LITURGIA, CUME E FONTE DA MISSÃO DA IGREJA:
A expressão celebrativa do Mistério Pascal a partir das comunidades afrodescendentes.
Liturgy, summit and source of the church’s mission:
The Celebratory Expression of the Paschal Mystery from the Perspective of Afro-Descendant Communities.
https://doi.org/10.52451/hb4n7w37
Recebido em: 17/12/2025
Aprovado em: 22/12/2025
Mestre em Teologia Dogmática com especialização em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção. Tema da dissertação: A relevância da dança ritual litúrgica afro-brasileira no processo de Inculturação da liturgia (1980-1999). Pároco Paróquia Nossa Senhora Mãe de Deus na Arquidiocese de Juiz de Fora (MG). E-mail: peguanair@hotmail.com, Orcid: https://orcid.org/0009-0001-3767-0804
Resumo: Este artigo tem como objetivo analisar a expressão celebrativa do Mistério Pascal nas comunidades afrodescendentes, situando-a no contexto da liturgia católica e dos desafios impostos pelo racismo estrutural presente na sociedade brasileira. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza teórico-bibliográfica e documental, fundamentada na análise de textos do Magistério da Igreja e de autores da teologia litúrgica, em diálogo com a experiência pastoral afro-brasileira. À luz da compreensão conciliar da liturgia como cume e fonte da vida e da missão da Igreja, evidencia-se que a inculturação litúrgica constitui caminho legítimo e fecundo para a participação ativa dos fiéis, fortalecendo a identidade eclesial e enriquecendo a catolicidade da Igreja.
Palavras-chave: Liturgia; Inculturação; Comunidades afrodescendentes; Mistério Pascal; Identidade eclesial.
Abstract: This article aims to analyze the celebratory expression of the Paschal Mystery within Afro-descendant communities, situating it in the context of Catholic liturgy and the challenges posed by structural racism in Brazilian society. It is a qualitative study of a theoretical, bibliographical, and documentary nature, grounded in the analysis of texts from the Church’s Magisterium and authors in liturgical theology, in dialogue with Afro-Brazilian pastoral experience. In light of the conciliar understanding of the liturgy as the summit and source of the Church’s life and mission, the study demonstrates that liturgical inculturation constitutes a legitimate and fruitful path for the active participation of the faithful, strengthening ecclesial identity and enriching the Church’s catholicity.
Keywords: Liturgy; Inculturation; Afro-descendant communities; Paschal Mystery; Ecclesial identity.
Introdução
A reflexão sobre a expressão celebrativa do Mistério Pascal nas comunidades afrodescendentes constitui tarefa teológica indispensável no contexto latino-americano. No Brasil, marcado por profunda diversidade cultural e por uma história atravessada pela escravidão e pelo racismo estrutural, impõe-se a necessidade de refletir sobre formas litúrgicas que expressem, de modo autêntico, a experiência de fé das comunidades afrodescendentes. Pensar a liturgia a partir dessa experiência significa assumir os corpos historicamente feridos como lugar teológico, no qual a graça de Deus continua a manifestar-se.
Do ponto de vista bíblico-teológico, a convicção fundamental que sustenta esta reflexão é a afirmação de que todos foram criados à imagem e semelhança de Deus e incorporados em Cristo pelo batismo (Gn 1,1–2,4a; Gl 3,28). A Constituição Sacrosanctum Concilium ensina que, especialmente no sacrifício eucarístico, “se realiza a obra da nossa redenção”, contribuindo de modo eminente para que os fiéis expressem na própria vida e manifestem ao mundo o mistério de Cristo e a verdadeira natureza da Igreja (SC 2).
