A RITUALIDADE DO JUBILEU DE ESPERANÇA

The rituality of the jubilee of hope

dOI: https://doi.org/10.52451/1kgjn059

Recebido em: 02 de março de 2025.

Aprovado em 11 de junho de 2025.

Clair Favreto

Professor da Itepa Faculdades nas disciplinas de Liturgia, Sacramentos de Iniciação à Vida Cristã, Arte Sacra e Acompanhamento Espiritual. Doutor em Liturgia pelo Instituto de Liturgia Pastoral – Pádua/Itália. Pároco da Catedral São José de Erechim. E-mail: clafavit@gmail.com; Orcid: 0009-0008-5477-8092

Rene Zanandrea

Mestre em Teologia com Área de Concentração: Teologia Prática, EST, São Leopoldo, RS; Graduado em Teologia e Pastoral, Itepa Faculdades, Passo Fundo, RS; Graduado em Filosofia, Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RS. Reitor do Seminário Maior de Vacaria, Passo Fundo, RS. E-mail: rene.zanandrea@yahoo.com.br; Orcid: 0009-0005-7595-1972

Resumo: A cada 25 anos, a Igreja celebra o Jubileu Ordinário do nascimento de Jesus. A abertura aconteceu no final do ano passado e vai ser concluído no final deste ano. O jubileu é marcado por momentos celebrativos solenes. Os textos litúrgicos contendo toda a ritualidade de abertura e do encerramento do Jubileu 2025 foi elaborada pelo Dicastério para a Evangelização e enviada às Dioceses do mundo todo. E o Papa Francisco publicou a Bula de Proclamação do Jubileu Ordinário, enfocando a virtude da esperança, com este título: Spes non confundit (“A esperança não decepciona”). Cada Diocese preparou o rito que foi celebrado na sua respectiva Catedral. Neste artigo são destacados os elementos rituais que fizeram parte da abertura deste jubileu e que cada Bispo diocesano celebrou com seu clero e seu povo.

Palavras-chave: Bula; Ritualidade; Jubileu; Esperança; Igreja.

Abstract Every 25 years, the Church celebrates the Ordinary Jubilee of the birth of Jesus. The opening took place at the end of last year and will conclude at the end of this year. The Jubilee is marked by solemn celebratory moments. The liturgical texts containing all the rituals for the opening and closing of the 2025 Jubilee were prepared by the Dicastery for Evangelization and sent to dioceses around the world. Pope Francis published the Bull of Proclamation for the Ordinary Jubilee, focusing on the virtue of hope, with the title: Spes non confundit (“Hope does not disappoint”). Each diocese prepared the rite, which was celebrated in its respective Cathedral. This article highlights the ritual elements that were part of the opening of this Jubilee and which each diocesan Bishop celebrated with his clergy and his people.

Keywords: Bull; Rituality; Jubilee; Hope; Church.

Introdução

Celebrado como o Ano Santo de 2025 da Encarnação, este Jubileu Ordinário foi proclamado pelo saudoso Papa Francisco. O tema escolhido é “Peregrinos de Esperança”. A Esperança é uma virtude teologal, ao lado das virtudes da Fé e da Caridade. Na Bula de “Proclamação do Jubileu Ordinário do Ano 2025”, datada de 9 de maio de 2024, o Papa Francisco é categórico: “Todos esperam” (Bula, nº 1).

Um Jubileu é sempre uma proposta espiritual rica em simbolismo e ritualidade. No caso do Jubileu Ordinário 2025, o chamamento é para que a Igreja tome consciência que é portadora de esperança. Uma inspiração foi buscada no Apóstolo Paulo que, desejando encorajar as comunidades no início da era cristã, enviou Carta aos Romanos onde afirma “Spes non confundit”, ou seja, “A esperança não decepciona” (Rm 5,5).

