EDITORIAL
DOI: https://doi.org/10.52451/na3z2q64
Doutor e Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, PUC/ RS. Especialista em Metodologia Pastoral pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões - URI. Graduado em Teologia pelo Instituto de Teologia e Pastoral (Itepa) e em História pela Universidade do Oeste de Santa Catarina - UNOESC. Professor da Faculdade Teologia e Ciências Humanas, Itepa Faculdades. Email: zaninipastoral@hotmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8771-3799
Ari Antonio dos Reis
Mestre em Teologia Pastoral pela PUC/SP. Professor da área de Teologia Pastoral e Teologia da Revelação e professor do Curso de Bacharelado em Teologia da Itepa Faculdades de Passo Fundo - RS. E-mail: reis.abt@gmail.com, Orcid: https://orcid.org/0009-0000-2096-6193
A revista Teopráxis traz para a reflexão um tema candente e de grande complexidade no cenário atual. A questão da negritude, em suas múltiplas compreensões, toca uma das urgências mais necessárias em todos os níveis da sociedade contemporânea. Basta considerar os problemas estruturais criados e perpetuados pelo preconceito histórico e social contra as pessoas negras.
Daí a necessidade de assumir essa temática como objeto de reflexão, com o objetivo de contribuir para a superação dos males que afetam a dignidade humana e as relações sociais. Recentemente, o Papa Francisco, por meio de sua significativa Exortação Apostólica Dilexit Nos (DT), ajudou a recentrar e rediscutir a centralidade dos pobres e marginalizados na fé cristã. A opção pelos pobres coloca os cristãos no caminho da santificação.
A santidade cristã floresce, com frequência, nos lugares mais esquecidos e feridos da humanidade. Os mais pobres entre os pobres — que não apenas carecem de bens, mas também de voz e do reconhecimento de sua dignidade — ocupam um lugar especial no coração de Deus. São os preferidos do Evangelho, os herdeiros do Reino (cf. Lc 6,20). É neles que Cristo continua a sofrer e a ressuscitar. É neles que a Igreja reencontra o chamado a manifestar sua identidade mais autêntica (DT 76).
Sem dúvida, as pessoas negras, tanto no contexto social quanto no universo eclesial, estão entre aquelas cuja dignidade é mais fragilizada. Não é necessário um conhecimento aprofundado para perceber os preconceitos e as hostilidades que marcam o cotidiano da população negra. Em conversas com trabalhadores do comércio, ouvimos relatos de que pessoas negras - são frequentemente vigiadas e suspeitas de roubo em supermercados, simplesmente por serem negras. Essa realidade evidencia o quanto o racismo estrutural continua a moldar práticas e relações no cotidiano social.
Diante desse problema e de seus desafios, propomos este dossiê da Revista Teopráxis. Os textos aqui reunidos provêm de perspectivas diversas e de múltiplos ângulos de abordagem, buscando fomentar um debate acadêmico sério e comprometido com a realidade. Dialogam com temas como: teologia negra e hermenêuticas sociais e culturais; espiritualidades afrodescendentes e práticas de cuidado; racismo estrutural, fé cristã e justiça social; narrativas bíblicas e releituras a partir da negritude.
O dossiê se abre com uma entrevista com Ir. Regina, presidenta das Pontifícias Obras Missionárias (POM), que partilha sua experiência de trabalho, missão e os desafios vividos a partir de sua condição de mulher negra em espaço de liderança eclesial. Como ela mesma afirma:
Minha nomeação, feita pelo Dicastério da Evangelização, em Roma, sob indicação da CNBB, como a primeira mulher negra a ocupar a Diretoria Nacional das POM no Brasil, em quase 50 anos de história da instituição no país, já é, em si, um ato que questiona e desafia a lógica excludente do racismo estrutural. A presença de um corpo de mulher negra neste espaço de liderança e decisão abre uma necessária visibilidade em esferas da Igreja onde, historicamente, a representatividade negra é sub-representada, especialmente em cargos de direção” (Entrevista).
O texto de Claudecir dos Santos propõe a reflexão “Teologia e Negritude: por que temos que falar desse tema e como falar escutando?”. O autor incentiva o estudo da teologia a partir da experiência negra, sublinhando a necessidade de uma abordagem crítica e comprometida com a escuta das vozes historicamente silenciadas. A reflexão problematiza a invisibilidade negra e evidencia por que essa temática deve ser tratada desde a própria experiência negra.