Este artigo propõe-se a analisar os fundamentos teológicos e litúrgicos da expressão celebrativa do Mistério Pascal nas comunidades afrodescendentes, compreendendo tais práticas como lugar teológico legítimo e fecundo para a reflexão e a ação pastoral da Igreja. Do ponto de vista metodológico, o artigo desenvolve uma pesquisa de natureza qualitativa, de caráter teórico-bibliográfico e documental. A análise fundamenta-se no diálogo crítico entre textos do Magistério da Igreja, documentos do Concílio Vaticano II e contribuições da teologia litúrgica contemporânea, especialmente no que se refere ao princípio da inculturação. Além disso, considera-se a experiência celebrativa das comunidades afrodescendentes como mediação hermenêutica, compreendida como lugar teológico legítimo para a reflexão teológica e para a ação pastoral da Igreja. A abordagem adotada privilegia uma leitura teológico-pastoral, articulando elementos doutrinais, históricos e simbólico-culturais, à luz do Mistério Pascal celebrado na liturgia.
O conceito de inculturação encontra seu fundamento no mistério da Encarnação. O Verbo de Deus, único mediador entre Deus e a humanidade (1Tm 2,5), assumiu uma cultura concreta para salvar todos os povos. À luz desse mistério, o Concílio Vaticano II reconhece que a liturgia, embora contenha elementos imutáveis por instituição divina, comporta adaptações legítimas às culturas dos diversos povos, sempre que isso contribua para uma participação mais plena e consciente dos fiéis (SC 37–40).
Ao longo da história da liturgia, constata-se que as primeiras formas das ações cultuais cristãs se delinearam no contexto da experiência apostólica. Conforme descreve Neunheuser, “enviados pelo Senhor e revigorados pela descida da força do alto, os apóstolos pregaram a boa nova da ressurreição, do perdão dos pecados e do dom do Espírito Santo” (Neunheuser, 1992). Nesse processo, sob a ação do Espírito Santo e no progressivo distanciamento dos usos sinagogais, foi-se configurando a liturgia do novo povo de Deus, profundamente marcada pela novidade pascal.
No âmbito da reflexão litúrgica contemporânea, Anscar J. Chupungco distingue os conceitos de aculturação e inculturação, ressaltando que a aculturação constitui etapa preliminar indispensável para um processo autêntico de inculturação litúrgica. Segundo o autor, “seria irrealista embarcar em uma inculturação litúrgica sem passar previamente pelo processo de aculturação” (Chupungco, 1992). Essa perspectiva permite compreender a inculturação não como ruptura, mas como amadurecimento progressivo da interação entre liturgia e cultura.
Nesse horizonte, a cultura afro-brasileira, historicamente marginalizada, revela-se lugar teológico privilegiado para a manifestação da graça de Deus. Ao integrar elementos como o ritmo, a dança, a oralidade e a memória dos ancestrais constituem mediações fundamentais da experiência religiosa, por meio das quais o sagrado é percebido e celebrado.
A liturgia inculturada dialoga com a eclesiologia de comunhão e possibilita que a fé cristã seja vivida e celebrada de modo mais enraizado na experiência concreta do povo afrodescendente. Ao integrar gestos, ritmos, símbolos de modo sensível e participativo de forma criteriosa à celebração litúrgica, contribuem para que a assembleia reconheça a própria história e identidade como parte do desígnio salvífico de Deus.
O núcleo desta reflexão situa-se na compreensão da liturgia como lugar privilegiado no qual a Igreja celebra, torna presente e partilha a obra da salvação realizada por Cristo. Tal perspectiva adquire particular densidade teológica quando considerada a partir da experiência histórica e celebrativa das comunidades afro-brasileiras.
Estudos históricos indicam que, no processo de escravização dos povos africanos, chegaram às Américas — e de modo particular ao Brasil — homens e mulheres que já haviam tido algum contato com o cristianismo (Silva, 2008, p. 64; CELAM, 1982). Contudo, como observa Antônio Aparecido da Silva, conhecido como Padre Toninho, o fiel negro, muitas vezes, não conseguia reconhecer-se em uma prática litúrgica que desconsiderava elementos de sua própria cultura. Uma liturgia excessivamente verticalizada, racionalizada e marcada por matriz europeia revelava-se distante de suas dores, de sua condição de cativeiro, bem como de suas lutas e resistências históricas (Silva, 1984, p. 2).