Há uma ritualidade proposta para este jubileu. Não se trata apenas de uma sequência de celebrações litúrgicas, mas de um verdadeiro itinerário de fé, marcado por gestos, símbolos e práticas que convidam à renovação interior e comunitária; convidam a redescobrir a paciência, a consolação e a esperança, mesmo em meio às tribulações. Ela se inspira na cruz e na ressurreição de Cristo como fonte de luz e força. É também um tempo para olhar com compaixão para os doentes, os presos, os migrantes e os idosos - todos considerados sinais vivos de esperança1. O presente artigo deseja tecer comentários acerca de alguns dos elementos desse itinerário proposto para o Jubileu Ordinário de 2025.

1. Sobre a ritualidade do jubileu

No conceito de rito temos certa ideia de repetitividade, de imitação. Os atos que tornam a acontecer com certa frequência, com certa duração e em determinado lugar, inscrevem-se como ações rituais.

A palavra latina ritus é próxima da palavra sânscrito-védica rta (rita), a força da ordem cósmica sobre a qual velam divindades”. Vê-se, com isso, que o rito não é uma ação puramente humana ou inventada por uma pessoa qualquer. Ele é, de alguma forma, “uma ação divina, uma imitação do que fizeram os deuses. Por isso, deve ser repetido como uma ação divina (Croato, 2001, p.215).

As ações rituais e simbólicas carregam a capacidade de dar sentido à existência humana. Nos atos que assumem certa ritualidade pela sua repetitividade permitem uma sensação de segurança aos implicados nessa ação. Sem esta segurança oferecida pela repetitividade, sem que haja certa constância de ações, é difícil prever algo. Nesse sentido, o rito “faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas” (Saint-Exupery, 2003, p.70).

Os Jubileus Ordinários carregam características comuns, com práticas que oferecem estabilidade e consenso. Em todos eles, os fiéis são chamados a viver a espiritualidade que faz memória dos feitos do Senhor de forma consciente e palpável, na busca da integralidade da ação ritual com seu sentido teológico e a vivência litúrgico-espiritual.

Essa é uma redescoberta do Concílio Vaticano II em que a Igreja recuperou o conceito “participação”. Os fiéis já não se contentam em ser meros expectadores das ações litúrgicas; já não basta “assistir” à Missa. Antes desejam participar ativamente, tomar parte das ações, desejam ser “atores” litúrgicos (SC 48). Assim, também, Jesus procurava tocar e ser tocado pelas pessoas. Tal ação é essencial para a transformação, renovação e reanimação da vida daqueles que buscam e acreditam em Deus. Com a renovação litúrgica reaprendemos que, participando de verdade do rito, deixamo-nos atingir pelo Mistério de Cristo e deixamo-nos transformar por ele.

Desse modo, os cristãos são motivados a se empenharem na celebração dos jubileus com ações e atitudes que fazem parte dos ritos comuns dessas solenidades. As peregrinações, a busca pelos lugares determinados como portas santas, a busca pelo Sacramentos da Reconciliação são, portanto, dentre muitos outros, ações rituais que carregam a compreensão do ato sagrado que põe o indivíduo em sintonia com sua Igreja e com o Senhor Deus. Sobre isso aprendemos da Igreja que a sacramentalidade depende da ritualidade. Significa dizer que a eficácia dos ritos depende daquilo que conseguem significar especialmente pela sua veracidade, seu empenho.

A realização de jubileus costuma mobilizar a Igreja. Muitas pessoas parecem entender bem o que significa essa necessidade de empenho, na medida em que desejam e buscam realizar tais ações que os permita viver a ritualidade jubilar. Embora o centro das celebrações esteja em Roma, cada Diocese é chamada a viver o jubileu com suas próprias celebrações, mantendo a comunhão com a Igreja universal. Isso reforça a ideia de uma Igreja sinodal: uma catolicidade que permite caminhar unidos esperançando em Deus.

