Evangelho, como Francisco de Assis. “Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e numa maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenho na sociedade e a paz interior” (LS).
Ecologia integral a fala, a narrativa que traz à luz, ilumina, a casa em que habitamos, ou que deveríamos habitar. Habitar como cuidado e cultivo. Como seguidores e seguidoras de Jesus, a Conversão ecológica não é uma obrigação, mas antes um cuidado e cultivo da obra criada, um modo de relação que corresponda ao modo: “Deus viu que tudo era muito bom!”
Oração: Nós Vos louvamos, Pai, com todas as vossas criaturas, que saíram da vossa mão poderosa. São vossas e estão repletas da vossa presença e da vossa ternura. Louvado sejais!
Filho de Deus, Jesus, por Vós foram criadas todas as coisas. Fostes formado no seio materno de Maria, vos fizestes parte desta terra, e contemplastes este mundo com olhos humanos. Hoje estais vivo em cada criatura com a vossa glória de ressuscitado. Louvado sejais!
Espírito Santo, que, com a vossa luz, guiais este mundo para o amor do Pai e acompanhais o gemido da criação, Vós viveis também nos nossos corações a fim de nos impelir para o bem. Louvado sejais!
Senhor Deus, Uno e Trino, comunidade estupenda de amor infinito, ensinai-nos a vos contemplar na beleza do universo, onde tudo nos fala de vós. Despertai o nosso louvor e a nossa gratidão por cada ser que criastes. Dai-nos a graça de nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe. Deus de amor, mostrai-nos o nosso lugar neste mundo como instrumentos do vosso carinho por todos os seres desta terra, porque nem um deles sequer é esquecido por Vós.
Iluminai os donos do poder e do dinheiro para que não caiam no pecado da indiferença, amem o bem comum, promovam os fracos, e cuidem deste mundo que habitamos. Os pobres e a terra estão bradando: Senhor, tomai-nos sob o vosso poder e a vossa luz, para proteger cada vida, para preparar um futuro melhor, para que venha o vosso Reino de justiça, paz, amor e beleza. Louvado sejais! Amém.
Grato pela paciência de escutar.
Cardeal Leonardo Steiner
Arcebispo de Manaus
1 Artigo de Ana Carla de Abreu Siqueira, A distinção entre pensamento calculador e pensamento meditativo na Filosofia tardia de Martin Heidegger.
2 Pontos 3, baseado em texto não publicado de Hermógenes Harada.
3 Walde, A.; Hofmann J. B. 5ª edição, 2º volume M - Z, Heidelberg: Carl Winter Universitätsverlag, 1972, p. 608.
4 O termo excelência hoje é ambíguo, e, às vezes, equívoco. Aqui excelência indica o próprio do ser humano na sua per-feição, isto é, no surgir, crescer e consumar-se, no perfazer-se do seu ser próprio, e não como um produto processado e agenciado dentro de um projeto alheio à sua essência, como o primeiro do ranking da eficiência produtiva.
5 Leão, Emmanuel Carneiro. “A crise da ética hoje”. Revista Filosófica São Boaventura. FAE / Instituto de Filosofia São Boaventura. Vol. 3, n. 2. Jul. – Dez. 2010, p. 11.
6 Cfr. Bernhard, Welte, Die kulturelle Welt als Grund und die Religion, p. 10.
7 Diels, Hermann & Kranz, Walther. Die Fragmente der Vorsokratiker. Erster Band. Bonn: Weidmannsche, 1951, p. 65.
8 Cfr. Heidegger, Martin. Vorträge und Aufsätze. Stuttgart: Neske, 1997, p. 181-198.