Nesse horizonte, o próprio Magistério da Igreja reconhece que o processo de evangelização na América Latina e no Caribe foi marcado por “luzes e sombras”. O Documento de Aparecida recorda que, apesar das ambiguidades e limites históricos, o elemento decisivo da vida e da missão da Igreja permanece sendo a ação salvífica de seu Senhor (DAp. 5). Tal afirmação permite compreender que a fé cristã, mesmo em contextos de opressão, foi capaz de gerar processos de resistência, esperança e ressignificação da experiência religiosa.
Marcelo Barros destaca que a liturgia deve ser compreendida, antes de tudo, como ação de Deus (opus Dei). Enquanto Corpo de Cristo, a comunidade cristã prolonga o louvor do Filho ao Pai e, nesse movimento de amor, envolve toda a criação, participando da obra salvífica que santifica o mundo (Barros, 1994, p. 29). Essa compreensão ilumina a experiência das comunidades afro-brasileiras que, mesmo diante de exclusões culturais e eclesiais, permaneceram profundamente vinculadas à missão da Igreja.
Ao tratar das celebrações nas comunidades afro-brasileiras, Padre Toninho enfatiza que a liturgia é sempre expressão de uma comunidade concreta, formada por pessoas que vivem situações históricas determinadas (Silva, 1986, p. 19). Por isso, sofrimento, alegria e esperança são assumidos e transfigurados em linguagem litúrgica. Elementos como o uso de tambores, cantos tradicionais, gestos corporais, memória ancestral e ritmos próprios tornam-se, nessas celebrações, mediações simbólicas da experiência de fé vivida pelo povo.
Em consonância com essa perspectiva, José Comblin aprofunda a reflexão ao afirmar que a liturgia celebra a entrada de Deus na história e formaliza o encontro entre Deus e a realidade humana concreta (Comblin, 1989, p. 68). Para o autor, a diversidade litúrgica não pode ser explicada apenas por fatores sociológicos ou por adaptações pragmáticas promovidas por agentes pastorais. Tal diversidade possui valor teológico equivalente ao da unidade, pois ambas são fruto da ação do Espírito Santo (Comblin, 1989, p. 69).
Segundo Comblin, o Espírito desperta a subjetividade humana e conduz a Igreja a expressões litúrgicas que refletem a maneira singular como cada comunidade vive sua relação com Deus e com o mundo. Desse modo, a liturgia deve fazer referência explícita ao vivido concreto, ao contexto histórico e aos acontecimentos que marcam a vida do povo. Essa dimensão histórica e contingente não diminui o valor do absoluto; ao contrário, manifesta que o absoluto se revela na história e nas experiências concretas das comunidades (Comblin, 1989, p. 71).
Nessa mesma linha, a liturgia pode ser definida como a ação pela qual a Igreja celebra, torna presente e partilha a obra da salvação realizada pelo Filho encarnado, morto e ressuscitado. Gregório Lutz observa que a liturgia envolve todas as faculdades da pessoa humana e convoca os sentidos para a participação plena no mistério celebrado (Lutz, 1995, p. 19). De modo semelhante, Julián López Martín afirma que o estudo da liturgia não deve limitar-se à explicação dos ritos ou à dimensão simbólica dos mistérios, mas contribuir para o aprofundamento da vida interior e para uma prática pastoral orientada à santificação das pessoas e ao culto a Deus (Martín, 2022).
A Constituição Sacrosanctum Concilium reafirma essa centralidade ao ensinar que toda celebração litúrgica, enquanto obra de Cristo sacerdote e de seu Corpo que é a Igreja, constitui ação sagrada por excelência, cuja eficácia supera qualquer outra ação eclesial (SC 7). Assim, a liturgia ultrapassa uma compreensão meramente funcional ou estética, configurando-se como mistério que se deixa experimentar por meio dos sinais e símbolos do rito sagrado.