2. A Bula

A Bula de Proclamação do Jubileu Ordinário de 2025, intitulada Spes non confundit (“A esperança não decepciona”), foi divulgada pelo Papa Francisco em 9 de maio de 2024. Esse documento marca oficialmente a abertura do Ano Santo, que acontece a cada 25 anos. Traz a mensagem central da esperança inspirada na Carta do Apóstolo Paulo aos Romanos (Rm 5,5).

Segundo o Papa Francisco, a Esperança é constitutiva do ser humano. Esperança é um desejo e expectativa do bem. Não ignora a imprevisibilidade que, por vezes, gera sentimentos contrapostos no ser humano. Tal como o Apóstolo Paulo, que é muito realista, sabemos que a vida é feita de alegrias e sofrimentos onde, muitas vezes, o amor é posto à prova. São Paulo ainda afirma que nós nos gloriamos também de nossas tribulações, sabendo que a tribulação gera a perseverança, a perseverança leva a uma virtude comprovada e a virtude comprovada, desabrocha em esperança (Rm 5,3-4). Assim, a evangelização é sustentada pela força que brota da Cruz e da ressurreição de Cristo.

3. A abertura

Uma vasta programação marcou a abertura do Jubileu de Esperança. Em diversos lugares da cidade eterna e em cada Igreja Particular pelo mundo afora se realizaram ritos solenes para marcar este Jubileu. Em geral, podemos dizer que visam simbolizar o início do tempo jubilar e o convite à reconciliação com Deus.

Dentre as ações anunciadas a realizadas, destacamos que o início Jubileu Ordinário se deu com a abertura da Porta Santa na Basílica de São Pedro, no Vaticano, na solenidade do Natal do Senhor em 24 de dezembro de 2024 (o Jubileu terminará com o fechamento da mesma Porta Santa em 6 de janeiro de 2026, na Solenidade da Epifania do Senhor); em 29 de dezembro de 2024, na Festa da Sagrada Família de Nazaré, a abertura da Porta Santa da Catedral São João Latrão, bem como nas Igrejas Particulares em todo o mundo; em 1º de janeiro de 2025 a abertura da Porta Santa na Basílica de Santa Maria Maior; e, em 5 de janeiro de 2025, a abertura da Porta Santa na Basílica São Paulo Fora dos Muros.

As Dioceses foram orientadas quanto aos ritos de abertura do Ano Jubilar. A primeira delas foi a celebração da Eucaristia presidida pelo Bispo diocesano na igreja catedral, mãe de todas as igrejas da Diocese e desde onde o pastor da Diocese exerce o seu magistério e dirige a comunidade eclesial. Orientou-se que o povo se reunisse em uma igreja ou outro lugar apropriado, que se realizasse uma pequena peregrinação e se entrasse na catedral para a Santa Missa do Dia do Senhor na Festa da Sagrada Família.

Tal ritualidade de abertura do Jubileu desenvolvida em cada Diocese, quis ser um sinal do caminho de esperança do povo peregrino que segue a cruz de Cristo. Tem um profundo sentido espiritual do povo que, no hoje da Igreja, avança em direção à Jerusalém celeste.

A entrada nas catedrais se deu pela porta principal. Assim estava orientado, para ser sinal do Cristo (Jo 10,9), a porta das ovelhas. Cada Bispo diocesano pode apresentar e convidar à veneração da cruz redentora. Dirigiu-se à pia batismal desde onde, com aspersão de água se fez memória viva do Batismo, pelo qual somos filhos de Deus e membros da Igreja.

O rito de abertura do Ano Jubilar teve seu ponto alto com a Celebração Eucarística. Celebrar a Eucaristia é, antes de tudo, ação de Cristo. A Ele se associa o Povo de Deus que lhe presta culto e santifica o mundo. Desse modo, cada fiel, a Igreja Local e a Igreja Universal se associaram, pelo Rito de Abertura, ao evento Ano Jubilar da Encarnação.