O artigo, de Marcos Santana, adentra no tema da “Cristologia negra libertadora e negritude”. Trata-se de uma reflexão crítica da fé elaborada a partir de um horizonte hermenêutico que articula cristologia e negritude, com vistas à transformação da realidade sócio-histórica e ao enfrentamento de toda forma de opressão. A tese central sustenta que a situação do povo negro e pobre, desde a escravidão até o racismo estrutural contemporâneo, constitui uma realidade sacramental da presença do Verbo encarnado: o Jesus Negro Libertador.
“Esistir é irrupção: memória, existência, resistência, denúncia e futuro na experiência negra” é a contribuição de Heloísa Helena Bento. O texto propõe uma reflexão a partir de cinco conceitos fundamentais: sankofa, afropessimismo, “esistenciar”, afrofuturismo e ubuntu. Com base em uma abordagem histórica e filosófica, a autora percorre os impactos da escravidão, da colonização e do racismo estrutural, articulando saberes ancestrais e contemporâneos que revelam a complexidade da experiência negra.
A contribuição de Guanair Santos, “A Liturgia, cume e fonte da missão da Igreja: a expressão celebrativa do Mistério Pascal a partir das comunidades afrodescendentes”, analisa a celebração litúrgica dessas comunidades à luz da liturgia católica e dos desafios impostos pelo racismo estrutural na sociedade brasileira. Partindo da compreensão conciliar da liturgia como cume e fonte da vida e da missão da Igreja, o artigo argumenta que as comunidades afro-brasileiras encontram na celebração um espaço privilegiado de pertença, reconhecimento e ressignificação de sua identidade cristã. O processo de inculturação litúrgica é apresentado como indispensável para uma verdadeira experiência de encontro com Cristo, integrando símbolos, gestos, ritmos e expressões da cultura afrodescendente, sem prejuízo da unidade eclesial.
Lázaro Munis e Solange Palazzi refletem sobre as Irmandades religiosas, também conhecidas como Ordens ou Confrarias, uma das expressões mais significativas da religiosidade católica leiga no Brasil. Originadas no período colonial, essas organizações desempenharam funções espirituais, sociais, assistenciais e culturais, alcançando nossos dias. De origem nas corporações leigas portuguesas medievais, ao serem transplantadas para o contexto americano, adaptaram-se às novas realidades locais, criando formas próprias de participação leiga, resistência cultural e expressão artística no interior da Igreja.
Por fim, Frei Nédio Pertile, em nome dos organizadores, brinda a revista com uma instigante provocação a partir do livro, em dois volumes, sobre o legado do notável bispo Dom Orlando Dotti, convidando à memória agradecida e ao compromisso com uma Igreja cada vez mais fiel ao Evangelho da justiça, da dignidade e da vida plena para todos.
Estamos entregando à geração atual e às futuras gerações a reconstituição de um legado. Trata-se do resgate histórico de um extenso e diversificado magistério relacionado à educação da fé, à gestão diocesana e ao engajamento social. Reconstituímos uma biografia que honra a missão da Igreja e o valor do ser humano inserido na sociedade. A reconstituição deste legado é um ato de justiça para quem é considerado “grande homem”, “profeta do Sul”, “profeta dos movimentos sociais”, “o bispo da terra e dos pobres”, “o amável Pai espiritual”, de quem tivemos a graça de conhecer, conviver e trabalhar juntos” (organizadores).
Este dossiê não se propõe a oferecer respostas prontas nem a encerrar o debate. Ao contrário, deseja provocar perguntas, despertar consciências e abrir caminhos de escuta, diálogo e conversão. Cada texto aqui reunido é um convite a deixar-se interpelar pela experiência negra como lugar teológico legítimo, no qual a fé cristã é pensada, celebrada e vivida em meio às dores, resistências e esperanças de um povo historicamente ferido, mas jamais vencido.
Ao adentrar estas páginas, o leitor e a leitora são chamados a um exercício de deslocamento: escutar vozes que, por muito tempo, foram silenciadas; reconhecer a presença do Cristo crucificado e ressuscitado nos corpos negros; e permitir que essas narrativas iluminem novas práticas eclesiais, pastorais e sociais. Ler estes textos é aceitar o desafio de uma fé que se deixa tocar pela realidade, que assume a justiça como exigência evangélica e que reconhece, na diversidade de experiências, a riqueza do mistério de Deus.
Que este dossiê inspire estudos, gere inquietações fecundas e fortaleça o compromisso com uma Igreja em saída, samaritana e antirracista, fiel ao Evangelho do Reino. Que a leitura seja não apenas um exercício intelectual, mas também um passo concreto no caminho da conversão pessoal, comunitária e eclesial.