Do ponto de vista antropológico, as celebrações litúrgicas podem ser compreendidas como ações rituais fundamentais à vida humana. Nenhuma pessoa ou grupo social vive sem ritos, mitos e símbolos, os quais desempenham papel estruturante na construção da identidade e do sentido da existência (Buyst, 2012, p. 18). Cada povo ritualiza de modo próprio sua relação com o transcendente, expressando, por meio de festas, gestos e narrativas simbólicas, sua visão de mundo e sua experiência de Deus.
Nesse horizonte, a renovação litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II reafirma que a liturgia é o cume e a fonte da vida e da missão da Igreja (SC 10). Tal compreensão possibilita trazer para o centro da celebração a vida concreta dos povos, suas culturas, símbolos, cores, instrumentos e corporeidades. No caso das comunidades afrodescendentes, a liturgia inculturada torna-se espaço privilegiado para que o corpo historicamente marcado pelo sofrimento seja assumido como lugar teológico, no qual o Mistério Pascal se manifesta como força de libertação, dignidade e esperança.
A liturgia afrodescendente não constitui um rito distinto ou paralelo ao rito romano, mas configura-se como forma inculturada de celebrar a mesma fé da Igreja, em comunhão com a tradição litúrgica e o Magistério. Trata-se de um modo legítimo e teologicamente fundamentado de expressar o Mistério Pascal a partir da experiência histórica, cultural e espiritual do povo negro.
Entre as principais características da liturgia vivida nas comunidades afrodescendentes, destaca-se, primeiramente, a centralidade da assembleia enquanto sujeito celebrante. A celebração não é compreendida como ação reservada ao ministro ordenado, mas como ação do Corpo de Cristo reunido, no qual cada fiel é chamado a participar ativa, consciente e frutuosamente, conforme a orientação conciliar de que é a primeira e indispensável fonte da qual os fiéis podem beber o espírito verdadeiramente cristão (SC 14).
Outra característica fundamental é o uso de cânticos com ritmos afro-brasileiros, acompanhados por instrumentos de percussão, que expressam, de forma sensível e comunitária, a alegria pascal e o louvor a Deus. A musicalidade, longe de ser mero elemento estético, desempenha função teológica e pastoral, pois favorece a interiorização do mistério celebrado e fortalece os vínculos comunitários.
A valorização da corporeidade constitui elemento central dessas celebrações. Gestos, danças, procissões e movimentos rituais permitem que o corpo participe integralmente da ação litúrgica, superando uma compreensão excessivamente racionalista da fé. O corpo, historicamente marcado pela dor e pela exclusão, é assumido como lugar teológico no qual a graça de Deus se manifesta e atua.
Outro aspecto relevante é a evocação da memória histórica do povo negro, compreendida não como recordação nostálgica, mas como atualização da experiência de sofrimento, resistência e esperança à luz do Mistério Pascal. Essa memória dialoga profundamente com a dinâmica da anamnese litúrgica, pela qual a Igreja torna presente, no hoje da celebração, a ação salvífica de Deus na história.
A linguagem simbólica utilizada nas celebrações afrodescendentes caracteriza-se por sua acessibilidade e profunda participação comunitária. Símbolos ligados à terra, à água, à ancestralidade e à vida cotidiana favorecem a compreensão do rito e promovem maior identificação da assembleia com o mistério celebrado. Tais símbolos, quando discernidos à luz da fé cristã e integrados de modo harmonioso à celebração, enriquecem o rito romano sem comprometer sua unidade essencial.