4. As peregrinações

Somos Povo de Deus, um povo em caminho. “Nenhuma caravana chegou algum dia à utopia. No entanto é a utopia que faz a caravana andar” disse o Pe. Nelson Tonello no videodocumentário “Memórias: a esperança que nos move” da Itepa Faculdades produzido e lançado recentemente. Os próprios termos gregos “paroikía”, “paroiken” e “paroikós”, de onde deriva o nome “Paróquia” (nº 161 do Documento da CNBB nº 100, Comunidade de Comunidades: uma nova paróquia), têm um significado de “viver junto a, habitar nas proximidades, viver em casa alheia […] habitação em pátria estrangeira”. Significa dizer que somos estrangeiros, peregrinos. Rumamos para a terra prometida, para a Jerusalém celeste, para junto de Deus.

“Não é por acaso que a peregrinação representa um elemento fundamental de todo o evento jubilar. Pôr-se a caminho é típico de quem anda à procura do sentido da vida. A peregrinação a pé favorece muito a redescoberta do valor, do silêncio, do esforço, da essencialidade” (Bula, n. 5).

Assim, as peregrinações nos anos jubilares ritualizam um movimento eminentemente existencial. Caminhar até os lugares sagrados representa a jornada espiritual do fiel em busca de esperança e renovação.

5. A Cruz

Toda peregrinação ritual há uma cruz que vai à frente para manifestar que somos caminheiros que seguem a cruz de Cristo. Ao sair a peregrinação numa igreja menor ou outro local adequado de onde o Bispo com o clero e o povo se dirigiu em direção à Catedral, uma cruz foi guiando a todos. A cruz deste jubileu, porém, estava ornada. Ornar ou ornamentar a cruz é sinal de esperança. A cruz por si só já é sinal de esperança pois ela é nossa redenção. Ornar a cruz no jubileu é tornar viva, alegre e concreta a esperança que este jubileu tanto proclama.

Ao chegar à Catedral, o Bispo tomou a cruz na mão ou fez referência a ela, pediu para o povo venerá-la e, de frente para o povo, ele proclamou: Salve, cruz de Cristo, única esperança. E o povo de viva voz aclamou: Vós sois a nossa esperança, não seremos confundidos eternamente. Tanto na invocação do Bispo que presidia o rito, quanto na aclamação do povo, a cruz é reconhecida, de fato, como nossa única esperança. A cruz colocada do lado do altar permanece ali durante todo o Ano Jubilar para veneração do povo de Deus.

A cruz é o sinal que primeiramente foi usado no Rito do Batismo. A cruz é traçada em cada pessoa batizada. Ela imprime a marca (indelével) de Cristo. O batizador, bem como os pais, padrinhos e familiares, também manifestam sua fé traçando sobre o batizando o sinal da cruz. Este sinal é realizado na fronte, lugar vital. Nele somos assinalados, marcados para sempre.

A cruz resume os grandes mistérios da nossa fé. Cada vez que levantamos a mão para traçar a cruz sobre nossa fronte, tocamos primeiramente onde fomos marcados e ali dizemos “Pai”. Reconhecemos, portanto, que temos um Pai, que somos filhos do Pai e que invocamos a presença do Pai. Ao traçar o sinal da cruz na nossa fronte buscamos a bênção, a proteção divina e reconhecemos que somos filhos.

O segundo local que tocamos é onde aconteceu a nossa unção (unção pré-batismal), da força, da presença de Cristo. E fomos ungidos também num lugar vital. Por isso, cada vez que traçamos a cruz tocamos os dois pontos vitais. Os dois toques traçam o sentido vertical da cruz reconhecendo esta filiação divina. Somos sempre filhos e não pais, isto é, não somos deuses, somos filhos de Deus.

A cruz tem, também, um traço horizontal. Tocamos os dois ombros. Este gesto faz o reconhecimento que somos responsáveis uns pelos outros. Ao traçar o sinal horizontal da cruz nos comprometemos a viver a fraternidade e a solidariedade, sobretudo com aquelas pessoas, nossos irmãos, que mais precisam.