Assim sendo, nas celebrações afrodescendentes percebe-se que o princípio da participação ativa na liturgia, consolidado pelo Concílio Vaticano II (SC 14), torna-se realidade: a liturgia deixa de ser um ato meramente assistido para tornar-se experiência comunitária e integral. Joseph Ratzinger, retomando Romano Guardini, aprofunda essa visão ao enfatizar que a liturgia é um espaço de encontro entre transcendência e corporeidade, onde palavra, silêncio, canto, imagem e gesto se articulam para expressar o mistério (Ratzinger, 2019, p. 392). Essa abordagem supera reducionismos funcionalistas ou estéticos, propondo uma participação que envolve inteligência, sensibilidade e espiritualidade. Contudo, permanece o desafio de evitar que a “atividade” seja confundida com agitação ou protagonismo humano, preservando a centralidade do mistério celebrado.
Nesse sentido, a liturgia afrodescendente revela-se espaço privilegiado de formação cristã, fortalecimento da identidade eclesial e amadurecimento da fé. Ao integrar cultura, corpo e espiritualidade, tais celebrações contribuem para uma vivência mais plena do Mistério Pascal e para uma Igreja que reconhece, valoriza e acolhe a diversidade como expressão da ação do Espírito Santo.
Na Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, em 29 de junho de 2022, o Papa Francisco publicou a Carta Apostólica Desiderio Desideravi, dedicada à formação litúrgica do Povo de Deus. O documento não se apresenta como instrução normativa ou diretório pastoral, mas como texto de caráter meditativo, profundamente enraizado na Sagrada Escritura, na tradição patrística e na teologia litúrgica contemporânea, oferecendo motivações teológicas para redescobrir a verdade e a beleza da celebração litúrgica (DD 14).
Dirigida aos bispos, presbíteros, diáconos, pessoas consagradas e fiéis leigos, a Carta reafirma a centralidade da liturgia na vida da Igreja e retoma, com vigor, as intuições fundamentais do Concílio Vaticano II. O Papa Francisco parte do desejo de fidelidade ao caminho conciliar, alertando para desvios e reducionismos que comprometem a compreensão do Mistério Pascal celebrado. Entre esses desvios, destaca-se o risco de práticas celebrativas que obscurecem o centro da ação litúrgica, seja pela espetacularização excessiva, seja pela redução funcional ou ideológica do rito (DD 17).
Com o objetivo de favorecer uma participação ativa, consciente e frutuosa dos fiéis, conforme desejado pelo Concílio, a Desiderio Desideravi recoloca no centro a necessidade de uma sólida formação litúrgica, tanto dos ministros ordenados quanto das assembleias. O Papa insiste que não se pode improvisar a liturgia nem a reduzir a um conjunto de normas exteriores; trata-se, antes, de um processo formativo que introduz progressivamente no mistério celebrado (DD 28).
Nesse sentido, Felipe Koller observa que a iniciativa do Papa Francisco não visa encerrar debates ou promover retrocessos, mas relançar, de modo decidido, o caminho inaugurado pelo Movimento Litúrgico e assumido pelo Concílio Vaticano II, convidando as comunidades cristãs a uma recepção mais madura e corresponsável da reforma litúrgica (Koller, 2023). A Carta Apostólica, portanto, não se limita a questões disciplinares, mas propõe uma verdadeira espiritualidade litúrgica.
Ao longo de seus parágrafos, o Papa Francisco reafirma que a liturgia constitui dimensão essencial da comunhão eclesial e, por isso, exige estudo, formação permanente e discernimento pastoral. Desde a promulgação da Sacrosanctum Concilium, a Igreja tem oferecido orientações contínuas para a correta aplicação da reforma litúrgica, sempre respeitando a índole e a cultura dos diversos povos. Nesse horizonte, recorda-se que a renovação litúrgica não se realiza por meio de arbitrariedades ou improvisações, mas requer fidelidade à tradição viva da Igreja, obediência e paciência pastoral (Consilium, 1967, nº 735).
O Papa Francisco também recorda que os livros litúrgicos promulgados pelos santos Pontífices Paulo VI e João Paulo II, em conformidade com os decretos do Concílio Vaticano II, constituem a única expressão do lex orandi do Rito Romano (DD 31). Tal afirmação não se apresenta como fechamento à diversidade legítima, mas como garantia da unidade substancial da fé celebrada, dentro da qual a inculturação litúrgica encontra seu espaço próprio.
No contexto atual, o Papa identifica desafios como o clericalismo e determinadas formas de tradicionalismo que empobrecem a experiência litúrgica e enfraquecem a participação do Povo de Deus. Como resposta a esses desafios, destaca a urgência de uma formação integral para a liturgia e a partir da liturgia, compreendida como verdadeiro antídoto contra desvios celebrativos, polarizações eclesiais e reducionismos pastorais (DD 21).
Ressalta-se, ainda, a importância do estudo atento da Instrução Geral do Missal Romano, apresentada como autêntico diretório espiritual e pastoral da celebração eucarística. Tal estudo favorece uma prática celebrativa mais consciente, obediente e frutuosa, em consonância com o espírito do Concílio Vaticano II.
Em síntese, reacender o ardor e a beleza da liturgia significa recuperar a consciência de que a celebração litúrgica é, simultaneamente, encontro com o Cristo ressuscitado e fonte permanente de evangelização. Uma liturgia que não conduz ao encontro com Cristo nem gera compromisso com a caridade fraterna perde sua autenticidade. Da liturgia nasce e se fortalece a comunhão vivida no amor, primeira e mais eficaz forma de testemunho do Evangelho (DD 37).
Assim, toda ação litúrgica, enquanto obra de Cristo e de seu Corpo que é a Igreja, torna-se sinal visível da unidade do povo de Deus e antecipação sacramental do Reino que vem, fortalecendo a missão evangelizadora da Igreja no mundo contemporâneo.
Conclusão
A reflexão desenvolvida ao longo deste artigo evidenciou que a expressão celebrativa do Mistério Pascal nas comunidades afrodescendentes constitui não apenas uma possibilidade pastoral legítima, mas uma exigência teológica profundamente enraizada na fé cristã e na tradição litúrgica da Igreja. À luz do Concílio Vaticano II, especialmente da Constituição Sacrosanctum Concilium, a liturgia manifesta-se como cume e fonte da vida e da missão eclesial, lugar privilegiado no qual a obra da salvação se torna presente na história concreta dos povos.
Nesse horizonte, as celebrações litúrgicas vividas pelas comunidades afro-brasileiras revelam-se como espaço fecundo de encontro entre o Evangelho e a cultura, no qual símbolos, gestos, ritmos e corporeidades assumem valor teológico ao expressarem a fé de um povo marcado por experiências históricas de sofrimento, resistência e esperança. A inculturação litúrgica, longe de representar ameaça à unidade do rito romano, manifesta-se como dinamismo próprio da catolicidade da Igreja, enriquecendo o lex orandi com expressões diversas do mesmo Mistério Pascal.
Os documentos do Magistério, em particular o Documento de Aparecida e a Carta Apostólica Desiderio Desideravi, reafirmam que uma liturgia autenticamente celebrada conduz ao encontro com o Cristo ressuscitado e gera compromisso com a caridade, a justiça e a promoção da dignidade humana. Nesse sentido, a experiência litúrgica das comunidades afrodescendentes evidencia o caráter evangelizador da celebração, que se torna, simultaneamente, anúncio do Reino, lugar de resistência frente às estruturas de exclusão e sinal profético de esperança.
Conclui-se, portanto, que a liturgia inculturada, quando vivida em fidelidade ao Magistério e em diálogo com a realidade histórica dos povos, fortalece a comunhão eclesial e contribui para uma Igreja mais próxima, samaritana e missionária. Valorizar a experiência celebrativa das comunidades afrodescendentes é reconhecer que o Espírito Santo continua a conduzir a Igreja pelos caminhos da história, suscitando formas sempre novas de testemunhar a fé no Cristo morto e ressuscitado, fonte de vida plena para todos.
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