Traçar o sinal da cruz, portanto, é reconhecer o senhorio de Deus, buscar a sua presença e proteção, mas também reconhecer nosso compromisso a partir do significado da cruz para com os nossos irmãos e irmãs.

6. A Pia batismal

No Rito do Sacramento Batismo, antes de chegar à Pia Batismal, são realizados os ritos da assinalação e da unção, já mencionados acima. No dia do jubileu, o rito prescreveu que, depois de apresentar a cruz e venerá-la, o Bispo, com alguns fiéis e presbíteros, dirigiu-se ao Batistério, onde se encontra a Pia Batismal. Junto à Pia Batismal abençoou água que foi aspergida sobre todo o povo.

Importante destacar que, neste dia da abertura do jubileu, o rito prescreveu que o Bispo aspergiu primeiramente a si mesmo, depois aspergiu os concelebrantes, os ministros e todo o povo. Raramente é prescrito que o presidente de uma celebração asperge a si mesmo, mas aqui o gesto foi realizado. Este gesto recorda que todos os batizados são Igreja, a começar pelo próprio Bispo. É ele o primeiro, na sua Diocese, a professar e renovar a sua fé, sobretudo quando são celebrados eventos importantes na Igreja como é o caso do jubileu.

A aspersão com água recorda a água do Batismo. Na Pia Batismal, cada criatura humana se tornou filho de Deus. Por isso, ao aspergir o povo, o Bispo recorda o Batismo de cada cristão e o convite a renová-lo periodicamente, sobretudo nos grandes eventos da Igreja. Uma das antífonas escolhidas para o momento da aspersão deste dia recorda o texto de Ezequiel 36, versos 25 e 26: “Derramarei sobre vós uma água pura. Eu vos purificarei de todas as impurezas. Eu vos darei um coração novo, diz o Senhor”.

7. A reconciliação, a indulgência plenária

O Catecismo da Igreja Católica (CIgC) afirma que “o Senhor Jesus Cristo, médico de nossas almas e dos nossos corpos, que perdoou os pecados do paralítico, e lhe devolveu a saúde do corpo (Mt 2,1ss), quis que sua Igreja continuasse, com a força do Espírito Santo, sua obra de cura e de salvação, inclusive em seus próprios membros” (CIgC 1421).

Seguramente um dos melhores presentes do amor de Deus revelado em seu Filho Jesus Cristo é a sua misericórdia oferecida gratuitamente, por puro dom (per-donare, do latim). No Sacramento da Reconciliação entendemos que Deus oferece perdão pleno, sem reservas. E Ele confia à Igreja essa nobre e exigente tarefa. Lemos no Evangelho que Jesus soprou seu Espírito Santo sobre os Apóstolos e os enviou em missão dizendo: “Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados” (Jo 20,21-23).

O Criador conhece o que Ele inventou. Sabe que somos como vasos de barro. Sabe que os filhos adotivos pelo Sacramento do Batismo podem ter suas vidas enfraquecidas e até perdidas pelo pecado. É por isso que confia tal missão à sua Igreja: Ele, médico que perdoou e restituiu a saúde quer que, com a força do Espírito Santo, a sua obra de cura e de salvação seja levada adiante.

A cada 25 anos recebemos esse chamamento “ordinário” da Igreja. É da sua natureza religar: a palavra latina “religare” desdobra-se no termo “religião”, que carrega significado simbólico profundo de ligar novamente, reconectar. Por isso os cristãos são como que lembrados a cada jubileu dessa oferta generosa, indulgente e plena do gracioso amor de Deus. Este Sacramento deve ser buscado sempre porque ele recupera a santidade original recebida no Batismo. Cada vez que buscamos o Sacramento da Reconciliação somos perdoados plenamente de todos os nossos pecados.

O essencial é que os fiéis experimentem o grande dom de Deus, o perdão, que nos reconcilia com o Pai, com a Igreja e com nosso próprio ser. “Recorre-se ao maior de Deus, sua misericórdia, e ao maior do homem, sua capacidade de reconhecer o mal causado e mudar o rumo da sua vida” (Bañados, 2005, p.205).

Pela ritualidade de sair (de si; ir em busca), o fiel cristão manifesta sua maturidade. É atitude de gente inteligente deixar nas mãos do Pai rico em misericórdia nossos dramas e imperfeições. Quando, por exemplo, um anzol crava nossa carne, nossa condição racional nos faz confiar que o enfrentamento e remoção dele resultará em cura. Assim também, quando o pecado crava a nossa vida se faz necessário bom senso e enfrentamento dessa realidade. E eis que o amor de Deus acolhe, perdoa e reenvia seus filhos a quem tanto ama. A Bula de Proclamação do Jubileu ordinário deste ano, lá no número 5, recomenda que as Igrejas particulares deem atenção especial à preparação dos presbíteros e fiéis para as Confissões e para o acesso a este Sacramento na sua forma individual.

De fato, “a indulgência permite-nos descobrir como é ilimitada a misericórdia de Deus” afirma o Papa Francisco. A Reconciliação sacramental representa um passo decisivo: “permitimos ao Senhor que destrua os nossos pecados, sare o nosso coração. […] Não há modo melhor de conhecer a Deus do que se deixar reconciliar por Ele” (Bula, n.23).

Conclusão

O Jubileu Ordinário deste ano coloca a Igreja diante da necessidade de acreditar, apostar, semear esperança. A ritualidade proposta ajuda à Igreja a pôr-se a caminho, fazer processos, como tanto insistiu o Papa Francisco.

Ao concluir este texto apontamos para alguns gestos que são sinais de esperança indicados na Bula de “Proclamação do Jubileu Ordinário do Ano 2025”, datada de 9 de maio de 2024, n.7-15.

É possível perceber sinais de esperança em meio ao mundo onde vivemos, nos sinais dos tempos. Tais sinais ficam mais evidentes quando esperançamos na graça de Deus. Significa que precisamos prestar atenção ao bem que existe no mundo e transformar esse bem proclamado e testemunhado em sinais de esperança.

Para ritualizar esse esperançar, portanto, pode ser necessário abrir espaços de negociação diante da tragédia da guerra; precisamos ser presença que anima tantos irmãos que vivem em condições difíceis e fazer que se percebam fortalecidas para recuperar a confiança e recomeçar; nossa proximidade e carinho para com os doentes pode resultar em alívio; há que se criar e ampliar espaços aos jovens que, com entusiasmo e boa vontade, arregaçam as mangas para ajudar tantas situações emergentes; abrir os braços para acolher e respeitar a dignidade das pessoas que deixam sua terra para construir um futuro melhor; valorizar o tesouro que são os idosos com sua experiência de vida, sua sabedoria, sua capacidade na transmissão da fé e do amor; conscientizar para o escandaloso investimento em armas e lançar um olhar comprometido para os pobres, vítimas (e não culpados) e tão necessitados de um mínimo de condições materiais para viver.

Permita o Deus da Esperança, a quem pertence a terra e toda a criação, que a Igreja e toda a humanidade vivam esse empenho e ritualizem iniciativas que edifiquem o Reino de Deus desde aqui, em nosso tempo.

Referências

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Petrópolis: Vozes, 1993.

CELAM: BAÑADOS, Cristian P. Penitência e Reconciliação. In.: Manual de Liturgia III: Os Sacramentos: sinais do Mistério Pascal. CELAM. Trad. Maria S. Gonçalves. S. Paulo: Paulus, 2005.

COMPÊNDIO DO VATICANO II. Constituições, Decretos, Declarações. Petrópolis: Vozes; 19715.

CROATTO, José Severino. As linguagens da experiência religiosa. São Paulo: Paulinas, 2001.

SAINT-EXUPERY, Antonie de. O Pequeno Príncipe. Com aquarelas do autor. Rio de Janeiro: Agir, 2003.